30 dezembro 2009

Acaba o ano

Não faço um balanço do ano que passou. Apenas um resumo: foi o ano em que mais cresci, enquanto pessoa e profissional; e o mais sofrido de todos.

Não faço lista de desejos.
Se tal fosse viável, apenas pediria: "É possível saltar a passagem de ano, sff?"
(e isso não é um desejo, mas uma utopia)

27 dezembro 2009

Lobo Antunes, que bem que sabe...

(foto retirada da net)

- Como estás tu?

ou seja a pergunta mais difícil de responder que conheço. Nunca sei como estou. Estou hexagonal. Estou cor de laranja. Estou chato como a potassa para mim mesmo. Faz-me uma pergunta menos complicada, Júlio.

Este o mote da minha escrita, hoje. Uma crónica de António Lobo Antunes, de que transcrevo um pequeno excerto.

Estou sozinha. Normalmente faço boa companhia a mim mesma.

Mas desta vez sinto algum vazio que me impele a não parar. De ver televisão (coisa que poucas vezes faço), de passar pelos blogues, de preparar roupas ou planos de trabalho.

Os miúdos estão com o pai e eu não reconheço o silêncio. Embora este me faça falta, para ouvir os meus próprios pensamentos.

Preciso de me ocupar. Com quê? Uma história continua à minha espera, mas a imaginação evadiu-se.
Há prateleiras e prateleiras de prosa e poesia ansiando por serem lidas. Há um sofá, em que raramente posso descansar, a chamar por mim.

Há pensamentos turbulentos e mãos frias. Momentos que se alongam.

Gostaria de saber escrever-vos poemas. Não sei.

Vou mimar o sofá. Passar os dedos e o olhar pelos livros.

Prestar atenção a um filme, ou a mais um episódio de séries de crime, como fiz ontem.

Com uma manta no colo, e a consciência de que se devem aproveitar todos os momentos,
especialmente os raros.




23 dezembro 2009

Neste Natal...



... quero saber moldar palavras em poesia.

Quero abraços que não vão embora.

Quero a realização de promessas não formuladas.

Quero as massagens que o meu filho me dá só com um dedo, passeando pela minha testa para me acalmar.

Quero as frases espontâneas da minha filha dizendo, cantando o quanto gosta da mãe.

Quero telepatia nas amizades, que adivinham estados de espírito.

Quero presenças de afectos.

E, claro, quero que a saúde nos proteja, sempre, a todos.

(eu sei que é muita coisa, mas já que é para pedir ao Pai Natal...)



21 dezembro 2009

Começa o Inverno


(para uma explicação detalhada sobre o tema, transcrevo as linhas que li no site do Observatório Astronómico de Lisboa)
Solstício de Inverno


Este ano o Solstício de Inverno ocorre no dia 21 de Dezembro às 12h04m. Este instante marca o início do Inverno no Hemisfério Norte. É a estação mais fria do ano e prolonga-se por 88,99 dias até ao próximo Equinócio (primavera) que ocorre no dia 20 de Março de 2009 às 11h44m.

Solstícios: pontos da eclíptica em que o Sol atinge as posições máxima e mínima de altura em relação ao equador, isto é, pontos em que a declinação do Sol atinge extremos: máxima no solstício de Verão e mínima no solstício de Inverno.

A palavra de origem latina (Solstitium) está associada à ideia de que o Sol ficaria estacionário, ao atingir a sua posição mais alta ou mais baixa no céu. Veja-se a figura do analema solar (posição do sol no céu ao meio-dia local ao longo de um ano) para um lugar.

