19 março 2013

Pai



Só te disse adeus meses depois.
Não me ocorreu dizer adeus quando vi a tua urna ser engolida pelo forno crematório.
Nunca se está preparada para dizer adeus. Nem ao fim de dez anos de doença. Dez anos que levaram o que eras, deixando-me, em vez de ti, um ser amorfo, sem brilho no olhar, sem força na atitude, sem a mordacidade das nossas “bocas”.
Fiquei sem poder de negociação quando o Alzheimer se instalou em ti. E ficou, para sempre, o meu calcanhar de Aquiles.
Naquele dia eu não estava preparada para te dizer adeus. Não quando, para se despedirem de ti, vieram do Porto familiares, que te eram tão próximos, e que continuaram desavindos e não se reaproximaram.
Não quando eu tinha uma vida dentro de mim, prestes a ver a luz dum dia onde já não te encontraria.
Tenho vivido estes últimos quase sete anos com a dor aninhada, carinhosamente, no lado esquerdo do peito, onde se guardam as tatuagens invisíveis que a vida nos oferece sem pedirmos.
Tenho sabido lidar com ela, garanto-te que tenho.
Mas hoje fazes-me tanta falta! E essa do ocupa-me todo o meu ser.
O Vasco está enorme e parece ter herdado alguns aspectos do teu carácter.
A Mafalda far-te-ia babar. Menina, loura, olhos azuis, sempre preocupada com os outros, toda ela charme.
Fazem-me falta as nossas danças cúmplices, rodopiando sobre nós mesmos, num passo desajeitado que faria qualquer pessoa rir-se de nós. Os olhares que nos dispensavam palavras. Até a tua exigência demasiada. A forma crua como me fazias ver que cabe a cada um de nós enfrentar as suas fraquezas, bater-se pelas suas causas.
Não te cheguei a dizer que foste um pai exemplar em quase tudo.
Não me preocupa isso, porque sei que te disse, sempre, o quanto te amava e admirava.
Mesmo quando já não me retribuías o abraço, quando o te cérebro doente não decifrava as minhas os meus lábios encriptados. Disse-to sempre. Não nos faltou diálogo nem o meu aconchego em ti.
Hoje, promete que não me censuras a lamechice, sim?
Porque hoje sou só saudade e lágrimas. E lamechice. Lamento.
Lamento não saber quando te vi pela última vez. A gravidez impediu-me de entrar na enfermaria onde te foram roubados os últimos sopros. Saíste de lá para um desfile triste de rostos conhecidos.
Lamento não termos conversado sobre os livros que me deixaste e os autores que descobri depois.  Os filmes que gostarias de ter visto. Lamento não termos assistido a mais concertos, não me termos bebido juntos uns copos de vinho, a acompanhar uns conselhos paternais sobre os meus amores e desamores.
Lamento já não estares para te rires por eu levar as angústias e as alegrias ao teu ouvido, tudo em doses generosas.
Segui os teus conselhos, pai. E os gostos que me incutiste. E a garra.
Estás em cada linha que leio, cada palavra que escrevo, cada luta que venço, cada manifestação que engrosso, cada sorriso. Cada lágrima.
Estarás sempre.
Só uma coisa não conseguiste ensinar-me:  o que fazer com esta saudade dolorosa. Infinita…
E, desta vez, sou eu que peço: aparece. E ri-te das minhas lágrimas. Não me deixes aqui sozinha…

4 comentários:

Maria disse...

Não tenho palavras para ti.
Abraço-te, muito.

elvira carvalho disse...

Partilha de uma dor identica e de uma saudade atroz. Por isso as palavras morrem antes de serem escritas e deixando um abraço solidário saio com os olhos rasos de água.

Maria João disse...


"uma dor aninhada", como tu dizes ( e bem ).
Nunca nos esquecemos deles- nem poderíamos-, e, talvez por não estarem connosco,o que gostaríamos de lhes dizer cresce na mesma proporção da falta que deles sentimos.

Um abraço, um simples e forte abraço de entendimento e silêncio.

© Piedade Araújo Sol disse...

nunca estamos preparados...

;)

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