Este ano, no aniversário da Patrícia, o estrondo de uma bala sobrepõe-se ao estampido do soltar da rolha de espumante. Pouco mais de um mês antes do seu aniversário, um tiro, meio a brincar, veio roubar-lhe o marido, pai do filho que espera (e não só), e trazer-lhe um desgosto, bem sério. Quem a vê, vê uma mulher bonita e nada mais.
Eu, vejo a menina que com 6 anos dormia ainda na minha cama de bebé, quando vinha passar férias à minha casa com as irmãs. Vejo a Patrícia que se apressavaa a responder, de rajada, quase zangada: "sopinha de canja", à nossa mania de a rotularmos de "sopinha de massa", devido à sua maneira de pronunicar os "s".
A menina dócil que conseguia ganhar as corridas, mesmo a quem tinha mais 5 anos que ela, foi-se tornando uma rapariga linda, empenhada em ajudar nas tarefas domésticas e na criação dos irmãos. Terceira filha dum casal que gerou oito, cedo a adolescente se tornou mulher, assumindo as responsabilidades caseiras e familiares com uma naturalidade que só ela conseguia. Os três benjamins são, em grande parte, produto dos seus cuidados e razão do abandono mais que precoce dos interesses escolares.
Ironia da vida, a Patrícia acaba por integrar a estatística das mães adolescentes, tão típica deste país, ela que apregoava não querer ter de cuidar de meninos tão depressa.
Quem a vê, não descortina a imagem da minha lembrança: a de uma menina tão linda que o olhar se detém sempre a apreciar o rosto harmonioso, moldado por um cabelo bonito, escuro e liso, invariavelmente comprido, olhos amendoados, lábios sorridentes vizinhos dum nariz suave, bem desenhado.
Quem a vê, se não a conhece, não vê aquela não Amélia, mas Patrícia "dos olhos doces, quem dera que fosses apenas mulher", como eu vejo. Como eu gostaria que fosse apenas mulher, e não a jovem cuja vida se apressou em correr mais depressa que ela própria quando pequenita. A mãe de três filhos, com um quarto bebé em desenvolvimento, numa gestação paralela à morte do pai. Uma gravidez casada com um rendimento mínimo. Desemprego é o termo mais generalizado na família: além da própria Patrícia, aplica-se à maioria dos sete irmãos, aos próprios pais.
Viúva em vésperas da terceira década de vida.
Basta repararmos na vida desta miúda para constatarmos o que, de tão evidente, não costuma ocorrer-nos: que é tão fácil ser-se feliz...
Acredito que nem tudo na vida é consequência das nossas opções.
E acredito que, um dia, as feridas da Patrícia serão cicatrizes cuja dor foi tratada pelo amor dos seus quatro filhos. Acredito ainda que, daqui por uns tempos, em vez da Amélia, do Carlos Mendes, a minha sobrinha me faça recordar a Mãe-coragem, do Brecht.
(A Patrícia, não obstante ser da minha faixa etária, é minha sobrinha. Recordo-a em todos aqueles pormenores da infância que fazem com que ela seja, como as suas irmãs, uma miúda, mesmo após décadas decorridas sobre a meninice: as preferências culinárias, os hábitos na hora de ir dormir, as brincadeiras.
Não pude publicar este post na data do seu aniversário, mas o testemunho sobre a sua vida não se sujeita a calendários...).
01 setembro 2007
29 agosto 2007
- "Mãe, o céu está lá para nós o vermos, não é?"
(nova "tirada" do pequeno poeta, no dia 24 de Agosto).
(nova "tirada" do pequeno poeta, no dia 24 de Agosto).
25 agosto 2007
Meu amor:
Vens ter comigo quando sentes o meu olhar baixar e envolves-me com os braços e com palavras. Repetes a candura do companheirismo, o olhar de confiança, a faísca do toque. Somos cúmplices nas preocupações e nos projectos, siameses unidos pelo coração.
