23 setembro 2013

Outono e praia

 
Sinto o calor do Sol baixo, derramando-se sobre o corpo todo, como uma carícia nas costas.
Uma sensação de massagem nos pés quando estes se expandem no areal.
Há um aroma de fim de Verão no ar. Boicotado pelo odor do tratamento de águas. Logo o sossego deixa de o ser quando uma família discute o lanche “Ó João, queres o teu Bolycao?”, seguido duma disputa entre o João e o António, primos que reclamam o mesmo cromo do lanche-surpresa de valor nutricional duvidoso.
A mãe/tia a arbitrar o conflito, alegando que ele já deve ter aquele cromo. As crianças, indiferentes aos argumentos, teimando na disputa. A senhora opta pela estratégia da fuga em frente. “E temos iogurtes, queres iogurte?” Que sim, quer iogurte. A mãe/tia saca um conjunto deles do interior dum saco térmico, onde deve ter trazido todo o conteúdo do frigorífico para uma tarde de quatro pessoas na praia. Um saco térmico grande, aparentando um recheio generoso.
Os miúdos encetam o lanche, a conversa redundante continua. Parece que cromos e guloseimas têm uma relação filosófica que lhes permite serem tema de discussão dum momento de lazer.
Aborda-se também o assunto jantar. Frango assado. E mais uma série de frases em torno do mesmo. Já me questiono se a verdadeira vocação desta família será a filosofia, se a gula.
Felizmente, Setembro e o Outono são aliados, quando se trata de ir a banhos. A praia tem mais zonas livres.
Determinada, pego nas nossa toalhas, mochilas e havaianas e migro para outro ponto, onde a areia não parece ameaçada por conversas indesejadas.
Do que eu gosto mesmo, na praia, é de sentir o Sol pintar-me a pele. Mergulhar umas quantas vezes.  Olhar, sorrindo, os miúdos eufóricos no body-board e nas brincadeiras. Deleitar-me com a boa literatura que levo sempre, para uns momentos de maior estado “zen” J

14 setembro 2013

O Verão na pele

 
Há, neste Algarve tranquilo, algo que me apazigua.
Férias sem burocracias e questões a tratar, embora algumas tentem imiscuir-se nestes dias de pausa, após meses complicados e quando me esforço por dar espaço ao luto recente.
O Sol, aqui, despede-se sempre em tons de brilho suave. Não abafa. Promete, no entanto, um calor aconchegante para cada dia seguinte.
Continuo a ser a mãe cuja atenção as crianças reclamam em intervalos de escassos minutos, infalivelmente.
Mas sou uma mãe menos dispersa, aqui.
Não deixo de ser a cozinheira, porém os almoços são dos que menos me prendem ao fogão. E sempre servidos no terraço, disputados pelas abelhas, num ambiente florido, de cor e descontracção.
Fecho os olhos, deixo-me hipnotizar pelo canto das gaivotas. Viajo com elas.
Homenageio as espreguiçadeiras, lendo languidamente romances que me levantam os pés do piso demasiado duro do restante ano.
Por vezes detenho a atenção na piscina. Nos mergulhos. Nas brincadeiras. Nos risos. Nas pequenas escaramuças infantis.
Saboreio os finais de tarde amenos, tão diferentes dos que temos em casa, ventosos.
A vida passa a ser apenas isto, por uns dias. Este ritmo brando, os poucos deveres, os bons dias duma pequena comunidade que se reúne em torno da piscina, o carinho dos amigos recém-reencontrados, a troca de palavras de apreço com mãe e tia, ao telemóvel.
Tenho o Verão na pele. As cigarras como manto. O amor dos meus filhos.
Se a felicidade tem uma fórmula, é esta.

