Numa das últimas noites, despertei para a nostalgia. Dei-me conta das saudades que tinha duma noite assim, quente, a cheirar a Verão. De preferência, passada na rua.
Das estações do ano bem definidas, com transições suaves e longos meses estivais.
A nostalgia é como as cerejas, arrastando-me pelas outras saudades: da Feira Popular, de acordar fresca após um curto sono coroando uma noite bem musicada e muito ritmada.
Saudades de poder dispor do meu tempo.
Saudades do Porto. De viajar, de namorar.
De ir ao cinema e ao teatro.
De acreditar.
Da minha gatinha, ternurenta e linda.
Saudades do meu pai. Do meu pai anterior à saga Alzheimer, sobretudo.
E as vossas saudades, são feitas de quê?
18 setembro 2007
17 setembro 2007
Para quando...
... scanners que leiam todos os códigos de barras do carrinho de compras, sem necessidade de empatar mais tempo e daquela trabalheira de tira-do-carrinho-e-volta-a-colocar-vê-lá-se-consegues-arrumar-tudo-tão-bem-como-estava?
13 setembro 2007
Eu vi!

Tenho por hábito, enquanto o tempo o permite, não regressar a casa assim que vou buscar os meus filhos à escola. Deixo-os gastar energias e sentirem-se livres, levando-os ao parque, a casa da avó ou de amigos, à praia, ao paredão, o que apetecer e não for demasiado repetitivo.
Na passada Terça-feira, a vontade puxou-me para a praia. Não que a temperatura estivesse abrasadora, longe disso. Era, nitidamente, o apelo do mar. O desejo de brincar livremente com os miúdos enquanto chapinhava, quanto mais não fosse adentrando-me pelo oceano até à profundidade suficiente para imergir os pés.
Que não, o *****, na idade de tudo contrariar, queria era ir a casa do Gonçalo. Mas eu, muito democraticamente, votei por mim e pela minha filha, que ainda não tem capacidade de se exprimir, e elegi a praia.
Foi a mais curta estadia na praia. Pouco depois, a aragem já me fazia recear a possibilidade de a bebé ficar ranhosa demais, sempre molhada e a receber o vento sem mostras de desagrado pelo arrefecimento.
Mas foi também a ida à praia mais certeira da minha vida: o pouco tempo que lá passámos foi o tempo que acolheu a passagem saltitante de um golfinho.
Conheço e frequento desde sempre a praia de S. Pedro do Estoril, aquela que é, de longe, a que me acompanha mais vezes nas lides estivais, mas nunca vira um golfinho banhar-se nas mesmas águas que eu. Quem sabe, talvez o apelo irrestível pela maresia nesta Terça-feira fosse um prenúncio da surpresa que nos aguardava.
11 setembro 2007
Explicações difíceis
11 de Setembro é uma data marcadamente violenta.
Não sei como explicar, daqui por uns tempos, ao meu filho, os assassinatos políticos, as chacinas terroristas.
Sou levada do global (assassinato de Allende e atentados contra o país-símbolo EUA) ao particular e continuo a pensar qual a melhor forma de lhe explicar ou responder, no imediato, a questões como quando é que terei novamente um emprego, a forma como as sementes dos pais passam para as mães para originar um bebé, porque é que, às vezes, pai e mãe não devem continuar a viver juntos, porque é que a doença da tia é tão grave e ela vai ficar sem cabelo...
Não sei como explicar, daqui por uns tempos, ao meu filho, os assassinatos políticos, as chacinas terroristas.
Sou levada do global (assassinato de Allende e atentados contra o país-símbolo EUA) ao particular e continuo a pensar qual a melhor forma de lhe explicar ou responder, no imediato, a questões como quando é que terei novamente um emprego, a forma como as sementes dos pais passam para as mães para originar um bebé, porque é que, às vezes, pai e mãe não devem continuar a viver juntos, porque é que a doença da tia é tão grave e ela vai ficar sem cabelo...
10 setembro 2007
Avante
Era eu miúda de três anos e do meu repertório musical constava já o Avante, Camarada.