NOTAS SOBRE O SOLSTÍCIO DE INVERNO E AS DIFERENTES CULTURAS

O Solstício de Inverno era conhecido como o “nascimento do sol” desde a era mais remota e festejado por todos os povos no hemisfério norte, que é também o de maior população (maiores massas continentais).
Este acontecimento astronómico era muito importante visto marcar o início do novo ciclo do Sol sobre a Terra, com dias cada vez maiores e mais quentes até ao novo retorno.
A esta data associavam-se rituais ou festas muito importantes. Por exemplo:
As civilizações mais antigas consideravam o Sol como sendo o filho da luz, a luz para eles representava Deus em vida.
Entre os druídas, o solstício era comemorado como o dia da fertilidade e muitas mulheres tentavam engravidar nesse dia.
Nos povos asiáticos, o solstício era representado por um velho de barbas brancas e roupagem vermelha e branca. Esse ser representava Deus na Terra e os asiáticos acreditavam que esse Deus encarnado trazia para a humanidade o seu filho sol.
Os Egípcios festejavam o solstício com rituais de magia que envolviam o cultivo de sementes.
Os Indianos festejavam-no transcendendo os corpos em rituais dimensionais mágicos.
Entre os povos das Américas no hemisfério Sul, os Incas mais antigos e os indígenas comemoravam o Solstício de Inverno no dia 21 de Junho e o Solstício de Verão no dia 21 de Dezembro.
Os Maias elaboraram um calendário perfeito usando o solstício como o início do ciclo do sol e da lua na Terra.
Já nos dias de hoje e talvez também por pressão da sociedade de consumo há grupos e colectividades que começam a festejar os equinócios (a festa da Primavera) e solstícios.

A FESTA CRISTÃ DO NATAL

No ano 336 D.C., o Imperador Romano Constantino I alterou os motivos das grandes festas do solstício e passou a ser comemorado o nascimento de Cristo, o salvador da humanidade, em vez do nascimento do sol, na data fixa de 25 de Dezembro. A partir de então Roma e todo o seu vasto império abraçam o Cristianismo o que deixa profundas marcas no futuro de toda a civilização ocidental.
Entre os povos das Américas no hemisfério Sul, os Incas mais antigos e os indígenas comemoravam o Solstício de Inverno no dia 21 de Junho e o Solstício de Verão no dia 21 de Dezembro. Começaram a festejar o Natal em Dezembro só na época da expansão cristã.
Assim, o solstício alterou o seu significado cultural com o tempo e passou a ser comemorado como o “Nascimento de Cristo, o filho de Deus”, nesta data que hoje conhecemos como Natal.

19 dezembro 2009

Agora, sempre-em-festa...


Dia 16: jantar de equipa. Representação de cena setecentista, com todos os requisitos: cenário, guarda-roupa, adereços, caracterização, direito a filmagem, muita risota e algum improviso (só algum :-)  ...)

Dia 17: jantar da unidade de negócio. Deslocação de autocarro turístico de dois pisos, dança e mais dança, até quarenta e tal saudáveis maluquinhos acertarem na coreografia de I´ve gotta feeling that tonight´s gonna be a good night.
Depois: sentadinhos a jogar ao amigo secreto, com muita imaginação e criatividade para versos, adivinhas que conduzissem ao destinatário de cada presente.

Dia 18: jantar do antigo emprego. Brindes e mais brindes, shots vitamínicos. Mais amigo invisível.

Dia 19: Festa de Natal da empresa para filhos dos colaboradores.

Dia 20: Aniversário da tia. Almoço de família, embora reduzido.

Dia 21: Jantar de amigos, tipo empresa familiar.

15 dezembro 2009

11 dezembro 2009

Desafio: manias


Numa das últimas rondas pela vizinhaça da blogosfera, vi que a Vekiki me lançou um desafio curioso:
 
"Cada bloguista participante tem de enunciar 5 manias suas, hábitos muito pessoais que os diferenciem do comum dos mortais. E além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher 5 outros bloguistas para entrarem, igualmente, no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blogues aviso do recrutamento. Cada participante deve reproduzir este regulamento no seu blogue."


Ora, como se sabe, analisar as próprias manias não é coisa evidente, a que se consiga responder logo, de caras.
Após alguma reflexão, passo, então, a enumerar as manias que me lembrei que me caracterizam:
 
1- Não saio de casa sem anéis. Nem relógio e chaves.
 
2- Normalmente, acoplado à minha pessoa anda sempre um livro.
 
3- Tenho tendência para "excursões mentais". Passo a explicar: nunca fui pessoa de ficar muito tempo concentrada apenas numa actividade. Se tiver uma carga horária pesada de formação, por exemplo, tendo a estar com um ouvido no burro e outro no cigano, o que sucede desde a minha infância.
 
4- Tenho um defeito que detesto: sou demasiado ansiosa. Incapaz de esquecer afazeres ou responsabilidades pontualmente e relaxar.
 