(Algures a Sul, 8/9/13)

30 agosto 2013

Duas semanas

Uma inquietação crescente.
Uma saudade que ameaça ocupar cada cavidade do peito.
Duas semanas são pouco tempo para me habituar à tua ausência.
Há duas semanas afaguei-te o rosto pela última vez. A vida despedira-se de ti minutos antes. Eu soube que ficarias sempre presente em nós.
Quando o senhor da funerária perguntou se queríamos um epitáfio a acompanhar as flores no estilo habitual, de eterna saudade, respondi de imediato que não. Que queríamos “estarás sempre presente”.
A despedida foi como eu gostaria que fosse. Com toda a família, os antigos vizinhos e os novos. Amigos e conhecidos elogiando-te.
Ontem à noite, sozinha, permiti-me a dor, ao percorrer fotografias de viagens. Impressionante, como algumas retratam grupos em que a maioria dos fotografados já viajou para o plano infinito…
A nossa ligação foi cúmplice e marcante.
Recordo-me de me incitares a enfrentar os meus medos quando era criança.
De acordarmos cedo para irmos para a quinta da Azambuja.
De viajar contigo até Ceuta e Tetouan aos 13 anos. A Benidorm no ano seguinte.
De me deixares treinar a condução a partir dos 14 anos, com o teu Micra.
Lembro-me de, poucos anos depois, me zangar quando deixaste a dentadura no meu copo dos dentes numa das viagens à ex-URSS. Das caminhadas e das subidas às montanhas na Sibéria.
De ir esperar-te ao aeroporto em 2002, eu muito grávida do Vasco. Tu viajando de maca, com o colo do fémur fracturado. Uma viagem em que passaste a maior parte do tempo num hospital. Não saíste com os restantes passageiros. De repente, apercebi-me de uma ambulância que  arrancava da zona de chegadas. Desatei a correr na sua direcção, com aquela barriga grande à frente. Gritei. Consegui dar nas vistas. A ambulância parou. Só te levou para o hospital depois de eu te acarinhar.
Nos dias de Natal, eras tu quem tratava do peru. Eu fazia o bacalhau, a minha mãe o pudim.
Não tiveste filhos. Foste presença constante nos primeiros anos de vida dos meus, como na minha infância.
Agora, suponho que estejas mais próxima de outros espíritos que acompanham a minha história. Sinto-os como se os visse, num relance por cima do ombro.
Estarás sempre presente.