Pai de ideias comunistas, mãe nem tanto, certo, certo era que, em Setembro, a festa era nossa. Na Ajuda, na Amora, no Seixal.
A mim, interessavam-me os espaços ocupados pelos países, regiões ou cidades que exibissem artesanato, fotografia, música ou doçaria própria. As demonstrações de ginastas. E, claro, aquele ambiente especial de três dias de tu. Todos a tratarem-se por tu. Conhecidos, desconhecidos, novos, mais vividos, eles e elas, todos na igualdade democrática do tu.
Sinto saudades da Festa. Este ano dei-me conta de terem já decorrido muitos anos desde a última visita que lhe fiz. Como se a doença que afastou o meu pai da festa e da realidade, não lhe permitindo esse prazer nos últimos anos de vida, me tivesse afastado por arrastamento.
Cansada, ou melhor, exausta das guerras em que tenho estado envolvida, dei por mim a ter de recusar convite de amigos para ir no Sábado. Uma recusa penosa, mas o corpo recusava-se a obedecer à mente.
Comentei com a minha mãe esta recusa. Lamentámos juntas a ausência.
E pensei. E disse "para o ano irei", com a determinação de quem quer recolocar na normalidade mais este pormenor.
Pai de ideias comunistas, mãe nem tanto, certo, certo era que, em Setembro, a festa era nossa. Na Ajuda, na Amora, no Seixal.
A mim, interessavam-me os espaços ocupados pelos países, regiões ou cidades que exibissem artesanato, fotografia, música ou doçaria própria. As demonstrações de ginastas. E, claro, aquele ambiente especial de três dias de tu. Todos a tratarem-se por tu. Conhecidos, desconhecidos, novos, mais vividos, eles e elas, todos na igualdade democrática do tu.
Sinto saudades da Festa. Este ano dei-me conta de terem já decorrido muitos anos desde a última visita que lhe fiz. Como se a doença que afastou o meu pai da festa e da realidade, não lhe permitindo esse prazer nos últimos anos de vida, me tivesse afastado por arrastamento.
Cansada, ou melhor, exausta das guerras em que tenho estado envolvida, dei por mim a ter de recusar convite de amigos para ir no Sábado. Uma recusa penosa, mas o corpo recusava-se a obedecer à mente.
Comentei com a minha mãe esta recusa. Lamentámos juntas a ausência.
E pensei. E disse "para o ano irei", com a determinação de quem quer recolocar na normalidade mais este pormenor.
08 setembro 2007
Hoje não estou cá

Aceitei o convite do Alex Gandum, do Fundamentalidades, e embarquei.
Viagem no combóio das sensações, era o programa proposto.
Eu, a Maria, a Maria Mamede e outras almas sensíveis desta blogosfera que nos une, partimos em busca de um dia encantado. Vindos do Norte, do Sul, não importa: o espírito da viagem era comum. Esta é a "viagem das almas encantadas", diz o convite.
Com bilhete apenas de ida, refugiamo-nos no convívio viajante da partilha de emoções. Percorremos o país admirando paisagens, enquanto saboreamos a companhia uns dos outros. Não pretendemos, sequer, que o combóio páre aqui ou acolá. Só nos interessa deliciarmo-nos com os olhos, enquanto não paramos na única estação do nosso percurso: a "estação secreta do segredo".
A quem quiser embarcar connosco nesta "viagem das viagens", o convite está no blog Fundamentalidades, com link mais abaixo neste blog. Não deixem os vossos sonhos para depois...
06 setembro 2007
A Voz
A Voz descansa. Permanentemente.
Deixa saudades. Pelo timbre, pelo sorriso, tão belo quanto os seus dotes vocais, aberto a causas, à beleza da vida, às crianças.
Permeável a tudo o que de bom se pode retirar desta breve passagem, argumentava que "O Mundo é assim mesmo. Estar vivo já é mais que suficiente."
Filho de um padeiro e de uma operária, consegue atingir o estatuto de tenor com maior projecção de sempre.
Bono Vox definiu-o como "um dos lutadores mais sentimentais que o mundo já viu". É deste tipo de lutadores que o planeta precisa.