Temos saudades de tudo o que ainda não fizemos juntos.
Dormimos como vivemos: unidos. E acordamos quentes.
Se fosses mais que um sonho, eu seria feliz.
Vens ter comigo quando sentes o meu olhar baixar e envolves-me com os braços e com palavras. Repetes a candura do companheirismo, o olhar de confiança, a faísca do toque. Somos cúmplices nas preocupações e nos projectos, siameses unidos pelo coração.
Temos saudades de tudo o que ainda não fizemos juntos.
Dormimos como vivemos: unidos. E acordamos quentes.
Se fosses mais que um sonho, eu seria feliz.
24 agosto 2007
Não gosto de mensagens publicadas nos blogs a anunciar uma pausa para férias. Curioso!... Desta vez sou eu que anuncio. Não uma pausa para férias. Antes fosse...
Muito tinha eu para aqui vos deixar, se o momento fosse oportuno. As belas tiradas, fruto de insónias recentes, estão a salvo algures. Leitores, amigos: estou cansada, o sono oprime-me. Mas prometo que o silêncio será sempre tão breve quanto estiver ao meu alcance um computador.
Muito tinha eu para aqui vos deixar, se o momento fosse oportuno. As belas tiradas, fruto de insónias recentes, estão a salvo algures. Leitores, amigos: estou cansada, o sono oprime-me. Mas prometo que o silêncio será sempre tão breve quanto estiver ao meu alcance um computador.
21 agosto 2007
Hora de balanço

Mais um ano cumprido. Este, comprido.
A metade radiosa da minha vida, a estrear, pelezinha suave e sorriso reluzente, já era. Terei de contrariar a tendência se quiser que a segunda metade não seja muito reflexo de declínio, sobretudo moral.
No meu balanço, recordo que já plantei uma árvore, pari dois filhos e não escrevi nenhum livro. O balanço não deu superavit; só o dará quando as metas forem superadas.
Lembro-me do que a vida me ensinou de mais importante:
1- que perdemos uns amores e ganhamos outros, mas acumulamos todos; os que se perderam, seja por que circunstâncias for, também ficam gravados em nós.
2- que a discriminação existe, sobretudo no que toca ao género.
3- que quem nos ama pode proceder, por vezes, da pior forma para connosco, mesmo os nossos pais.
4- que, aos 35, o sonho pode ser exactamente o mesmo que aos 15.
5- que quando sofremos deveras é quando sofremos sozinhos. E todo o sofrimento tem uma componente de solidão. E a verdadeira dor é a que nos acompanha diariamente, camuflada.
6- que a maior cumplicidade que já pude experimentar é a de recém-mãe, na primeira noite passada na companhia dum recém-nascido.
7- que quem vive preocupado com o que os outros vão pensar é, justamente, quem mais julga os semelhantes.
8- que o autêntico deslubramento provém dos filhos ou da Natureza.
9- que, por vezes, é mais fácil desabafar com quem não conhecemos bem.
10- que a ruína dum investimento económico nos desequilibra menos que um investimento emocional defraudado.
A metade radiosa da minha vida, a estrear, pelezinha suave e sorriso reluzente, já era. Terei de contrariar a tendência se quiser que a segunda metade não seja muito reflexo de declínio, sobretudo moral.
No meu balanço, recordo que já plantei uma árvore, pari dois filhos e não escrevi nenhum livro. O balanço não deu superavit; só o dará quando as metas forem superadas.
Lembro-me do que a vida me ensinou de mais importante:
1- que perdemos uns amores e ganhamos outros, mas acumulamos todos; os que se perderam, seja por que circunstâncias for, também ficam gravados em nós.
2- que a discriminação existe, sobretudo no que toca ao género.
3- que quem nos ama pode proceder, por vezes, da pior forma para connosco, mesmo os nossos pais.
4- que, aos 35, o sonho pode ser exactamente o mesmo que aos 15.