5- Ao volante, se começo a irritar-me, a exclamação mais branda de que sou capaz é "Anda!", pronunciado com ar de poucos amigos (eu disse a mais soft; outras nem reproduzo aqui- não ficaria bem...)
 
Agora, convido a Blue Velvet, a Maria, a Elvira, a Girafa Cor de Rosa e a Pitanga a responderem ao desafio, se este lhes agradar.

09 dezembro 2009

Texturas algarvias #1





No fim-de-semana fui ao Algarve, em trabalho.
Alguém do Duas Lentes sugeriu que aproveitasse para fotografar.
Aqui têm a primeira sequência de fotos.

06 dezembro 2009

Calor nos dentes


Eu: - Não te faz doer os dentes, trincares assim o gelo?
Vasco: - Não, é muita bom. Eu tenho calor nos dentes e isto é bom.

(tem tanto calor nos dentes que "abriu mais uma janela". Neste momento, tem três dentes em falta e um em crescimento)

03 dezembro 2009

Um fim-de-semana diferente


No passado Sábado rumámos às iluminações de Natal na baixa de Lisboa.
A ideia foi fazer com que os meus filhos começassem a interiorizar a época de Natal, o espírito e o consumismo, a partilha e o interesse pelas tradições. Uma lição vivida. Com direito à chuva de Dezembro e à visão dos sem-abrigo da cidade, mas também às decorações nas ruas, a um lanche na esplanada da Pastelaria Suíça, aos skaters da Praça da Figueira e a pequenas explicações acerca das ruas e das situações por que passámos.

O Domingo começou brilhante, mas rapidamente se toldou. Ameaçou chuva, cumpriu a ameaça, e foi trocando de semblante uma e outra vez.
Como sabem, manhãs de Domingo são manhãs gratuitas nos museus. E eu levei o Vasco e Mafalda ao Planetário, onde nunca haviam ido.

Ali revivi alguns conceitos escondidos na memória não rotineira.
Ali o meu filho soube que Galileu Galilei sofreu por ter tido uma visão muito mais à frente que a do seu tempo, ao afirmar que a Terra girava em torno do Sol e que Júpiter tinha quatro Luas, enquanto o nosso planeta apenas contava com uma.
Já nem me lembrava que Plutão não é mais considerado um dos planetas principais!
Até tivemos direito a um estrondo extra, antes dos que constam da encenada trovoada, quando a electricidade faltou. Quando a sessão recomeçou, ele recostou-se na sua poltrona inclinada, e ela, relutante, pediu-me: “Mãe, amanhã não vôtamos a ête cico, está bem?”.

Enquanto faziam o reset do programa informático, a senhora que apresentava a sessão explicava-nos “não ligue a este, nem a este, nem a este, que estamos a ver se pomos aqui a imagem que deve aparecer agora”, e íamos vendo alguns planetas sendo “descartados” da escuridão que se projectava na cúpula do Planetário. “Então vamos ver se pomos aqui o…” voltava a locutora, e a minha filha concluiu a ideia: “Ovo!” (esperta, a miúda!..)

Foi um fim-de-semana diferente, mas onde continuaram presentes os valores de afecto, curiosidade e dinamismo que quero que façam sempre parte das nossas vidas.

30 novembro 2009

Sabiam que...?



Recomendo que não deixem de ver. E de reflectir.
Sobre a mudança, a informação, a necessidade constante de
evolução e a
VELOCIDADE a que a mudança se dá.

27 novembro 2009

Novo desafio



Eu já tive...

...quinze anos e a convicção profunda de que a vida é uma sucessão de alegrias

Eu nunca...
... fui a África (se exceptuarmos o Norte deste continente) e nunca fiz surf

Eu sei...
... que nada sei. Mas cada dia aprendo qualquer coisa

Eu quero...
...partilhar. Sensações, projectos, vitórias, sorrisos, ... a VIDA

Eu sonho...
...conhecer África, nomeadamente Angola. E tenho sonhos que são tão meus, tão do foro pessoal, que ficam cá dentro, na "caixa" onde guardamos as emoções

(este desafio foi-me transmitido pela Blue Velvet. Consiste em responder às cinco questões que coloquei em destaque. Quem quiser pegar nele, que responda também. Obrigada, BV)

25 novembro 2009

Dia Internacional contra a violência contra as mulheres

(foto retirada do site da APAV)

Existem situações que são problemas sociais graves mas que não levam cada um de nós a reflectir sobre elas.