Ouvi-lo era (e continuará a ser) arrepiante, comovente. Enlevada, inebriada pelo seu canto, que acompanha as notícias da sua partida para o plano eterno, sei que A Voz não morrreu. Porque é imortal, tal como o são aqueles que amamos ou admiramos. Partiram para o plano infinito, não partiram dos nossos corações.
Quem sabe se lá, nesse plano, onde eu espero que haja harmonia e amizade e todos se conheçam e respeitem, ele não poderá encantar aqueles que vibravam com o seu bel canto e lá se encarregarão de acolhê-lo com carinho?
Sei que é utópico, mas quando haveremos de sê-lo, se não quando sofremos?
(o epíteto A Voz, aplicado a Sinatra, não estaria mal aplicado, mas não estarei a imputá-lo em vão a Pavarotti, certamente...).
Deixa saudades. Pelo timbre, pelo sorriso, tão belo quanto os seus dotes vocais, aberto a causas, à beleza da vida, às crianças.
Permeável a tudo o que de bom se pode retirar desta breve passagem, argumentava que "O Mundo é assim mesmo. Estar vivo já é mais que suficiente."
Filho de um padeiro e de uma operária, consegue atingir o estatuto de tenor com maior projecção de sempre.
Bono Vox definiu-o como "um dos lutadores mais sentimentais que o mundo já viu". É deste tipo de lutadores que o planeta precisa.
Ouvi-lo era (e continuará a ser) arrepiante, comovente. Enlevada, inebriada pelo seu canto, que acompanha as notícias da sua partida para o plano eterno, sei que A Voz não morrreu. Porque é imortal, tal como o são aqueles que amamos ou admiramos. Partiram para o plano infinito, não partiram dos nossos corações.
Quem sabe se lá, nesse plano, onde eu espero que haja harmonia e amizade e todos se conheçam e respeitem, ele não poderá encantar aqueles que vibravam com o seu bel canto e lá se encarregarão de acolhê-lo com carinho?
Sei que é utópico, mas quando haveremos de sê-lo, se não quando sofremos?
(o epíteto A Voz, aplicado a Sinatra, não estaria mal aplicado, mas não estarei a imputá-lo em vão a Pavarotti, certamente...).
05 setembro 2007
À Maria Mamede
A Maria Mamede, dos blogs De Amor e de Terra e Se Não Houvesse Fronteiras, tem o dom de conferir beleza a um dia-a-dia tantas vezes feio, de colorir os momentos cinzentos, de adoçar a amargura, através das suas poesias.
Conhecemo-nos só pela blogosfera, trocámos um ou outro email. Mas foi como amiga que me tratou, ao oferecer-me dois presentes de aniversário vindos directamente da sua extraordinária capacidade criativa para o meu cantinho -cada vez maior- das emoções.
Quem já conheece os seus blogs não se surpreenderá, mas aos que não conhecem, sugiro que os espreitem; não darão pelo tempo a passar...
Em jeito de apresentação a futuros leitores da Maria, aqui fica um poema que seleccionei, da sua obra Palavras Gastas:
Tu És...
Minha asa de sal, meu cordel de bruma
Rosário de contas desfiadas uma a uma,
És cinzento choro no azul que canto;
És poema-limão verde de amargura
Boca-cereja de encanto e doçura
Corpo de junco que eu desejo tanto.
És fome e sede eternas de verdade
Meu ocaso, minha dor, minha ansiedade
Minha canção de paz, de mar bravio
Meu suspiro de amor, minha ternura
Sabor a mel dos dias de ventura
Fonte de seiva a transformar-se em rio.
És meu trigal maduro pela ausência
Flor vermelha da paixão demência
Que em amarelo me invade e eu desespero
És maçã-pecado do éden caída
Lava em torrente arrasando a vida
Verde de esperança que eu já não espero.
Maria: nós continuamos à espera. De mais belezas como esta.
Um abraço.
Conhecemo-nos só pela blogosfera, trocámos um ou outro email. Mas foi como amiga que me tratou, ao oferecer-me dois presentes de aniversário vindos directamente da sua extraordinária capacidade criativa para o meu cantinho -cada vez maior- das emoções.