5- que quando sofremos deveras é quando sofremos sozinhos. E todo o sofrimento tem uma componente de solidão. E a verdadeira dor é a que nos acompanha diariamente, camuflada.
6- que a maior cumplicidade que já pude experimentar é a de recém-mãe, na primeira noite passada na companhia dum recém-nascido.
7- que quem vive preocupado com o que os outros vão pensar é, justamente, quem mais julga os semelhantes.
8- que o autêntico deslubramento provém dos filhos ou da Natureza.
9- que, por vezes, é mais fácil desabafar com quem não conhecemos bem.
10- que a ruína dum investimento económico nos desequilibra menos que um investimento emocional defraudado.
20 agosto 2007
O meu pequeno poeta brilhante
Eu, para o meu filho, quando ele se saíu com mais uma das dezenas de patetices diárias:
- Sabes que mais? És um chato!
O meu filho para mim, com um sorriso malandro:
- E tu és uma luz... que brilha!
Pedi-lhe, com ar surpreso, que repetisse o que acabara de dizer. Ele, meio espantado, repetiu, com aquele ar de quem finge vergonha:
- És uma luz, que brilha! (dito com o tom infantil dos quatro anos que ainda não sabem pronunciar os "r").
Eureka! A minha cara encheu-se num sorriso aberto, como só os apaixonados ou as mães ou pais babados conseguem ostentar.
Qual desemprego, qual mágoa, qual abatimento, qual preocupação... Xô!
- Sabes que mais? És um chato!
O meu filho para mim, com um sorriso malandro:
- E tu és uma luz... que brilha!
Pedi-lhe, com ar surpreso, que repetisse o que acabara de dizer. Ele, meio espantado, repetiu, com aquele ar de quem finge vergonha:
- És uma luz, que brilha! (dito com o tom infantil dos quatro anos que ainda não sabem pronunciar os "r").
Eureka! A minha cara encheu-se num sorriso aberto, como só os apaixonados ou as mães ou pais babados conseguem ostentar.
Qual desemprego, qual mágoa, qual abatimento, qual preocupação... Xô!
As viagens do Tiago
Já acabei de ler o livro do Tiago. E preparava-me para escrever aqui mais um enooooooorme texto, como quando o comprei.
Mas, desta vez, não; a folha onde anotei os tópicos e respectivas páginas resolveu partir, também ela, em viagem, como o viajante Salazar.
Quando a reencontrar, lançar-me-ei em considerações mais alongadas sobre os momentos poéticos, as divagações pela História, os apelos papilares e todos os pormenores da escrita do andarilho.
Por hoje, fico pelo último texto, consagrado a essa Florença que ainda não conheço.
Seja pelo modo arrebatado como é descrita, seja pelo entrelaçar de mindinhos ou pelo brinde com discurso que o Tiago herdou do meu pai, seja pelo que for, chorei. Ou então sou eu, a eu dos últimos dias...
Continua, Tiago. Parabéns!
Mas, desta vez, não; a folha onde anotei os tópicos e respectivas páginas resolveu partir, também ela, em viagem, como o viajante Salazar.
Quando a reencontrar, lançar-me-ei em considerações mais alongadas sobre os momentos poéticos, as divagações pela História, os apelos papilares e todos os pormenores da escrita do andarilho.
Por hoje, fico pelo último texto, consagrado a essa Florença que ainda não conheço.
Seja pelo modo arrebatado como é descrita, seja pelo entrelaçar de mindinhos ou pelo brinde com discurso que o Tiago herdou do meu pai, seja pelo que for, chorei. Ou então sou eu, a eu dos últimos dias...
Continua, Tiago. Parabéns!