Hoje comemora-se o Dia Internacional Contra a Violência contra as Mulheres. A violência, é importante frisar, não é constituída "apenas" pelo estalo, o encontrão, o pontapé, o empurrão, a violência sexual. Esta é a violência do macho (por vezes com capa de ser social perfeito, bom anfitrião, aparentemente atencioso com mulher e filhos), reiterada, com repetidos pedidos de desculpas que vão sempre redundar num regresso à agressão.

Violência é muito mais abrangente que isso. Pode ser insidiosa; instala-se sem que a vítima se aperceba inicialmente. Primeiro perde-se a comunicação, depois a calma, a seguir o respeito, por fim qualquer limite pode ser ultrapassado. Ou não. Mas ficam as sequelas psicológicas. E, consequentemente, sociais, económicas.

Se os números dos registos da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) têm registado uma tendência de aumento, o projecto europeu DoVE (Domestic Violence against Women/Men in Europe: Prevalence, determinants, effects and policies/practices) frisa que se estima que um terço das mulheres em Portugal tenha sido já vítima de algum tipo de violência doméstica.

Um terço é demasiado! Imaginem quantas pessoas cada um de nós conhecerá que se enquadra nestas estatísticas! E não sabemos… Será que fazemos por saber?

Para quando a conscencialização global? Para quando a denúncia por parte de quem tem conhecimento, já que boa parte das vítimas não apresenta queixa? Para quando a punição real, e em tempo útil, desta forma de violência cobarde, socialmente escamoteada e destruidora de famílias?
Para quando uma sociedade justa, igualitária e com uma consciência global?
Talvez quando cada um de nós faça algo mais que leitura, quando o tema é um tema como este. Delicado. Porque não dizer: vergonhoso?

21 novembro 2009

Afinal, não foi só susto...



... o Vasco fracturou mesmo o braço
:-(
E, após o sofrimento psicológico e a dor que o fez chorar e dizer que não queria mais gesso, teve um asssomo de preocupação com médico e enfermeiras e ainda foi perguntar-lhes se tinham ficado zangados por ele ter chorado...

18 novembro 2009

Grande susto!



- Bom dia, estou a falar com a mãe do Vasco?
(aperto no peito)
- Está, sim…
- Olhe, daqui fala a Isaura, da escola do Vasco. Eu estou a ligar-lhe porque ele caiu durante o intervalo e diz que está cheio de dores. Parece melhor levá-lo ao hospital para fazer um raio-x…
(minha cabeça à roda)
- … quer vir cá ou quer que chamemos a ambulância e vai ter ao hospital? Acha que pode?
- D. Isaura, nem sei que lhe diga. Agora estou tão preocupada... Ma sim, é capaz de ser melhor.
- Então nós chamamos a ambulância.
- Faça-me esse favor, então, e eu vou ter ao hospital.
- Esteja descansada, eu vou com ele.

Falei com o chefe, arranquei para o hospital. Pulso acelerado, pensamentos ainda mais acelerados. Será que fracturou? O que terá acontecido? Qual será o braço? Será o esquerdo, que é a mão com que escreve? Como estará ele? Assustadíssimo, de certeza… e cheio de dores, coitadinho do meu querido!
Eu, aquela mulher de sangue frio em situações pesadas, até me enganei no caminho. A chuva, densa como nevoeiro, escondia-me o percurso, os vidros embaciavam e eu desliguei a música e liguei o ar condicionado.
Queria contar a alguém o sufoco, desabafar. Mas hesitava. Não iria espalhar preocupações vãs? Liguei só ao pai, alertando-o que talvez fosse só uma medida de precaução.

Cheguei. O Vasco ainda não tinha dado entrada. Fui esperar na rua, frente à urgência. A ambulância chegou logo a seguir. Dela vejo sair o meu menino, com ar triste e frágil.
Passo o braço em seu redor, mimo-o sem grande ênfase enquanto me inteiro do que se passou. Reparo que a zona do cotovelo está muito inchada. O pulso e os dedos também apresentam edema visível. Passada a papelada e a triagem, radiografia. “A senhora pode esperar aí fora”…

Sufoco.
Ele sai. Ninguém diz nada. Terá fracturado?
i-n-f-i-n-i-t-o-s m-o-m-en-t-o-s…
Chamam-no novamente. Precisam de fazer novas incidências. Desta vez posso entrar. Continuo sem informação absolutamente nenhuma. Será que partiu?

