26 outubro 2016

Ao Vasco, no seu 14º aniversário


Tudo começou com um sonho, daqueles que se tem acordada. O meu sonho vem talvez desde os seis anos de idade. Ser mãe.
O Vasco foi a sua concretização e enriqueceu a minha vida desde o dia em que me soube grávida.
Há 14 anos, vi pela primeira vez o menino que me perturbou as noites, inchou pés e tornozelos durante a gestação e deixou sequelas passageiras dum parto difícil. Era lindo! 
Com o tempo, continuou lindo, tornou-se carinhoso, autónomo (até certo ponto…), alto, batuqueiro, distraído, atencioso e todas aquelas características que o tornam ele mesmo e me fazem amá-lo com esta ternura grandiosa que é a nossa.
Já me olha bem de cima, sabe o que pretende fazer no dia-a-dia e planeia o seu futuro. Cresceu e o rapaz que é permite-me acreditar que será um homem bom, equilibrado e que não levará a vida demasiado a sério. Que usará o seu próprio juízo, de forma justa e crítica. Que dará o melhor uso às suas capacidades. Que saberá dosear admiração e reclamação em doses equilibradas, assim que a adolescência o largar. E que manterá, da infância, a meiguice e o sonho. A poesia e a mímica inusitada e alegre. Esta vida prometedora que tanto me orgulha. 
Parabéns, meu querido filho!

27 setembro 2016



Há um monstro que é o da minha idade adulta. Não pertence ao universo que nos ensombra a infância, antes se impõe quando assistimos, por uma e outra vez, ao declínio dos que nos antecedem: é o monstro da degradação.

Uma dor que se aninha cá dentro e se alonga no tempo. Ver alguém perder a iniciativa, a força, os sentidos, a responsabilidade, a compostura. Assistir à insinuante estalactite da mente encortiçada, cada dia mais teimosa. Mais dependente.
Quem nos livra?

20 setembro 2016

Vida de cão


(imagem retirada da internet)

Andou por aqui durante toda a tarde.
Olhando para cima, reparando em cada pessoa que saía, não largou a entrada do prédio onde vivemos.
Tinha olhos de meiguice castanha clara, perscrutava cada esquina, cada movimento, todos os abrires e fechares de porta. De início, ainda pensei que se tinha tomado de simpatia por nós. A ideia agradou-me, como me cativara há meses a ternura dum gato que nos chamava para se rebolar entre carinhos. Depois, caí na realidade e apercebi-me que esta era mais dura. O cão estava de sentinela, convicto de esperar alguém. Fiel à última imagem de alguém que o deixou para trás? Romântico, perseguindo a sua amada? Perdido e confuso acerca do edifício onde procurar o dono?
Por aqui andou, sempre de olho na entrada do prédio. Não trazia número de contacto na coleira. Afastou-se quando tentei fotografá-lo.
De esperança e ternura se fez a sua tarde.
Tomara que a ternura e a esperança sejam recompensadas, nesta vida de cão.

06 setembro 2016

Cartas de Guerra (no grande ecrã)



Encantar-me com um filme após ter lido o livro que esteve na sua base não é coisa que costume acontecer-me.
Aconteceu agora. Com um filme de guerra. Uma poesia servida na grande tela. Pintada em tons de preto e branco, fazendo-nos viajar na cronologia e na latitude.
Impossível não me emocionar com o amor em tempo de guerra daquele enredo que enredou a actriz Margarida Vila Nova enquanto lia para a barriga. O livro já me fizera pele de galinha em certos capítulos. As interpretações e a fotografia deste filme complementaram-no. Seguiram-lhe o compasso. Um compasso lento, como lentíssimo era o tempo de quem foi arrancado ao amor recente, à vida em semente, para ter de participar num conflito longínquo e por lá ficar durante anos. Fieis ao sentir do protagonista, o ritmo e o tom da história. Um Ivo Ferreira ao nível dum António Lobo Antunes: crítico, sensível, cru, apaixonado. Como só alguns homens das artes sabem ser.
Um filme que aconselho, aos que gostam de  pensar. E sentir.

01 setembro 2016

Mais um sonho realizado (II)

Berlenga


Praia deserta


Farol de S. João Baptista


Fortaleza


O que nós descemos para aqui chegar!