19 agosto 2007
10 agosto 2007
Ao Pedro, d'A Qualidade do Silêncio

Ontem, à hora de me deitar, sentia que necessitava de uma leitura que me favorecesse um sono tranquilo. Pensei, pensei e, a princípio, nenhuma das ideias que me ocorriam me parecia a escolha certa. Até que me lembrei de levar para a cama o Pedro. De papel, bem entendido. Assim como quem se lembra de levar para a alcova a Isabel Allende ou o Lobo Antunes. Dirigi-me à estante, onde o Neves vem a seguir ao Namora, e fui namorar as palavras de papel onde o espelho, espelho do Pedro me acompanhava.
Percorri, num relance lento, pausado e saboreado, o coração, "muito mais que a sombra do corpo". A pele, "com o fulgor das supernovas deflagrando ao primeiro sinal de fogo". O olhar, "isento do lume desses dias". As mãos ("choro amordaçado de uma dor") no peito, "essa enseada de calor brando" (...) "onde vinhas esconder-te". Os dedos "tardam a reaprender os lugares da pele". A temperatura "era o desejo", as veias "respiram a lembrança do fluir". O sangue onde "se decidiam os gestos e as carícias", a boca, que falava com o coração.
Porque a poesia é para ser interpretada pela sensibilidade de cada um, e porque eu gosto do Pedro, retirei da sua poesia as réstias de amargura e nostalgia e sublinhei a vertente mais ténue, a da sensualidade.
Sugiro que cada um leia "Chiasco", munido da sua própria sensibilidade, já que eu aqui apenas deixei uma sequência saltitante de ideias, deixando o tesouro do sentido destes fragmentos à descoberta de cada apreciador de letras.
Assim, talvez não seja só eu a apelar ao Pedro para que, quando for "para a noite como um louco a atirar pedras à lua para que se apague", avise. É que a ideia, surgida num breve relance, parece-me um desafio divertidíssimo...
07 agosto 2007
A história anda a rondar-me. Sorrateira, insinua-se lenta mas decididamente.
Entusiasma-me, incomoda-me, faz-me perder o sono (se alguém o encontrar, por favor, devolva-o a esta dona, que promete não lhe impingir grande sermão).
A história é longa e é antiga. Misteriosa. Muito apaixonante.
Persegue-me.
Faz-me empenhar horas e horas em pesquisas, inúmeras perguntas.
Eu respeito-a. Sei que já conquistou este espaço. Tem, portanto, o direito de caminhar ao meu lado, agora, sempre. É como que a minha sombra.
Sei que ela não sairá jamais da minha tangente sem que eu a liberte.
Só posso libertá-la expondo-a. E quero fazê-lo. Mas há algo em mim que a contempla, a idealiza, num platonismo infindo. É o meu namoro.
Pois. Ensandeci! Agora namoro fantasmas...
Como explicar que há empresas grandes demais para se encetarem sem muita maturação? Requerem dedicação, aprofundamento, uma intimidade total. O envolvimento inicial é apenas o começo. Não da história; talvez do prólogo.
Nada de pressas, portanto. O casamento poderá dar-se ao fim de anos. Mas quero que seja um casamento feliz.
Vou respeitar as datas, viver os locais, ser fiel aos personagens. Será respeitada a privacidade e o anonimato. E, por não ser historiadora, a fantasia também terá alguma margem de acção neste romance.
Ele está sempre aqui, ao meu lado. Mas, por enquanto, só eu o vejo...
Entusiasma-me, incomoda-me, faz-me perder o sono (se alguém o encontrar, por favor, devolva-o a esta dona, que promete não lhe impingir grande sermão).
A história é longa e é antiga. Misteriosa. Muito apaixonante.
Persegue-me.
Faz-me empenhar horas e horas em pesquisas, inúmeras perguntas.
Eu respeito-a. Sei que já conquistou este espaço. Tem, portanto, o direito de caminhar ao meu lado, agora, sempre. É como que a minha sombra.
Sei que ela não sairá jamais da minha tangente sem que eu a liberte.
Só posso libertá-la expondo-a. E quero fazê-lo. Mas há algo em mim que a contempla, a idealiza, num platonismo infindo. É o meu namoro.
Pois. Ensandeci! Agora namoro fantasmas...