Ao regressarmos à urgência pediátrica, a enfermeira, nossa conhecida, informa que não partiu. “Isto hoje vai ser muito gelo e repouso”. Alívio.
Mas vai ser visto pelo ortopedista.
Não é mais que uma tendinite no cotovelo, mas requer tala. Após muito choro aflito, “não quero gesso!”, “quando é que eu tiro isto?”, saímos. Braço suspenso com uma tira de gaze. Pensamentos nas camisolas viáveis para os próximos dias, esperança que a consulta na próxima Sexta seja já para o aliviar daquele peso desconfortável.
A primeira noite foi interrompida mais que uma vez pelas dores. Agora, a rotina lentifica-se, seja no vestir e despir, no banho ou em qualquer outra tarefa. Mas o coração de mãe bate normal quando não está nestes momentos.


(este episódio aconteceu na passada Segunda)

16 novembro 2009

Há dois anos a manhã acordou assim

















e eu fiquei deslumbrada ao abrir as portadas.
Um dia colorido, logo ao amanhecer, é prenúncio de boa disposição.
Agora, Novembro já não tem estes tons, eu já não tenho aquelas portadas
e o céu perdeu a poesia...

14 novembro 2009

Apetecia-me ler-te, neste momento.
Lembro-me que a tua escrita me abria sorrisos.
Hoje, falta-me vida para viver...

09 novembro 2009

O sentido da música

(foto retirada da internet)

Encolhíamo-nos ao aproximarmo-nos daquele quarto.
O menino, André, tinha apenas 24 meses, três dos quais passados no Hospital de D. Estefânia, para onde queimaduras de terceiro grau o haviam conduzido, numa luta diária contra as lesões que um corpo tão pequenino se esforçava por vencer.
Encolhíamo-nos pelo quadro que nos aguardava: aquele bebé era o rosto da infância maculada, os seus olhos mirando-nos pesados de dor, os gritos de quem não quer mais que ver todo esse cenário terminado.
O pai do André esforçava-se por acalmá-lo, com uma voz sussurada de amor. A mãe, exausta, havia saído por momentos do espaço onde o filho passara os últimos meses da sua ainda curta vida.
A minha experiência de voluntariado nos hospitais já me dotou de alguma força para encarar cenas dolorosas com a empatia necessária mas acompanhada da devida neutralidade. Mas esta cena não me sairá nunca da memória. Muito mais que as noitadas a estudar, as viagens realizadas ainda durante os anos do Conservatório de Música, a hospitalidade recebida e retribuída entre colegas de diferentes países.
Era de exaustão o olhar daquele pai. Ombros vergados ao peso da dor pelo sofrimento do filho, incapazes de projectar no futuro um simples passeio pelo campo, uma corrida atrás duma bola, uma tarde de praia furando ondas.
Habituado a ver cada bata branca como símbolo de mais uma sessão terapêutica, o André gritava e chorava quando alguém de branco se aproximava.
Mas naquele momento entrei eu. E o meu violino. O pequenino olhou-me com a expectativa cravada na sua expressão surpreendida e deu-me o benefício da dúvida.
Coloquei a voz naquele tom pacífico de quem quer ser escutado calmamente e transmitir essa mesma calma e perguntei-lhe se podia tocar para ele, mostrar-lhe “como faz o violino”.
As notas emergiram no ar, formando uma melodia. Claire de Lune.
A mãe, recém-entrada no quarto, estacou, comovida com a reacção do André. O miúdo olhava, estupefacto, ora para mim, ora para o violino, investigando a proveniência daqueles acordes que o deixavam alheio a todo o sofrimento, um sorriso a embelezar-lhe ainda mais o rosto redondo.
Quem passava aproveitou para parar. E foi assim, nesta pequena audiência de um filho, seus pais e alguns profissionais de saúde que rejubilei com a minha opção de vida. Com a prova de que a música tem propriedades terapêuticas.

06 novembro 2009

Solidariedade

O Centro de Apoio a Deficientes, na Parede, está a desenvolver uma campanha, em parceria com a CNAD - Cooperativa Nacional de Apoio Deficientes.
A Campanha "O NOSSO TECTO" é representada por este relógio, produzido a partir de uma tela pintada por uma menina com hiperinsulinismo (uma doença metabólica que provoca morte de células cerebrais).