A maré estava vaza


 Ao sairmos do forte, já a maré enchera




25 agosto 2016

Mais um sonho realizado (I)

A noite foi brava. Uma trovoada que nos acordou, 
chuva inesperada para uma época quente de Agosto.


O dia acordou sem cor, a temperatura baixara drasticamente e o ambiente, a lembrar o Inverno, fez-nos duvidar se seria o momento para concretizar o sonho de ir conhecer a Berlenga.
Mantivemos o plano e pusemo-nos a caminho.
Estava bravo, o mar. O vento mandava na embarcação, que avançava como que embriagada.


À partida, foram distribuídos saquinhos para o enjoo. Alguns dos
 passageiros acabaram por lhes dar uso. 
Os lugares não foram todos ocupados; calculo que o dia não terá parecido convidativo a muita gente.


 Ao atracar, ninguém pareceu, contudo, ligar ao clima. 
A curiosidade era maior e o facto de estar menos calor podia jogar a nosso favor.


 Estranhámos ver tantos barcos mesmo junto da única praia da ilha. 
Lamentámos o odor a combustível.


 Depois, fomos à descoberta.



 A ilha é reserva natural, pelo que gaivotas, cagarras, albatrozes e outras aves são quem manda.
E sentem-se seguras entre os humanos; andam por entre as pessoas como se fossem cães.


A transparência da água do mar convida-nos.
A sua temperatura, nem tanto...

16 agosto 2016

Foi há três anos


Era a mais carismática das filhas do Sr Champlon.
Deixou-nos faz hoje três anos, mas gozou oitenta e um duma vida cheia.
A audácia que a fazia levar cobras de rio para casa na infância, fê-la, já adulta, percorrer o mundo sem falar qualquer idioma estrangeiro. A determinação que a levou por terras recônditas dum Portugal estagnado para ensinar as artes das linhas com que as senhoras cosiam, foi a mesma que lhe serviu de trincheira no combate contra uma doença que ameaçava levá-la em curtos meses. 
A nossa proximidade era inversa à diferença etária. Tínhamos uma cumplicidade que raras tias e sobrinhas terão. Não deixámos nada por viver, fizemos tudo quanto podíamos, juntas: viajámos, desabafámos, rimos, chorámos, pregámos partidas, desentendemo-nos, planeámos, concretizámos. A nossa verdade era crua; o carinho, espontâneo.
Podemos não ter sido as melhores tia e sobrinha do mundo. Fomos o melhor que soubemos.
Não venham dizer que está em cada boa memória; eu sei que está. Mas às vezes, lamento não a ouvir gargalhar, nunca mais.




07 agosto 2016

Férias


Tudo começou com uma tempestade encenada. Muita gente, o madeirame do palco tonitroante, num azul inquieto. A história parecendo realidade. O teatro que me entrou no sangue numa disciplina dos tempos de liceu.
Depois, o improviso levou-nos por estradas onde o Sol parecia derreter qualquer tipo de vida. Árvores prometendo sombras que logo o avançar da viagem dissipava. Vilas sucedendo-se num desfile de vaidades justificadas. O adivinhar de tanto que está por descobrir, num país que tem diversidade paisagística na razão inversa da sua dimensão reduzida.
O deslumbre pintado de verde e esculpido em xisto. A realidade imitando os cenários.
Um reencontro onde a conversa tenta condensar o que a distância ocultou. Vilas históricas onde nos imaginamos medievais, sentimos outros tempos sob a pele, reacendendo memórias que não vivemos, batalhas que outros travaram para hoje sejamos o que somos.
O cansaço acumulando-se, a sede acompanhada das chamas que, bem próximas, consumiam o arvoredo da montanha sagrada. Ali, o combate era outro; a paisagem trocara o belo pelo inferno. Que a vida também tem disto: a devastação no mais lindo quadro. O lamento em dias de harmonia extrema.
De quilómetros e de belezas se fazem os momentos que sobrepõem as nossas vidas. Consolidamos afecto e memórias. Para que, mesmo nos dias sem história ou nas horas de perda, o espanto de existir volte a lembrar-nos quem somos. E o muito que vivemos.