14 agosto 2013

O canto dos cucos


Os cucos saltitavam, atarefados na sua cantilena compassada, quando a campainha soou.
Dali, onde se arrumara, sentadinha, a sentir estender-se a tarde, não conseguia enxergar quem, fechando o portão, gerava outro ruído, paralelo ao do ranger suplicante de óleo: o dos pensamentos ansiosos que se faziam ouvir, apenas, no íntimo de cada um. Mas descobria, logo aos primeiros passos que se seguiam ao chiar, a figura que vinha alegrar algum dos contrariados residentes do lar.
Lar, que é como quem diz, armazém. Apesar do bom ambiente, do jardim cuidado, dos espaços amplos, das paredes coloridas e ar respirável, sem aqueles odores típicos de tantos, D. Augusta não tinha dúvidas de que entregava agora os seus dias a um calendário sem dias santos: o calendário dos dias iguais de tantas vidas abandonadas.
Ela, que descobrira aos seis anos o segredo das letras, a magia das contas e, aos dez, vivera a aventura do percurso para a escola dos grandes, iniciava agora a contabilidade dos dias em que a vida a acordava. Ela, que encetara aos vinte o primeiro grande empreendimento da sua vida: o casamento com o cantoneiro Francisco Costa, o Xico da Vila, como era conhecido lá na terra. Aos vinte e um já ninava o Manuel, primeiro de quatro filhos, com canções que lhe embalavam o cansaço da maternidade e da vida caseira. A criançada aumentava de altura na razão directa do aumento das ralações. Havia os livros para a escola do mais velho, a asma do Fernando, a vaidade precoce da Luisinha e as lições que o Hugo nunca guardava, na cabeça de todos os ventos.
E havia os milagres que Augusta fazia com a máquina de costura, nas bainhas que brincavam ao sobe-e-desce enquanto as roupas não esgarçassem, nas novas vidas que o vestuário ganhava com aproveitamentos de tecido. E, claro, os trabalhos no barranco, onde o rio, traiçoeiro, na sua ânsia de grandezas, deitava, ocasionalmente, a perder meses de dedicação, deixando a família sem as couves para a sopa e os ovos para a gemada dos meninos, sorridentes pelo mimo fortuito ao pequeno almoço.
Na aldeia, a vida decorria ao som das quatro estações do clima. Comemoravam-se os aniversários, Páscoas e Natais e choravam-se os anjinhos que a doença levava, quase sempre de conluio com a miséria.
Augusta deslizava sobre os anos acompanhada da mesma desenvoltura com que fora para a primária, o mesmo olhar vivo de quando espreitava Francisco à porta do café central. O único, ali.
Os meninos cresceram. Só o mais velho não lhe deitara netos no regaço. Vivia agora no Algarve. O trabalho era a sua vida. Os do meio também haviam estudado, e muito, que o casal insistira em dar-lhes a melhor preparação para a vida. Mas Fernando estava desempregado havia mais de dois anos. Com três filhos e apenas o vencimento abaixo do visível da nora, visitava a mãe ao ritmo modesto da ajuda dos irmãos. Só Luísa ia resgatá-la aos fins de semana e levar-lhe um sorriso nos outros dias, um miminho doce quando os horários das actividades dos miúdos se deixavam intercalar.
Hugo vivia agora no Canadá. Fora com a promessa de trabalhar na construção e assim o fez. Construiu prédios e família.
Nos dias sem história, Augusta ainda olhava para o televisor, mas não encontrava nele nada que lhe permitisse esquecer, por míseros minutos, o seu Xico e as conversas que nunca lhes haviam faltado. Até o sangue extravasar no cérebro do marido, deixando-o inconsciente, num sono hermético. Três dias. Os necessários para que a família o acarinhasse antes de se enlutar. 
A viuvez trouze-lhe peso ao olhar. Os movimentos demorados demonstravam uma D. Augusta encolhida pelo desgosto e pela idade.
Fintou a saudade com as peripécias infantis que os netos lhe ofereciam. Sorrisos e palavras recuperaram-lhe a expectativa de vida.
Agora, a expectativa alimentava-se dos toques da campainha do lar. A vida eram as visitas e os passeios familiares. E o canto dos cucos. 

30 julho 2013

Sete luas




Uma semana voou

Sobre o nosso pôr-do-Sol.

Sete pétalas, sete luas

Sobre essa escala pautada

Por claves de girassol.

 

Desenhámos areais

Por entre dez mil sorrisos.

Erguemos altares de estrelas,

Venerámos os sentidos

Em secretos paraísos.

 

Sonhámos o mesmo sonho,

Mezcal sóbrio de azul.

Sorvemos a pele salgada,

Despertámos para o voo

Do vento morno do Sul.

 

E num toque toque licoroso

Brindámos em cada beijo.

E, ao longo das sete noites,

Fomos vagas inflamadas

Na preia-mar do desejo.

02 julho 2013

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Já o vi chegar de mansinho para alguns.
Vi-o levar outros de repente.
O fim.
Não sei se este será o seu anúncio.
Se te veremos definhar ou se o sopro gelado o trará num instante.
Nunca se está preparado. Não sei da minha vida sem a tua presença. Todas as minhas memórias te incluem.
Se pudesse escolher, diria que não quero prolongamentos, sofrimento vão.
Prefiro o teu voo ao afundamento.
Saberei m
elhor não te ter perto do que a mágoa repetida do deixar de ser.
As boas lembranças, tenho-as tatuadas no mesmo local que as feridas. Contrabalançam as dores que a vida reserva.
Se umas se esbatem, as outras também. Um equilíbrio instável. Mas meu.
Podes ir, se for o momento. Podes ir e acompanhar-nos à distância.
Sabendo que ficamos bem. Tão bem quanto se pode ficar quando estas surpresas acontecem.
Seja o que for que o tempo nos reserve, este nunca será um texto de despedida.
Porque é tudo tão breve que é sempre um até já.
Podes ir. Porque ficarás, sempre.