Quem já conheece os seus blogs não se surpreenderá, mas aos que não conhecem, sugiro que os espreitem; não darão pelo tempo a passar...
Em jeito de apresentação a futuros leitores da Maria, aqui fica um poema que seleccionei, da sua obra Palavras Gastas:
Tu És...
Minha asa de sal, meu cordel de bruma
Rosário de contas desfiadas uma a uma,
És cinzento choro no azul que canto;
És poema-limão verde de amargura
Boca-cereja de encanto e doçura
Corpo de junco que eu desejo tanto.
És fome e sede eternas de verdade
Meu ocaso, minha dor, minha ansiedade
Minha canção de paz, de mar bravio
Meu suspiro de amor, minha ternura
Sabor a mel dos dias de ventura
Fonte de seiva a transformar-se em rio.
És meu trigal maduro pela ausência
Flor vermelha da paixão demência
Que em amarelo me invade e eu desespero
És maçã-pecado do éden caída
Lava em torrente arrasando a vida
Verde de esperança que eu já não espero.
Maria: nós continuamos à espera. De mais belezas como esta.
Um abraço.
01 setembro 2007
31 de Agosto, aniversário da Patrícia
Este ano, no aniversário da Patrícia, o estrondo de uma bala sobrepõe-se ao estampido do soltar da rolha de espumante. Pouco mais de um mês antes do seu aniversário, um tiro, meio a brincar, veio roubar-lhe o marido, pai do filho que espera (e não só), e trazer-lhe um desgosto, bem sério. Quem a vê, vê uma mulher bonita e nada mais.
Eu, vejo a menina que com 6 anos dormia ainda na minha cama de bebé, quando vinha passar férias à minha casa com as irmãs. Vejo a Patrícia que se apressavaa a responder, de rajada, quase zangada: "sopinha de canja", à nossa mania de a rotularmos de "sopinha de massa", devido à sua maneira de pronunicar os "s".
A menina dócil que conseguia ganhar as corridas, mesmo a quem tinha mais 5 anos que ela, foi-se tornando uma rapariga linda, empenhada em ajudar nas tarefas domésticas e na criação dos irmãos. Terceira filha dum casal que gerou oito, cedo a adolescente se tornou mulher, assumindo as responsabilidades caseiras e familiares com uma naturalidade que só ela conseguia. Os três benjamins são, em grande parte, produto dos seus cuidados e razão do abandono mais que precoce dos interesses escolares.
Ironia da vida, a Patrícia acaba por integrar a estatística das mães adolescentes, tão típica deste país, ela que apregoava não querer ter de cuidar de meninos tão depressa.
Quem a vê, não descortina a imagem da minha lembrança: a de uma menina tão linda que o olhar se detém sempre a apreciar o rosto harmonioso, moldado por um cabelo bonito, escuro e liso, invariavelmente comprido, olhos amendoados, lábios sorridentes vizinhos dum nariz suave, bem desenhado.
Quem a vê, se não a conhece, não vê aquela não Amélia, mas Patrícia "dos olhos doces, quem dera que fosses apenas mulher", como eu vejo. Como eu gostaria que fosse apenas mulher, e não a jovem cuja vida se apressou em correr mais depressa que ela própria quando pequenita. A mãe de três filhos, com um quarto bebé em desenvolvimento, numa gestação paralela à morte do pai. Uma gravidez casada com um rendimento mínimo. Desemprego é o termo mais generalizado na família: além da própria Patrícia, aplica-se à maioria dos sete irmãos, aos próprios pais.
Viúva em vésperas da terceira década de vida.
Basta repararmos na vida desta miúda para constatarmos o que, de tão evidente, não costuma ocorrer-nos: que é tão fácil ser-se feliz...
Acredito que nem tudo na vida é consequência das nossas opções.
E acredito que, um dia, as feridas da Patrícia serão cicatrizes cuja dor foi tratada pelo amor dos seus quatro filhos. Acredito ainda que, daqui por uns tempos, em vez da Amélia, do Carlos Mendes, a minha sobrinha me faça recordar a Mãe-coragem, do Brecht.