01 junho 2016

À Mafalda, no seu 10º aniversário



Extrovertida e inquieta Ela celebra cada dia E hoje, primeiro de Junho, Faz dez anos de alegria Melómana e bailarina Coreógrafa da ternura Vive às mil rotações Por minuto de aventura Salta, brinca, cria, dança Nada deixa por inventar A minha filha, sempre criança, Acende sorrisos com o olhar Com gargalhadas contagiantes Cativa todo o desconhecido Os olhos azuis, mais que brilhantes, Pintam o nosso mundo de colorido À minha Mafalda querida Ode ao amor, menina-furacão, Desejo que tenha, sempre, na vida Amigos, ternura e determinação.

09 maio 2016


Um dia, chega a notícia. Aquela pessoa com quem convivemos poucos, mas marcantes dias, e com promessa de mais, partiu. Já não sofre. 
Fica um vazio naqueles períodos incertos do calendário, onde julgávamos que nos reencontraríamos. Fica a sensação de amizade interrompida. O lamento pela partida de quem parecia que faria parte das nossas vidas dali em diante.
As mortes parecem nunca ser esperadas. Mesmo na doença. Mesmo quando tentámos preparar-nos.
Na semana passada, foram duas. Uma do pai duma amiga e esta, duma amiga a 300 quilómetros. Sempre o mesmo legado: isto é tudo a correr. Crescemos, esforçamo-nos a estudar e a trabalhar para termos filhos que crescem a correr. Acarinhamos a correr, sonhamos pouco, fazemos a nossa parte pelos sonhos e perdemos âncoras. Âncoras emocionais. Tudo a correr. Talvez só o sofrimento não corra.
Vivamos. Como aqueles que se casaram pela terceira vez. Como aqueles que hoje completam mais um ano de existência. Como os que agarram o sonho pela coroa e se coroam imperadores do agora, senhores da alegria de estar cá. Legisladores do sorriso. Reis do amor.

21 abril 2016

Pai


Chamava-me Filoxera
O Porto o viu nascer
A ordem dos factos é outra
Mas por esta o quero dizer

Lembro o meu pai-herói
Faz dez anos que partiu
Abalara já na garupa
Da memória que lhe fugiu

Era Rui e era Barros
Não jogava futebol
Com uma lupa acendia
Cigarros expostos ao sol

Fez teatro n’Os Modestos
Na juventude do tempo
Escreveu para os jornais
Leitor crítico e atento

                            Homem sempre de Abril                            
Desde o berço até à morte
Votou, amou e viveu
Do lado esquerdo da sorte

Dançou quando eu nasci
Q’ um homem também dança
Se contido, mas babado
Ao nascer-lhe uma criança
  
Chorava as dores alheias
Vivia de punho erguido
Dizia que o povo unido
Jamais seria vencido

Apontava-me os beirais
Na primavera, exultante
Saudando as andorinhas
No regresso triunfante

Ensinou-me a perseverança
A rectidão e a coragem
Mostrou-me, desde criança,
Como viver esta viagem.

14 abril 2016


Tudo começou com uma batuta que ganhou vida e saltou da mão do maestro. Estávamos no penúltimo andamento do concerto.
Uma risota. Conseguiste não a apanhar em pleno voo. De outra forma, teria sido o fim do espectáculo. Um riso incontido ecoando por toda a sala. Maestro e músicos descompassados, a confusão reinante.
Sonos de não dormir, até tarde. O almoço lanchado. Gente nómada com cadela atrelada. Miúdos eléctricos de fritar cérebros.
A cozinha no centro das operações e tanto que rir, tanto que falar. Refeições inquietas, o serão vagueando por Marte. A lembrar aquele jantar, quando a criança arrota e a mãe pergunta: “O que é que se diz?”, sendo a resposta pronta: “Arrotei!”.
Filmes e mais cinema, das pipocas ao pecado da não gula.
O dia a terminar com a cadela a correr, e o dono em sentido contrário. Perdidos de riso, misturam-se polares. Serão ursos? Serão roupas? Roupas não são, certamente. E os ursos não riem assim.

(só para dizer que o humor faz sentido para quem detém o código).

21 março 2016

No Dia Mundial da Poesia



O meu poema

O meu poema
Esconde rios de lágrimas vertidas
Nas searas da nocturna desilusão
Regando antigas mágoas, renascidas
Em madrugadas prenhes de solidão.