10 junho 2013

O Contador de Retratos


Escrevi sobre “Deixei-te o Sorriso em Casa” assim que descobri a obra do António Santos, há dois anos.
Voltar a escrever sobre uma obra deste autor é um gosto. Mas é também uma responsabilidade enorme. Sobretudo quando o prefácio do seu novo livro, “O Contador de Retratos”, é da autoria de Guilherme d' Oliveira Martins, que tão bem expôs, sem exibir, o seu  estilo e o conteúdo.
A escrita de António Santos é daqueles estilos que dão vontade de anunciar ao mundo “não estou para ninguém”, instalar-me comodamente no sofá ou no puff a ler, acompanhada dum bom tinto e não parar senão no final.
Sempre com um sabor residual no paladar, ávido por mais. Mais literatura assim.
Que dizer deste novo livro?
Gosto de tudo. Sobretudo, dos pormenores, que conferem realismo aos quadros que o autor descreve, como se levasse o leitor pela mão.
Desconcertante, o primeiro conto. Sobre a imagem de um casal à mesa dum requintado restaurante parisiense. Cerzindo, em torno dum livro de João Ubaldo Ribeiro, uma teia de deambulações misteriosas, à qual uma mulher desalmada vem dar essência.
Imaginei-me num terraço cheio de zingarelhos dados à costa, no segundo conto. O da fotografia de Dallas, em Novembro de 63.
Tornou-se inevitável ir procurar no mapa-mundo a localidade onde o coronel se refugiara, numa casa de madeira com um terraço cheio de velas.
Fabulosa descrição do ambiente, dos petiscos, num relato que nos fere, certeiro, no ponto das oportunidades perdidas.
O terceiro retrato apresenta-nos um militar numa praia do Norte de Moçambique e os seus fantasmas.
Os búfalos, as tendas, as mulheres atiçando o fogo. Mais do que um tipo de fogo…
A promessa dum segredo envolta em fumo. Um ancião preparando uma infusão. Os macondes preparando-se para uma caçada.
E tudo sempre ali. Onde tudo sempre fora.
O quarto retrato é do elegante Palazzo Giustinian, adornado por duas amigas, observadas por uma máscara dourada. Um recanto com histórias para contar, numa festa de Carnaval. Um crescendo de sensualidade contagiante. E mais não revelo…
Temos depois o do homem de charuto na boca, a entrar na Finca Vigia. Um arquivista, amante de mojitos e de puros, em quem tudo nos espanta.
O sexto retrato tem a moldura em cristal já partida. E revela um carro que levava um inspector, que levava investigações, ternura e adiamentos. Culmina numa velocidade galopante rumo ao desfecho improvável.
Um palacete sobressai, imune ao nevoeiro denso de Sintra, no sétimo conto. Redondo. Tanto quanto intrigante. Habitado por lendas e assombrações.
O oitavo retrato, do major Américo, na praia de Barril, em Tavira, com a sua cana de pesca, uma alegoria a demonstrar-nos o trabalho dos anjos-da-guarda, por vezes tão atarefados que nós, mortais ignorantes, nem suspeitamos…
D. Magnífica e o marido surgem-nos no nono retrato, em primeiro plano, junto à azenha. Ao fundo, a lupa, empunhada pelo sobrinho. Numa vila com dupla personalidade (Verão versus Inverno), tia e sobrinho dedicam-se à arqueologia com o intuito de decifrarem a causa de morte do tio.
Um cenário cinematográfico. Aliás, constante ao longo de todo o livro.
O décimo conto, em torno da imagem dum Carocha 1200 de 1967, apresenta-nos um comentador que não dá conta dos recados pessoais, um director-geral que dá despacho a assuntos afins e outras cenas que bem retratam os patetas do panorama nacional. Que os promove, cega e insistentemente, aos lugares de destaque de que esta sociedade balofa é feita.
A prima Margarida, quando ainda namorava com um tipo do governo, é a protagonista do décimo primeiro conto. Retrato duma doutora enquanto pobre na alma. Rodeada de gente sem dinheiro, rica por dentro. Que a ajuda num dia em que tudo corre mal. Um dia que termina num acorde perfeito, em Mi menor, duma Gibson Les Paul.
E o resto é estilo. O característico da escrita do António Santos.
O mistério insinuante. O humor subtil, inteligente. As frases de rajada. Certeiras. As expressões que mais ninguém se lembraria de inventar. O drama equilibrando-se com leveza nas surpresas que o destino nos reserva, insondável. Os jogos de palavras entrelaçados em silêncios mais que justificados.
Porque há coisas que não se dizem.