O relógio tem um valor simbólico de 29,90€.
O objectivo da iniciativa é angariar fundos para a construção da habitação temporária para deficientes, que constitui, também, a forma de manter os postos de trabalho destes cidadãos.

Para mais informações visite o site: http://www.onossotecto.com/

04 novembro 2009

Porque sim

(foto minha)

Entre por essa porta agora
E diga que me adora
Você tem meia hora
Pra mudar a minha vida
Vem, v'ambora
Que o que você demora
É o que o tempo leva


Ainda tem o seu perfume pela casa
Ainda tem você na sala
Porque meu coração dispara
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
Dentro da noite veloz


Ainda tem o seu perfume pela casa
Ainda tem você na sala
Porque meu coração dispara
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
Na cinza das horas



Adriana Calcanhoto



28 outubro 2009

Todos temos de conseguir recuperar a capacidade de voar.
Começa na cabeça e, depois, estende-se ao resto de nós.

(a propósito de um comentário que deixei noutro blogue; e também porque anda por aí muita gente pessimista...)

26 outubro 2009

Parabéns, meu filho!



Foram horas de expectativa no dia 8 de Março de 2002, dia em que fiquei a saber ao final do dia que estava grávida. Uma alegria confirmada por teste caseiro ao fim de um dia em que percorrera diversas farmácias em busca de uma embalagem com teste duplo.
Primeiro, uma passagem na casa da futura avó, com o teste e um exemplar da Avós e Netos. Depois, um jantar num bom restaurante, para comemorar não só o Dia da Mulher mas também esta notícia maravilhosa.
Foram meses de desaceleração. Deixei de percorrer meio Portugal a 160km/h, que havia mais uma vida a proteger.
Não obstante, quantas vezes almocei cerca das 4 da tarde! O trabalho obrigava a este ritmo, até que, umas semanas antes do final da gestação, as contracções me obrigaram a parar. O edema dos membros inferiores levou-me a calçar 4 números acima do meu, parecia que tinha feito um voo transatlântico, os pés prestes a rebentar.
Noites mal dormidas, fome nocturna, muito ponto de cruz, o diário da gravidez do início ao fim. Foi uma experiência e tanto!
As últimas horas em que “co-habitaste” o meu corpo foram-se tornando insuportáveis, mas finalmente tornaste-te o sonho realizado. Mais carne que a minha própria carne, mais energia que a minha energia, mais vida que a minha própria vida.
Hoje, dia em que completas sete anos duma existência tão rica, o meu desejo maior é poder ser para ti sempre a mãe que tu mereces. És o melhor filho que se pode imaginar e eu só quero corresponder sempre a esse amor incondicional que me dedicas, meu filho, meu amor primeiro.

24 outubro 2009

Dundo, Memória Colonial*


 
Passou no Grande Auditório da Culturgest. Já havia sido exibido no Cinema Londres.
Desta vez, mais de acordo com as minhas possibilidades familiares, não deixei passar a ocasião. Foi muito bom. Pelo documentário, pela companhia, pelas pessoas que tive ocasião de encontrar (embora lamente não ter tido mais tempo para ir ficando...), pela emoção.
Foi uma ocasião excelente para troca de ideias, para conhecer mais sobre a Diamang, para ver os verdadeiros protagonistas, os protagonistas já falecidos também, para tanto...
Gostei mesmo, quer do documentário, quer do seu significado. Fica algo por dizer. Algo que sinto, que é muito meu...

*Diana Andringa



Portugal, 2009, 60’

A realizadora Diana Andringa nasceu em 1947 no Dundo, centro de uma das mais importantes companhias coloniais de Angola, a Diamang. Ali foi feliz. Ali aprendeu o racismo e o colonialismo. Agora volta, porque o Dundo é a sua única pátria, a mais antiga das suas memórias.