O meu poema
São as dores duma nova sepultura,
Cavada com braços firmes, feitos pranto,
Onde enterro os despojos da ternura
E acolho nova era de desencanto.

Mas…

O meu poema
Espelha todas as estrelas que no céu brilham,
A luz que permite um novo dia,
As brincadeiras infantis que se partilham,
Os arco-íris que dão ouro à alquimia.

O meu poema
Guarda as sementes de todas as esperanças,
A chuva batendo, de mansinho,
As cantilenas sorridentes das crianças
Em campos de alfazema e rosmaninho.

O meu poema
Revela um corpo aberto às sementeiras,
Dunas agrestes onde aportam gaivotas,
Estrelas cadentes e terras sem fronteiras,
Mapas velhos, contendo novas rotas.

O meu poema
É o cabo das tormentas já dobrado,
É a arte, o sonho, a força e a glória,
A boa esperança de te ter sempre a meu lado,
O brinde à conquista da nossa história.



08 março 2016

No dia da mulher. Que é, como todos, também dia do homem



No dia da mulher…
Não me dês palavras. Rouba-me uma dança.
Não me elogies. Faz com que eu me aperceba que me admiras.
Não me desejes um dia feliz. Sê feliz comigo.
Não me perguntes pelos filhos. Sussurra-me mundos não sonhados.
Não me leves jantar. Dá-me à boca a gula partilhada.
Não tomemos um copo num bar. Faz do meu umbigo a tua taça.
Não me fales do mundo. Inventa comigo um universo nosso.
Não me ofereças um perfume. Tatua o teu aroma em mim.
Não me presenteies com nada de material. Só te quero a pele.
Não esperes que te responda. Cala-me com um beijo quente.

02 março 2016


Viver de forma arrojada, sabendo que se fez o que de menos rotineiro se podia fazer. Arriscar, ousar. Sentir a satisfação do que emociona, do que supera, do que se partilha e do que se inventa.
Conseguir o que não se acreditaria possível se não se experimentasse. Visitar um lugar onde nunca se foi. Ter a coragem de vencer o receio. Fazer algo nunca feito.
Haverá melhor do que sentir que tudo isto após os “enta”?
A sentença “a vida começa aos…” sempre me pareceu descabida. Mas certos momentos recordam-nos que muito de bom pode estar para vir. Para ser construído.
Faz. Faz agora. Com companhia, com o coração apertado, com as palmas das mãos suadas, sem dinheiro no banco, sem reticências no peito. Vai. Dá tudo. Despeja-te de ses. A única condição é viver. Sentir o percurso daquela seiva vermelha que nos repõe o oxigénio em todo o ser. Sê!

16 fevereiro 2016


Difícil é começar.
Depois, é um longo Domingo de amor.
Domingo com sabor a Sábado e a sal. A cloro e a liberdade. Num mergulho de imersão com braçadas conjuntas.
Sabemos o que é bom e queremo-lo em uníssono. Às vezes o Universo conjuga os astros e a luz incide sobre os afortunados que a merecem. Nenhuma supernova pode desunir o que as estrelas da fortuna juntaram. 
Quem não precisa de nada já tem tudo. Este é, como se sabe, o ponto de partida da felicidade. Que existe, acreditem. 
O maior bem não tem custos. É gratuito. Podem chamar-lhe sorrisos, abraços, ternura, partilha, admiração, confiança, respeito. Amizade. Amor. 
O maior bem é reconhecer que se tem tudo isto. E vivê-lo. Como sabemos tão bem.

07 fevereiro 2016


Mafra. Uma fachada que sempre me apaixona. O sonho começa aí. Baltasar e Blimunda que me acompanham há quase uma vida, num imaginário literário que ajuda à montagem das cenas de época.
Um palácio que nos recebeu com o frio típico, secundado pelas belezas da arquitectura e das artes da nossa história. Vamos conversando; também com as senhoras que guardam este tesouro e trabalham com o gosto e o orgulho que a nação parece não aprender.
Esculturas, pinturas, bordados e jogos de salão a puxarem pela imaginação do cidadão actual na reconstituição da vida dos monarcas no tempo dos dinheiros vindos do Brasil. 
Salas de azul, amarelo ou vermelho vestidas, num esplendor sóbrio de quem apreciava a caça e a oração, ou não fosse a devoção estar provavelmente na origem da construção do palácio, contida na promessa de cura do rei.
O joanino-absoluto e o novo paradigma artístico encanta-nos. São dois torreões imponentes, duas alas de imponente bom gosto e uma enfermaria com altar e nichos individualizados por cada doente. 
Uma biblioteca com mais de 36000 volumes do séc. XV ao séc. XIX, conservados com o trabalho voluntário dos incansáveis morcegos.
A basílica, os seis órgãos, os dois carrilhões de Antuérpia, tudo conjugando-se para que o mais ateu dos cidadãos anseie por ficar e perder-se no tempo. Saindo, as esculturas da escola de Mafra parecem escoltar-nos ao fim duma tarde mais-que-perfeita e fazer-nos prometer o regresso.