(A Patrícia, não obstante ser da minha faixa etária, é minha sobrinha. Recordo-a em todos aqueles pormenores da infância que fazem com que ela seja, como as suas irmãs, uma miúda, mesmo após décadas decorridas sobre a meninice: as preferências culinárias, os hábitos na hora de ir dormir, as brincadeiras.
Não pude publicar este post na data do seu aniversário, mas o testemunho sobre a sua vida não se sujeita a calendários...).
Eu, vejo a menina que com 6 anos dormia ainda na minha cama de bebé, quando vinha passar férias à minha casa com as irmãs. Vejo a Patrícia que se apressavaa a responder, de rajada, quase zangada: "sopinha de canja", à nossa mania de a rotularmos de "sopinha de massa", devido à sua maneira de pronunicar os "s".
A menina dócil que conseguia ganhar as corridas, mesmo a quem tinha mais 5 anos que ela, foi-se tornando uma rapariga linda, empenhada em ajudar nas tarefas domésticas e na criação dos irmãos. Terceira filha dum casal que gerou oito, cedo a adolescente se tornou mulher, assumindo as responsabilidades caseiras e familiares com uma naturalidade que só ela conseguia. Os três benjamins são, em grande parte, produto dos seus cuidados e razão do abandono mais que precoce dos interesses escolares.
Ironia da vida, a Patrícia acaba por integrar a estatística das mães adolescentes, tão típica deste país, ela que apregoava não querer ter de cuidar de meninos tão depressa.
Quem a vê, não descortina a imagem da minha lembrança: a de uma menina tão linda que o olhar se detém sempre a apreciar o rosto harmonioso, moldado por um cabelo bonito, escuro e liso, invariavelmente comprido, olhos amendoados, lábios sorridentes vizinhos dum nariz suave, bem desenhado.
Quem a vê, se não a conhece, não vê aquela não Amélia, mas Patrícia "dos olhos doces, quem dera que fosses apenas mulher", como eu vejo. Como eu gostaria que fosse apenas mulher, e não a jovem cuja vida se apressou em correr mais depressa que ela própria quando pequenita. A mãe de três filhos, com um quarto bebé em desenvolvimento, numa gestação paralela à morte do pai. Uma gravidez casada com um rendimento mínimo. Desemprego é o termo mais generalizado na família: além da própria Patrícia, aplica-se à maioria dos sete irmãos, aos próprios pais.
Viúva em vésperas da terceira década de vida.
Basta repararmos na vida desta miúda para constatarmos o que, de tão evidente, não costuma ocorrer-nos: que é tão fácil ser-se feliz...
Acredito que nem tudo na vida é consequência das nossas opções.
E acredito que, um dia, as feridas da Patrícia serão cicatrizes cuja dor foi tratada pelo amor dos seus quatro filhos. Acredito ainda que, daqui por uns tempos, em vez da Amélia, do Carlos Mendes, a minha sobrinha me faça recordar a Mãe-coragem, do Brecht.
(A Patrícia, não obstante ser da minha faixa etária, é minha sobrinha. Recordo-a em todos aqueles pormenores da infância que fazem com que ela seja, como as suas irmãs, uma miúda, mesmo após décadas decorridas sobre a meninice: as preferências culinárias, os hábitos na hora de ir dormir, as brincadeiras.
Não pude publicar este post na data do seu aniversário, mas o testemunho sobre a sua vida não se sujeita a calendários...).
29 agosto 2007
- "Mãe, o céu está lá para nós o vermos, não é?"
(nova "tirada" do pequeno poeta, no dia 24 de Agosto).
(nova "tirada" do pequeno poeta, no dia 24 de Agosto).
25 agosto 2007
Meu amor:
Vens ter comigo quando sentes o meu olhar baixar e envolves-me com os braços e com palavras. Repetes a candura do companheirismo, o olhar de confiança, a faísca do toque. Somos cúmplices nas preocupações e nos projectos, siameses unidos pelo coração.
Temos saudades de tudo o que ainda não fizemos juntos.
Dormimos como vivemos: unidos. E acordamos quentes.