Secção Competição Nacional

20 outubro 2009

Escolhi esta imagem para hoje partilhar convosco porque me transmite calma. Que eu prezo mas nem sempre consigo garantir.
Têm sido dias (ainda) mais acelerados. Digo "ainda" porque sou acelerada por natureza.
Novo emprego, mas ligação ao anterior, nova formação, tudo novidade: o globo ocular e suas patologias eram, até agora, desconhecidos na íntegra, os procedimentos internos, a parte da informática, as caras, os nomes, o programa de formação (constantemente improvisado), novos instrumentos de trabalho, enfim, uma panóplia de desafios a requererem tempo, dedicação. Stakeholders internos e externos e respectivas expectativas para gerir.

Além disso, houve uma visita estrangeira por uma semana na nossa casa, há o aniversário do Vasco em breve e tudo o que isso acarreta em termos de preparativos...
Duas crianças, adoráveis mas aceleradas como eu, e tudo o que são as rotinas necessárias ao nosso dia-a-dia. Os meus stakeholders pessoais.
E o regresso a outros tempos, outras paragens, numa investigação particular que ficou muito tempo a marinar e agora retomei e me fará, inclusivamente, reservar algum tempo para documentários e outras fontes.

Numa análise swat, que tento fazer a título privado sempre que se aplique, diria que as ameaças e as fraquezas estão a tentar fazer a balança pender a seu favor, em deterimento das forças e das oportunidades. Mas sei que farei destas últimas as vencedoras do confronto.
Tenho é de me proporcionar maior descanso, razão pela qual a minha presença nos vossos blogo-espaços poderá ser menos frequente por uns tempos. Mas é por uma boa causa...

(a volta que eu fui dar para chegar aqui! Chi!!! As mulheres às vezes ligam mesmo o complicómetro!)
 :-)

19 outubro 2009


Uma destas noites, vencida pelo cansaço, preparava-me para me deitar.
Os meus filhos já estavam nas suas camas havia cerca de meia hora e eu dava o dia por terminado.
Roupas escolhidas, lanches preparados, mochilas à porta, enfim, tudo a postos para uma manhã rectilínea, sem correrias, e uma noite de sono pesado.
Quando ia, finalmente, estender-me na cama, entra a pequenita no meu quarto, exclamando:
- Mãe, goto de ti e da mochila cuá-róxa!

17 outubro 2009

Passou a fase do algodão doce.
Estou de volta à realidade. Cabeça fria, emoções à parte.
Mas com um tecto panorâmico sempre se atenta na beleza da vida enquanto se medita...

14 outubro 2009


A minha amiga inglesa chegou na Segunda. Fica cá em casa oito dias.
O Vasco, muito ciente do seu papel de anfitrião de seis anos (e outra meia dúzia de palavras em Inglês), comentou com a minha mãe:
-Ó avó, já viste? Agora vou ter de falar Inglês durante uma semana! O que vale é que Vasco diz-se da mesma maneira!...

11 outubro 2009

Excerto #3


(fotograma que fiz a partir de um filme do meu tio)

A luz do dia testemunhava poucas novidades, apenas um ou outro empreendimento menos costumeiro, como quando Alberto se dispôs, com mais quatro nativos, a fazer uma viagem fluvial no Luachimo. Estava-se no dia quatro de Julho de 1951. Uma boa canoa de alumínio, pesando cerca de vinte e sete quilos, seria o meio utilizado para percorrer os caudalosos onze quilómetros e meio.
Ainda antes de percorrido o primeiro quilómetro, um aborígene alertou:
- Jacaré!
Bem próximo da superfície aquática em que a canoa deslizava, o animal quedava-se, quieto.
Rigorosa disciplina se impôs, desde logo, a bordo, para que a embarcação singrasse sem oscilações passíveis de fazê-la voltar-se. Não vendo hipótese de deitar o dente a um lauto almoço, o animal submergiu e, a uma velocidade admirável, tratou de virar costas aos homens. Outro surgiria depois, mas a sorte ditaria movimentos semelhantes, para gáudio dos homens.
O susto maior estava ainda para vir.
Decorridas mais umas centenas de metros, eis que surgia, a uns quatro metros da canoa, a cabeça de um hipopótamo, sob rápidos movimentos da água.
Pânico, mas ordem. Uma remada forte, com barulho que chegue para assustar o paquiderme, e este acaba por sumir, também ele, na água.
A sorte não os abandonara: se, em vez de se encontrarem próximos do hipopótamo, estivessem por cima do ponto onde este se encontrava, voltar-lhes-ia a canoa, dando ao crocodilo a oportunidade de lhes fazer a mortalha.
Ao longo do percurso, ainda passariam perto de outro jacaré e seriam acompanhados por mais um cavalo da água, que apenas desistiria da perseguição quando distinguiu os homens já em terra.
Dias depois, e ao tentar abater outro hipopótamo, o prospector dava-se conta de que a arma não picava bem as balas.