27 janeiro 2016

Era Inverno


(foto cedida pela minha amiga Fátima C.)


Comecemos pelo fim. 
Pelas magnólias.
Era Inverno, lembras-te? Não parecia, mas era Inverno.
Não parecia haver muita gente, mas havia. E havia cães, surfistas, o mar com sets de encaracolar, a luz de encandear. A conversa a calar e a sobrar.
Era um Inverno de derreter gelados. Uma música só audível por um curto lote de eleitos. Os designados pelos deuses que regem as rotações do planeta numa escala menor que a dos seres que nele habitam. Porque aos seres, uma centelha basta e está um novo mundo a começar. Uma palavra. Uma audácia. 
Um universo multicultural com tantos pontos de intersecção quantos os que duas circunferências podem ter. É como no tango: dois. Basta.
A linguagem corporal não precisa de tradutor nem de revisor.
Um mais um continuam a ser dois. Até aí, ainda sei.
Não sei como viemos aqui parar. Mas era um dia de magnólias. E era Inverno.

23 janeiro 2016

Máximo Dez Unidades


Esta é uma história de encanto à primeira vista.
Comecei a ver “Máximo Dez Unidades” porque sou fã do Morgan Freeman. Depois fui ficando. Enlevada, por uma série de motivos.
Estava a precisar de renovar energias, num dia de novelo interior. Esta história, duma subtil ternura inesperada, foi o palpite certeiro. 
Deixei-me sorrir em crescendo, num enamoramento completo. A música. O argumento. Os pequenos dramas humanos. A graça. Os contrastes. A lei da imprevisibilidade.
Esqueçam tudo o que aprenderam sobre relações humanas. As amizades improváveis só acontecem se se vive de mente e coração abertos. Mundos distintos convergem num universo em expansão porque tem de ser. Há coisas que não obedecem à racionalidade.
Podia enumerar dez razões pelas quais me apeteceu rever este filme logo de seguida. Gargalhadas súbitas constantes, o ritmo musical que se insinua sob a pele como uma paixão recém-chegada. O sorriso, sempre. A lei suprema do enamoramento.
Os amores não se explicam. Sentem-se. Transportam-se intimamente, à vista de todos.
Um entretenimento sem enredo de amor, sem cenas de sexo. Experimentem. Um Morgan Freeman a fazer de si mesmo, uma Paz Vega que, num momento de contrariedade, conhece quem vem a desconstruir a sua ideia de tudo. Que a vida está a começar sempre. E os encantos também.

11 janeiro 2016

David Bowie


Viveu intensamente.
Descobrir o dom é só o início.
Depois, vem a perseverança. O êxito não goteja do ar.
Os artistas (em qualquer escala) têm montanhas-chinesas, ou lá o que é, de humores e de momentos. A criatividade é um dom exigente mais exigente que um bebé. Com um adversário: o chamado “sistema”, sociedade, o que quiserem chamar-lhe. Burrice, por exemplo.
Morreu com estilo. Um safanão que mexeu com o mundo. Como ele sempre mexeu.
Como continuará.
Não foi um menino-pop do momento, uma estrela postiça do consumismo imediatista. Foi um criador arrojado, um homem-camaleão, alguém que fica. Na música, como cantor, compositor, músico dos N instrumentos, produtor, no cinema como actor. E pintou.
Crescemos com a sua imagem mutante, a sua música inovadora, os visuais extravagantes.
Faz parte das referências da minha geração. De outras, também.
Hoje, até os nossos filhos ouvem David Bowie. Em lição caseira. Das que mais contam.

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