Se fosses mais que um sonho, eu seria feliz.
Vens ter comigo quando sentes o meu olhar baixar e envolves-me com os braços e com palavras. Repetes a candura do companheirismo, o olhar de confiança, a faísca do toque. Somos cúmplices nas preocupações e nos projectos, siameses unidos pelo coração.
Temos saudades de tudo o que ainda não fizemos juntos.
Dormimos como vivemos: unidos. E acordamos quentes.
Se fosses mais que um sonho, eu seria feliz.
24 agosto 2007
Não gosto de mensagens publicadas nos blogs a anunciar uma pausa para férias. Curioso!... Desta vez sou eu que anuncio. Não uma pausa para férias. Antes fosse...
Muito tinha eu para aqui vos deixar, se o momento fosse oportuno. As belas tiradas, fruto de insónias recentes, estão a salvo algures. Leitores, amigos: estou cansada, o sono oprime-me. Mas prometo que o silêncio será sempre tão breve quanto estiver ao meu alcance um computador.
Muito tinha eu para aqui vos deixar, se o momento fosse oportuno. As belas tiradas, fruto de insónias recentes, estão a salvo algures. Leitores, amigos: estou cansada, o sono oprime-me. Mas prometo que o silêncio será sempre tão breve quanto estiver ao meu alcance um computador.
21 agosto 2007
Hora de balanço

Mais um ano cumprido. Este, comprido.
A metade radiosa da minha vida, a estrear, pelezinha suave e sorriso reluzente, já era. Terei de contrariar a tendência se quiser que a segunda metade não seja muito reflexo de declínio, sobretudo moral.
No meu balanço, recordo que já plantei uma árvore, pari dois filhos e não escrevi nenhum livro. O balanço não deu superavit; só o dará quando as metas forem superadas.
Lembro-me do que a vida me ensinou de mais importante:
1- que perdemos uns amores e ganhamos outros, mas acumulamos todos; os que se perderam, seja por que circunstâncias for, também ficam gravados em nós.
2- que a discriminação existe, sobretudo no que toca ao género.
3- que quem nos ama pode proceder, por vezes, da pior forma para connosco, mesmo os nossos pais.
4- que, aos 35, o sonho pode ser exactamente o mesmo que aos 15.
5- que quando sofremos deveras é quando sofremos sozinhos. E todo o sofrimento tem uma componente de solidão. E a verdadeira dor é a que nos acompanha diariamente, camuflada.
6- que a maior cumplicidade que já pude experimentar é a de recém-mãe, na primeira noite passada na companhia dum recém-nascido.
7- que quem vive preocupado com o que os outros vão pensar é, justamente, quem mais julga os semelhantes.
8- que o autêntico deslubramento provém dos filhos ou da Natureza.
9- que, por vezes, é mais fácil desabafar com quem não conhecemos bem.
10- que a ruína dum investimento económico nos desequilibra menos que um investimento emocional defraudado.
A metade radiosa da minha vida, a estrear, pelezinha suave e sorriso reluzente, já era. Terei de contrariar a tendência se quiser que a segunda metade não seja muito reflexo de declínio, sobretudo moral.
No meu balanço, recordo que já plantei uma árvore, pari dois filhos e não escrevi nenhum livro. O balanço não deu superavit; só o dará quando as metas forem superadas.
Lembro-me do que a vida me ensinou de mais importante:
1- que perdemos uns amores e ganhamos outros, mas acumulamos todos; os que se perderam, seja por que circunstâncias for, também ficam gravados em nós.
2- que a discriminação existe, sobretudo no que toca ao género.
3- que quem nos ama pode proceder, por vezes, da pior forma para connosco, mesmo os nossos pais.
4- que, aos 35, o sonho pode ser exactamente o mesmo que aos 15.
5- que quando sofremos deveras é quando sofremos sozinhos. E todo o sofrimento tem uma componente de solidão. E a verdadeira dor é a que nos acompanha diariamente, camuflada.
6- que a maior cumplicidade que já pude experimentar é a de recém-mãe, na primeira noite passada na companhia dum recém-nascido.