01 junho 2013

Parabéns, Mafalda!



É com ternura que dá a mão à avó para descer as escadas, receosa que a avó, cuja vista operada ainda piorou, não veja bem os degraus. A mesma ternura com que colhe uma flor silvestre para me vir dar ou faz umas espetadas de fruta, reserva a primeira para o irmão “porque ele ADORA espetadas de fruta” e ainda leva uma para a professora.
A minha filha é assim. Ternura e rebeldia em doses generosas.
Parecia não querer criar raízes cá dentro. Quando, com poucas semanas de gestação, era suposto ouvir-se um coraçãozinho a bater, a eco ainda não revelava nada. Cinco dias depois, já se ouvia o coração anunciando vida, mas detectava-se um descolamento de placenta ameaçando-a. E houve ainda segundo descolamento. De modo que a Mafalda passou boa parte das suas primeiras semanas de gestação num repouso total que tanto me desgastou, por não ter feitio para estar quietinha.
A situação clínica normalizou mas, perto do final da gravidez, o luto pelo meu pai fez-me recear o efeito negativo que a perda pudesse ter na formação duma bebé incapaz de se subtrair aos neurotransmissores.
Cedo concluí que nenhum destes percalços foi marcante para a minha menina. Ou, se o foi, teve o resultado oposto: ela anda sempre apressada. Corre, não anda. E feliz, sorridente, extrovertida. Como quem rejeita as condicionantes em que foi amadurecendo no ventre da mãe.
Ao nascer, assim que a parteira se apercebeu que ela vinha aí, disse-me que ia chamar o obstetra. Quando ambos regressaram, já a Mafalda estava cá fora.
Ainda não tinha dois anos quando partiu a cabeça, graças às correrias. Quem a vê, lourinha, olhos azuis, ar quase angelical, não pressente a força desta criança que tem tanto de autónoma quanto de quase bebé.
A Mafalda é um furacão. Deixa marcas à passagem. Depois dela, nada permanece igual. Tatua os corações, enche os ambientes, marca paredes. O seu espírito criativo tudo impregna com o seu cunho pessoal. Mas é também uma brisa doce que nos acarinha, nos brinda com o melhor sorriso e faz com que nos sintamos importantes. É generosa, tanto quanto é linda. Sagaz, tanto quanto teimosa.
E é a filha mais amada do mundo. Porque é a minha filha. Que hoje completa sete aninhos.

27 maio 2013

Vertigem Galopante


Sob as coxas com que te cinjo e ensino,
És sela quente onde o meu querer se agita;
Alazão bravo sobre o qual me inclino,
Boca entreaberta em gula infinita.
 
Traças com a língua um trilho que desperta
Em mim o cio bêbado de fêmea acesa.
Monto-te livre, vibrante, aberta,
Enquanto me domas, nas tuas mãos presa.
 
Somos corcéis trotando contra o vento,
Esporeando-se em loucura repentina,
Cavalgamos, rédeas soltas, ao relento,
No peito o fogo, nas tuas mãos a crina.
 
Investimos todo o fôlegoa na corrida,
Vertigem galopante, desenfreada
E serenamos da derradeira investida
Na mansa plenitude da madrugada.
 
 

21 maio 2013

Arte Mar Estoril 2013













 
A exposição Arte Mar 2013 está patente no paredão do Estoril, entre 11 de Maio e 15 de Junho

05 maio 2013

Mãe



Foi teu o ventre que me alojou
Foram tuas as dores que me pariram
Foi na tua que a minha vida começou
Foram teus os primeiros olhos que os meus viram

Foi nos teus braços o primeiro embalo
Foi teu o carinho que alimentou
Cada dia deste amor que não calo,
Cada traço daquilo que hoje sou

Foram anos de aprendizagem e ternura,
Histórias, sorrisos, tristezas, alegrias,
De um percurso de amor que tudo cura:
Dores, lágrimas, incertezas, melancolias.

