17 abril 2013

No dia que era o do aniversário do meu pai




Para mim, hoje continua a ser o teu dia.
Só não iremos mais apanhar bichos-de-conta para os fazermos rolar nas nossas mãos, enquanto esperamos que o comboio chegue, na estação do Estoril.
Nem haverá mais sessões de cinema na tv às quartas à noite, comendo amendoins.
Não terei mais oportunidade de dançar contigo aquela “amostra de dança”,  de passos pequenos e patetas, que só nós dançávamos. Ou de trocarmos um olhar codificado, cujo significado sabíamos e nos despoletava caretas ou sorrisos.
Não te ouvirei mais dizeres-me que posso escolher para ler qualquer dos inúmeros livros que tínhamos em casa, como me disseste quando eu tinha uns doze anos, acrescentando que, se algum me não trouxesse boas sensações, deveria pô-lo de parte, pois podia não ser próprio para a minha maturidade.
Também não viajaremos mais, nem nos “enfrentaremos”, debatendo acaloradamente os nossos pontos de vista, nem sempre coincidentes.
Não acenderás mais cigarros na praia com uma lupa, numa verdadeira manobra de diversão que deixava os miúdos boquiabertos.
Não haverá mais despertares de supetão. Nunca tiveste jeitinho nenhum para me acordar…
Mas sempre me recordarei da “palmadinha” que me deste nos primeiros anos para que eu adormecesse.
Não te ouvirei mais assobiar uma melodia pela casa, ou soltar um daqueles estridentes assobios no meio da rua para chamar a atenção de algum neto extraviado.
Desapareceu, da estação de S. Pedro, o cheiro do teu tabaco, que acendias mal saías do comboio e deixava um rasto que me fazia saber se calhava vir no mesmo horário, que saíras no mesmo comboio, numa carruagem mais à frente.
Mas, sabes? As andorinhas, que tanto apreciavas, continuam a fazer ninhos nos beirais dos telhados. As crianças é que deixaram de brincar no pátio, excepto os meus filhos, que ainda lá andam, uma vez por outra, a jogar à bola ou de bicicleta.
Eu continuo a ouvir as músicas que me ensinaste a gostar, continuo a levar sempre comigo um livro, para onde quer que vá. E a comer nougats, de vez em quando…
E Abril será sempre um mês muito especial…

2 comentários:

© Piedade Araújo Sol disse...

bonita homenagem.
fiquei com lágrimas a me recordar do meu.
beijo

Maria João disse...


E que bom que é termos dias para recordar. Dias onde moram aqueles que amamos e que bailarão para sempre na nossa memórias!!

Um beijinho no teu coração.

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