09 outubro 2009

Não vou dizer "adeus"


Estou de partida. Novo desafio profissional pela frente.
Estou de saída, mas o coração aperta, os olhos contraem-se, aguados. Sacudo os ombros, cerro os lábios, as despedidas doem, mas esta dói mais.
Ancorada a um porto onde ainda há pouco cheguei, soltar amarras será duro.
Receberam-me bem, senti-me em família, cada necessidade de ajuda prontamente respondida, amizades rapidamente sedimentadas. Uma equipa, não só colegas mas amigos que se visitam, se entre-ajudam, partilham momentos extra laborais, preocupações, carros, bens. Horas que se passam em conjunto. Ansiedades vividas em grupo.
Não quero deixá-los, por isso voltarei sempre. Por um lado.
Por outro, aguarda-me um convite irrecusável. Sei que também gostarei. E espero criar novas amizades. Progredir profissionalmente.
Aprendi muito com o Zé R., o Pires, a Milú, o Zé M., a Manuela, a Lena, o Paulo, o Ricardo, a Filomena. Com o Pedro, também, a quem estou grata por ter acreditado em mim. Não encontrarei outra equipa tão tchanan como esta.
Não acredito que se repitam os convites de improviso para umas moelas (esquece lá isso!) , uma feijoada de coelho, as ofertas constantes de companhia, jogos e “trapos”, as poesias que parece que têm olhinhos.
O ambiente descontraído, o ajoelhar por baixo da mesa como praxe de aniversariante, as piadas em torno de pitons, galinhas, homens-do-cão, tanta coisa… fica tudo gravado.
Venha o jantar e as caipirinhas. Os abraços e os give-me-five! Venham eles, para me ajudar a suster as lágrimas.
A porta não ficou fechada, tal como a da minha casa continuará aberta para vós, os que me ficam guardados no coração. Não vou dizer "adeus". Direi "até já", uma vez e outra, e outra...

(a bold, expressões que os mencionados no post certamente reconhecerão)

07 outubro 2009


Um dia que começa com abraços e beijos, continua com boa conversa e segue com um almoço de amizade e cumplicidade, de sonhos e concretizações, tem tudo para ser bom.
Se se prolongar por mais umas horas de convívio e risota, disparates e promessas, e terminar num jantar confuso de miúdos imparáveis e mães cheias de speed, acaba por ser um dia em cheio. Assim foi o meu dia de hoje.
Como dizia uma amiga há dias: TENHO A ALMA EMBRULHADA EM ALGODÃO DOCE.

05 outubro 2009

Há tanto tempo!


Há muito que eu não saía para um concerto.
Fui na senda de um convite inesperado. Ultimamente, é assim...
Fui em boa companhia. Boa música, execelente interpretação da Cristina Branco. A Cristina, além da simpatia e da modéstia, tem um timbre de voz tão potente enquanto canta quanto acolhedor enquanto se dirige ao público, apresentando as músicas, num dos concertos de divulgação do álbum Kronos.
Com uma carreira de treze anos, a cantora editou já onze álbuns, tendo recebido, em 1999, o Prix Choc da revista Le Monde de la Musique pelo melhor disco de música do Mundo.
Um serão diferente, com a vida a comprovar-nos que flui indefinidamente, que nos reserva surpresas boas. Acordes milagrosos, ritmos mais alegres combinados com trechos melancólicos, fado e bossa nova, numa composição de convívio e bem estar que ultrapassa o dizível.
Como costumo dizer, não basta estarmos vivos. É preciso que nos sintamos vivos.

04 outubro 2009

Não há estrelas no céu?


Tens razão, Rui. Havia poucas estrelas no céu.
Mas houve uma estrela, uma grande estrela, no palco: TU!
Foi muito bom termos-te de volta. Não pela cultura, que isto que fazes, subir ao palco, tocar umas melodias e cantar é só lazer, como diz o outro... (grande besta, né?)
:-)
Volta sempre. Temos todo o tempo do mundo para ti.

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