02 maio 2013

Somos


 
Sonho-te em mim, quando te ouço a voz.
A sua cadência acende-me o desejo, como quem encosta cerejas a  lábios sedentos.

A força infinita das palavras, nascente dum rio que se vai formando em mim. E tu sabes. Queres. Estimulas a nascente, antevendo a maré nossa.

Engulo em seco. Alinhamos respirações.

No prazer escorregadio da paixão calma, a intenção dos lábios assomando à pele. Junto ao pescoço. Sem tocar. Sentindo o calor. Que se propaga.

Continuas. Dizes, eu respondo. Ainda que com o silêncio. Escalada de fogo, pressentindo um prazer desmesurado.

Não dizes, eu adivinho. Procuro.

Sentes, vibrante, a forma como te presenteio.

Saboreamos.

O toque voluptuoso. O olhar meigo. O beijo quente.

O abraço que se repete, num jogo de ternura e fogo.

Ofegantes, queremos ficar nesta sedução até ao infinito. Aprendendo. Derramando mel e chamas lá, onde sabemos.

Encostamos, entreabrimos, entrelaçamo-nos. Desafiamo-nos, desenfreadamente.

Matamos saudades com uma perícia sensual, contida até ao insuportável.

Percorremos trilhos de pele e vocábulos incendiários, num jogo da glória sensorial.

Ondulando juntos, numa melodia silenciosa, gemida de prazer.

 Navegamos mares quentes, à bolina. As peles salgadas, os sentidos ao serviço do deleite.

Envolvemo-nos em fusão única, a delícia como nunca ninguém a provou.

O ritmo, improvisado a dois, ora rápido, ora manso. Voraz. Contido.

A ânsia. Desespero de querer e adiar. Cumplicidade sonhada.

Mudança estratégica. Nova abordagem. Volúpia centrada no eixo da táctica.

Mais. Tanto. Loucura. Entrega total.

As palavras a unirem corpos e vontades. Quase… Quase...

Até que deixamos de nos conter.

Asas a dobrar. Voo sincronizado.

Um canto gutural. Liberdade partilhada. Tremeluzente.

O estertor das réplicas, apaziguante.

Nunca como contigo o sossego foi tão sorridente, tão gostosamente prolongado.

O amor após o desvario. A conversa na acalmia, unindo mais que a sede voraz da paixão.

Essa voz que me embala. O ombro que me acolhe. A ternura que te consagro.

Somos.

25 abril 2013

25 de Abril



Eu era apenas um ano e tal de gente, pequena demais para me aperceber quando o 25 de Abril aconteceu.
Não sabia que o meu pai tinha ido para Lisboa, em busca dos acontecimentos que as notícias diziam revolucionários. A minha mãe, em casa, comigo, receava pelo que pudesse acontecer, temendo um volte-face na situação, mesmo alguma escaramuça...
A minha memória dos 25 de Abril subsequentes prende-se com aquele brilho no olhar dos meus pais, com as manif's, com as canções de Abril que me fazem vibrar cá dentro as cordas da emoção e me convocam ao olhar as lágrimas cúmplices dum coração que estremece.
Esta é, para mim, a data. Marca-me de tal forma que a escolhi para criar o Escrito a Quente, há seis anos.
Porque a liberdade é essencial à vida, como escrever se tornou essencial para os meus dias.