7- que quem vive preocupado com o que os outros vão pensar é, justamente, quem mais julga os semelhantes.
8- que o autêntico deslubramento provém dos filhos ou da Natureza.
9- que, por vezes, é mais fácil desabafar com quem não conhecemos bem.
10- que a ruína dum investimento económico nos desequilibra menos que um investimento emocional defraudado.
20 agosto 2007
O meu pequeno poeta brilhante
Eu, para o meu filho, quando ele se saíu com mais uma das dezenas de patetices diárias:
- Sabes que mais? És um chato!
O meu filho para mim, com um sorriso malandro:
- E tu és uma luz... que brilha!
Pedi-lhe, com ar surpreso, que repetisse o que acabara de dizer. Ele, meio espantado, repetiu, com aquele ar de quem finge vergonha:
- És uma luz, que brilha! (dito com o tom infantil dos quatro anos que ainda não sabem pronunciar os "r").
Eureka! A minha cara encheu-se num sorriso aberto, como só os apaixonados ou as mães ou pais babados conseguem ostentar.
Qual desemprego, qual mágoa, qual abatimento, qual preocupação... Xô!
- Sabes que mais? És um chato!
O meu filho para mim, com um sorriso malandro:
- E tu és uma luz... que brilha!
Pedi-lhe, com ar surpreso, que repetisse o que acabara de dizer. Ele, meio espantado, repetiu, com aquele ar de quem finge vergonha:
- És uma luz, que brilha! (dito com o tom infantil dos quatro anos que ainda não sabem pronunciar os "r").
Eureka! A minha cara encheu-se num sorriso aberto, como só os apaixonados ou as mães ou pais babados conseguem ostentar.
Qual desemprego, qual mágoa, qual abatimento, qual preocupação... Xô!
As viagens do Tiago
Já acabei de ler o livro do Tiago. E preparava-me para escrever aqui mais um enooooooorme texto, como quando o comprei.
Mas, desta vez, não; a folha onde anotei os tópicos e respectivas páginas resolveu partir, também ela, em viagem, como o viajante Salazar.
Quando a reencontrar, lançar-me-ei em considerações mais alongadas sobre os momentos poéticos, as divagações pela História, os apelos papilares e todos os pormenores da escrita do andarilho.
Por hoje, fico pelo último texto, consagrado a essa Florença que ainda não conheço.
Seja pelo modo arrebatado como é descrita, seja pelo entrelaçar de mindinhos ou pelo brinde com discurso que o Tiago herdou do meu pai, seja pelo que for, chorei. Ou então sou eu, a eu dos últimos dias...
Continua, Tiago. Parabéns!
Mas, desta vez, não; a folha onde anotei os tópicos e respectivas páginas resolveu partir, também ela, em viagem, como o viajante Salazar.
Quando a reencontrar, lançar-me-ei em considerações mais alongadas sobre os momentos poéticos, as divagações pela História, os apelos papilares e todos os pormenores da escrita do andarilho.
Por hoje, fico pelo último texto, consagrado a essa Florença que ainda não conheço.
Seja pelo modo arrebatado como é descrita, seja pelo entrelaçar de mindinhos ou pelo brinde com discurso que o Tiago herdou do meu pai, seja pelo que for, chorei. Ou então sou eu, a eu dos últimos dias...
Continua, Tiago. Parabéns!
19 agosto 2007
10 agosto 2007
Ao Pedro, d'A Qualidade do Silêncio

Ontem, à hora de me deitar, sentia que necessitava de uma leitura que me favorecesse um sono tranquilo. Pensei, pensei e, a princípio, nenhuma das ideias que me ocorriam me parecia a escolha certa. Até que me lembrei de levar para a cama o Pedro. De papel, bem entendido. Assim como quem se lembra de levar para a alcova a Isabel Allende ou o Lobo Antunes. Dirigi-me à estante, onde o Neves vem a seguir ao Namora, e fui namorar as palavras de papel onde o espelho, espelho do Pedro me acompanhava.