Como explicar que há empresas grandes demais para se encetarem sem muita maturação? Requerem dedicação, aprofundamento, uma intimidade total. O envolvimento inicial é apenas o começo. Não da história; talvez do prólogo.
Nada de pressas, portanto. O casamento poderá dar-se ao fim de anos. Mas quero que seja um casamento feliz.
Vou respeitar as datas, viver os locais, ser fiel aos personagens. Será respeitada a privacidade e o anonimato. E, por não ser historiadora, a fantasia também terá alguma margem de acção neste romance.
Ele está sempre aqui, ao meu lado. Mas, por enquanto, só eu o vejo...
29 julho 2007
Homenagem

O desenho não é meu. Mas não pensem que vou alimentar o meu blog com desenhos ou textos da autoria de outros; para isso, publicava letras de músicas, extractos de livros, poemas ou ilustrações que me inspirassem e citava as fontes. Não, a ideia não é essa. Não só porque os autores que me deleitam não precisam da publicidade que eu pudesse fazer-lhes, mas também porque não foi essa a minha intenção ao criar este blog. Hoje, fica esta Lisboa, cidade onde nasci, em jeito de homenagem. Homenagem a quem fez este desenho e que descansa, para nunca mais se cansar, lá longe. A muitos milhares de quilómetros. Lá, onde a minha cabeça tem andado nos últimos tempos...
26 julho 2007
"Ganda" Dulce!

A Dulce é uma doce pessoa. Olhos azuis vivaços e sorridentes, alma de poeta e idade de muito saber e de muito querer aprender: os oitenta já lá vão, há muito...
A contrariar a tendência da educação das meninas do seu tempo, sobretudo as oriundas de meios mais rústicos, desbravou livros como desbravou as planícies alentejanas, onde viveu os primeiros anos da sua vida. Os estudos não puderam ir tão longe como a imaginação, mas a inspiração jorra do sorriso caloroso com que brinda os amigos.
Se já me deliciava a ouvir os seus contos, os poemas em que enaltece o Alentejo do seu coração, pude agora -mais recentemente, diga-se- deleitar-me com três lances de verdadeira vencedora acerca da Dulce, a quem conheço "por afinidade", já que é amiga da minha mãe e da minha tia (sendo minha amiga também, como faço questão).
Ora, estes factos novos são: primeiro, o desafio que fez às mentalidades bolorentas das suas origens geográficas, "juntando os trapinhos" com um senhor, agora que, naquelas paragens, se julga que a idade já não é para isso. Revolucionária!
(Aplaudo!)
Em segundo lugar, o tê-lo feito com um homem mais novo -esperta, a "mocinha"!...
(Aplaudo de pé.)
Terceiro lance: está, uma destas noites, ao telefone com a minha mãe, a conversa a meio, e interrompe subitamente: "Olha, o Allen Gomes a falar de sexologia" (julgo que na televisão). E acrescenta, logo de imediato: "Depois falamos mais, noutra altura, está bem? Gostava de o ouvir."
(Aplaudo e incito: "bis").
Por fim, de enaltecer a iniciativa dos filhos do senhor que é, agora, o feliz marido: não é que ofereceram ao casal um computador, para que a doce Dulce se inicie nas lides informáticas, como ela tanto desejava, e passe a escrever como verdadeira revolucionária tecnológica?
Aguardamos o próximo livro, parido na era DPI (Dulce pós-informatização).
A contrariar a tendência da educação das meninas do seu tempo, sobretudo as oriundas de meios mais rústicos, desbravou livros como desbravou as planícies alentejanas, onde viveu os primeiros anos da sua vida. Os estudos não puderam ir tão longe como a imaginação, mas a inspiração jorra do sorriso caloroso com que brinda os amigos.