17 abril 2013

No dia que era o do aniversário do meu pai




Para mim, hoje continua a ser o teu dia.
Só não iremos mais apanhar bichos-de-conta para os fazermos rolar nas nossas mãos, enquanto esperamos que o comboio chegue, na estação do Estoril.
Nem haverá mais sessões de cinema na tv às quartas à noite, comendo amendoins.
Não terei mais oportunidade de dançar contigo aquela “amostra de dança”,  de passos pequenos e patetas, que só nós dançávamos. Ou de trocarmos um olhar codificado, cujo significado sabíamos e nos despoletava caretas ou sorrisos.
Não te ouvirei mais dizeres-me que posso escolher para ler qualquer dos inúmeros livros que tínhamos em casa, como me disseste quando eu tinha uns doze anos, acrescentando que, se algum me não trouxesse boas sensações, deveria pô-lo de parte, pois podia não ser próprio para a minha maturidade.
Também não viajaremos mais, nem nos “enfrentaremos”, debatendo acaloradamente os nossos pontos de vista, nem sempre coincidentes.
Não acenderás mais cigarros na praia com uma lupa, numa verdadeira manobra de diversão que deixava os miúdos boquiabertos.
Não haverá mais despertares de supetão. Nunca tiveste jeitinho nenhum para me acordar…
Mas sempre me recordarei da “palmadinha” que me deste nos primeiros anos para que eu adormecesse.
Não te ouvirei mais assobiar uma melodia pela casa, ou soltar um daqueles estridentes assobios no meio da rua para chamar a atenção de algum neto extraviado.
Desapareceu, da estação de S. Pedro, o cheiro do teu tabaco, que acendias mal saías do comboio e deixava um rasto que me fazia saber se calhava vir no mesmo horário, que saíras no mesmo comboio, numa carruagem mais à frente.
Mas, sabes? As andorinhas, que tanto apreciavas, continuam a fazer ninhos nos beirais dos telhados. As crianças é que deixaram de brincar no pátio, excepto os meus filhos, que ainda lá andam, uma vez por outra, a jogar à bola ou de bicicleta.
Eu continuo a ouvir as músicas que me ensinaste a gostar, continuo a levar sempre comigo um livro, para onde quer que vá. E a comer nougats, de vez em quando…
E Abril será sempre um mês muito especial…

08 abril 2013

Sabe bem...





Ouço a mesma canção vezes sem conta.
Um loop constante a passar-me por todas as fibras do meu corpo.
Como a breve memória do que antevi.
Sem explicação.
Não é nostalgia, nem chega a ser sonho.
Não é masoquismo, porque sabe bem.
Sabe bem deixar-me ir por aí. Pelas escassas frases, pelas poucas imagens. Pelo que não se disse. Não se diz.
Sabe bem sentir um licor correndo nas veias, levar para a cama luares estrelados que não farão história.
Não racionalizar. Sentir sensibilidades convergentes. Deixar-me levar na história que se faz. Conduzida por um inexplicável sorriso musical.


 

21 março 2013

Aventureiros



Que desenhemos um mapa de expedição
À descoberta duma secreta geografia.
Que eu te envolva, num jogo de sedução,
Despindo acordes em íntima coreografia.
 
Que se conjuguem todos os verbos do prazer
Numa janela  onde exibimos fantasias,
Que as tuas mãos me algemem este querer
E a tua língua me torture maresias.
 
Que eu te deite, então, quieto, submisso,
E te devore com ambas as minhas bocas.
Que reconheça no teu aroma o feitiço
Voluptuoso das formas como me  tocas.
 
E explore teu território no desvario
Líquido desta seiva orientadora,
Te descubra a montanha, o vale e o rio,
E os consuma no fogo que me devora.
 
Seremos aventureiros brincando aos amantes
Em ousada campanha de prospecção,
Nos nossos trilhos, descobriremos diamantes,
Gemidos cúmplices antecedendo nova explosão.