Percorri, num relance lento, pausado e saboreado, o coração, "muito mais que a sombra do corpo". A pele, "com o fulgor das supernovas deflagrando ao primeiro sinal de fogo". O olhar, "isento do lume desses dias". As mãos ("choro amordaçado de uma dor") no peito, "essa enseada de calor brando" (...) "onde vinhas esconder-te". Os dedos "tardam a reaprender os lugares da pele". A temperatura "era o desejo", as veias "respiram a lembrança do fluir". O sangue onde "se decidiam os gestos e as carícias", a boca, que falava com o coração.
Porque a poesia é para ser interpretada pela sensibilidade de cada um, e porque eu gosto do Pedro, retirei da sua poesia as réstias de amargura e nostalgia e sublinhei a vertente mais ténue, a da sensualidade.
Sugiro que cada um leia "Chiasco", munido da sua própria sensibilidade, já que eu aqui apenas deixei uma sequência saltitante de ideias, deixando o tesouro do sentido destes fragmentos à descoberta de cada apreciador de letras.
Assim, talvez não seja só eu a apelar ao Pedro para que, quando for "para a noite como um louco a atirar pedras à lua para que se apague", avise. É que a ideia, surgida num breve relance, parece-me um desafio divertidíssimo...
07 agosto 2007
A história anda a rondar-me. Sorrateira, insinua-se lenta mas decididamente.
Entusiasma-me, incomoda-me, faz-me perder o sono (se alguém o encontrar, por favor, devolva-o a esta dona, que promete não lhe impingir grande sermão).
A história é longa e é antiga. Misteriosa. Muito apaixonante.
Persegue-me.
Faz-me empenhar horas e horas em pesquisas, inúmeras perguntas.
Eu respeito-a. Sei que já conquistou este espaço. Tem, portanto, o direito de caminhar ao meu lado, agora, sempre. É como que a minha sombra.
Sei que ela não sairá jamais da minha tangente sem que eu a liberte.
Só posso libertá-la expondo-a. E quero fazê-lo. Mas há algo em mim que a contempla, a idealiza, num platonismo infindo. É o meu namoro.
Pois. Ensandeci! Agora namoro fantasmas...
Como explicar que há empresas grandes demais para se encetarem sem muita maturação? Requerem dedicação, aprofundamento, uma intimidade total. O envolvimento inicial é apenas o começo. Não da história; talvez do prólogo.
Nada de pressas, portanto. O casamento poderá dar-se ao fim de anos. Mas quero que seja um casamento feliz.
Vou respeitar as datas, viver os locais, ser fiel aos personagens. Será respeitada a privacidade e o anonimato. E, por não ser historiadora, a fantasia também terá alguma margem de acção neste romance.
Ele está sempre aqui, ao meu lado. Mas, por enquanto, só eu o vejo...
Entusiasma-me, incomoda-me, faz-me perder o sono (se alguém o encontrar, por favor, devolva-o a esta dona, que promete não lhe impingir grande sermão).
A história é longa e é antiga. Misteriosa. Muito apaixonante.
Persegue-me.
Faz-me empenhar horas e horas em pesquisas, inúmeras perguntas.
Eu respeito-a. Sei que já conquistou este espaço. Tem, portanto, o direito de caminhar ao meu lado, agora, sempre. É como que a minha sombra.
Sei que ela não sairá jamais da minha tangente sem que eu a liberte.
Só posso libertá-la expondo-a. E quero fazê-lo. Mas há algo em mim que a contempla, a idealiza, num platonismo infindo. É o meu namoro.
Pois. Ensandeci! Agora namoro fantasmas...
Como explicar que há empresas grandes demais para se encetarem sem muita maturação? Requerem dedicação, aprofundamento, uma intimidade total. O envolvimento inicial é apenas o começo. Não da história; talvez do prólogo.
Nada de pressas, portanto. O casamento poderá dar-se ao fim de anos. Mas quero que seja um casamento feliz.
Vou respeitar as datas, viver os locais, ser fiel aos personagens. Será respeitada a privacidade e o anonimato. E, por não ser historiadora, a fantasia também terá alguma margem de acção neste romance.
Ele está sempre aqui, ao meu lado. Mas, por enquanto, só eu o vejo...
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