19 março 2013

Pai



Só te disse adeus meses depois.
Não me ocorreu dizer adeus quando vi a tua urna ser engolida pelo forno crematório.
Nunca se está preparada para dizer adeus. Nem ao fim de dez anos de doença. Dez anos que levaram o que eras, deixando-me, em vez de ti, um ser amorfo, sem brilho no olhar, sem força na atitude, sem a mordacidade das nossas “bocas”.
Fiquei sem poder de negociação quando o Alzheimer se instalou em ti. E ficou, para sempre, o meu calcanhar de Aquiles.
Naquele dia eu não estava preparada para te dizer adeus. Não quando, para se despedirem de ti, vieram do Porto familiares, que te eram tão próximos, e que continuaram desavindos e não se reaproximaram.
Não quando eu tinha uma vida dentro de mim, prestes a ver a luz dum dia onde já não te encontraria.
Tenho vivido estes últimos quase sete anos com a dor aninhada, carinhosamente, no lado esquerdo do peito, onde se guardam as tatuagens invisíveis que a vida nos oferece sem pedirmos.
Tenho sabido lidar com ela, garanto-te que tenho.
Mas hoje fazes-me tanta falta! E essa do ocupa-me todo o meu ser.
O Vasco está enorme e parece ter herdado alguns aspectos do teu carácter.
A Mafalda far-te-ia babar. Menina, loura, olhos azuis, sempre preocupada com os outros, toda ela charme.
Fazem-me falta as nossas danças cúmplices, rodopiando sobre nós mesmos, num passo desajeitado que faria qualquer pessoa rir-se de nós. Os olhares que nos dispensavam palavras. Até a tua exigência demasiada. A forma crua como me fazias ver que cabe a cada um de nós enfrentar as suas fraquezas, bater-se pelas suas causas.
Não te cheguei a dizer que foste um pai exemplar em quase tudo.
Não me preocupa isso, porque sei que te disse, sempre, o quanto te amava e admirava.
Mesmo quando já não me retribuías o abraço, quando o te cérebro doente não decifrava as minhas os meus lábios encriptados. Disse-to sempre. Não nos faltou diálogo nem o meu aconchego em ti.
Hoje, promete que não me censuras a lamechice, sim?
Porque hoje sou só saudade e lágrimas. E lamechice. Lamento.
Lamento não saber quando te vi pela última vez. A gravidez impediu-me de entrar na enfermaria onde te foram roubados os últimos sopros. Saíste de lá para um desfile triste de rostos conhecidos.
Lamento não termos conversado sobre os livros que me deixaste e os autores que descobri depois.  Os filmes que gostarias de ter visto. Lamento não termos assistido a mais concertos, não me termos bebido juntos uns copos de vinho, a acompanhar uns conselhos paternais sobre os meus amores e desamores.
Lamento já não estares para te rires por eu levar as angústias e as alegrias ao teu ouvido, tudo em doses generosas.
Segui os teus conselhos, pai. E os gostos que me incutiste. E a garra.
Estás em cada linha que leio, cada palavra que escrevo, cada luta que venço, cada manifestação que engrosso, cada sorriso. Cada lágrima.
Estarás sempre.
Só uma coisa não conseguiste ensinar-me:  o que fazer com esta saudade dolorosa. Infinita…
E, desta vez, sou eu que peço: aparece. E ri-te das minhas lágrimas. Não me deixes aqui sozinha…

16 março 2013

Zarabadim


Ontem fomos ao teatro.
E foi um serão fabuloso, o deste Zarabadim!
Cantámos, rimos, encontrámos amigos.
E a Mafalda, entre “revisão da matéria dada”, letras e ditongos, soltava as maiores gargalhadas da sala.
Foi um momento lindo, em que nos deixámos levar na história de um livro que sabe tudo, um palhaço, uma bailarina, um pinguim e uma galinha. E pelas suas cantigas, contagiantes.
Houve de tudo: uma ida aos bastidores, para conhecer a bailarina. Livros. Abraços. Tudo aquilo que enche a alma e nos reitera o sentido da vida.
Queremos voltar. E aconselhamos os amigos a irem viver uns momentos sorridentes, até 21 de Abril, na Malaposta.

08 março 2013

No dia da mulher. Que é, como todos, também dia do homem



No dia da mulher…

Não me dês palavras. Rouba-me uma dança.

Não me elogies. Faz com que eu me aperceba que me admiras.

Não me desejes um dia feliz. Sê feliz comigo.

Não me perguntes pelos filhos. Sussurra-me mundos não sonhados.

Não me leves jantar. Dá-me à boca a gula partilhada.

Não tomemos um copo num bar. Faz do meu umbigo a tua taça.

Não me fales do mundo. Inventa comigo um universo nosso.

Não me ofereças um perfume. Tatua o teu aroma em mim.

Não me presenteies com nada de material. Só te quero a pele.

Não esperes que te responda. Cala-me com um beijo quente.

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