Se já me deliciava a ouvir os seus contos, os poemas em que enaltece o Alentejo do seu coração, pude agora -mais recentemente, diga-se- deleitar-me com três lances de verdadeira vencedora acerca da Dulce, a quem conheço "por afinidade", já que é amiga da minha mãe e da minha tia (sendo minha amiga também, como faço questão).
Ora, estes factos novos são: primeiro, o desafio que fez às mentalidades bolorentas das suas origens geográficas, "juntando os trapinhos" com um senhor, agora que, naquelas paragens, se julga que a idade já não é para isso. Revolucionária!
(Aplaudo!)
Em segundo lugar, o tê-lo feito com um homem mais novo -esperta, a "mocinha"!...
(Aplaudo de pé.)
Terceiro lance: está, uma destas noites, ao telefone com a minha mãe, a conversa a meio, e interrompe subitamente: "Olha, o Allen Gomes a falar de sexologia" (julgo que na televisão). E acrescenta, logo de imediato: "Depois falamos mais, noutra altura, está bem? Gostava de o ouvir."
(Aplaudo e incito: "bis").
Por fim, de enaltecer a iniciativa dos filhos do senhor que é, agora, o feliz marido: não é que ofereceram ao casal um computador, para que a doce Dulce se inicie nas lides informáticas, como ela tanto desejava, e passe a escrever como verdadeira revolucionária tecnológica?
Aguardamos o próximo livro, parido na era DPI (Dulce pós-informatização).
19 julho 2007
Hoje, 43 anos decorridos sobre a tua morte, chegas junto de mim, trazendo-me uma história.
Chegas por cartas, histórias e filmes. Chegas em novas fotografias e em questões recentes.
E eu descubro um um profissional, um aventureiro apaixonado pela vida, que parte para Angola deixando cá as suas âncoras.
Sais em busca de melhores condições e descobres um mundo inimaginável, do qual não mais te separas.
Angola, em 1948, é capim e trilho no mato, mas é também piscina, cinema e condições médicas superiores, nesse ambiente à parte, que era o da Diamang.
Animais assustadores, nativos desconhecidos, distâncias incalculáveis. que depressa se convertem em animais apaixonantes, colaboradores dedicados e percursos aparentemente curtos.
Apesar de teres ido para onde ninguém conhecido te esperava, nunca te lamentas, antes te entusiasmas.
Não há desgosto que te arrase, nem leão que te amedronte. As intrigas não te derrubam; tu és coragem e determinação. És sensibilidade e fortaleza, subordinado e chefe.
Pões a minha imaginação a mil, fazendo desfilar navios, trilhos, caçadas,trovoadas e mosquitos, colegas, festas, diamantes, feras e paludismo, num caleidoscópio que é passaporte para a tua realidade.
E és escritor e cineasta, amor e desamor, prosperidade e privação.
A telefonia, a câmara de filmar e a máquina fotográfica são tradução dum trabalho duro mas envolvente, duma experiência de vida que acabará por ser, também, de morte.
Aventura, descoberta, saudade, paixão, amizade, diamantes, Natureza, calor, paisagens deslumbrantes, África, tragédia. Tudo isto és tu, numa história que agora me contas e que eu ouço estarrecida, expectante e absolutamente maravilhada.
Uma história que eu prometo contar, um dia.
12 julho 2007
09 julho 2007
Eu sou um quadro, uma tela com um corvo que a avó fez.
Ela disse ao menino que costuma vir cá a casa que me vai oferecer a ele. Mas eu espero que ela se esqueça do que prometeu; vivi sempre aqui, nesta salinha acolhedora, rodeado de outros quadros, caixas e caixinhas, jarras e pratos que a avó faz nos serões.
Fazemos companhia uns aos outros, a sala é linda porque nós lhe transmitimos cor e eu gosto deste ambiente calmo.
Quando o menino chega, há sempre mais movimento e mais barulho. Eu até não me importo, mas não me apetece nada separar-me dos meus amigos e dos meus irmãos, que são quadros da mesma colecção. Damos inspiração à avó quando ela precisa de escolher que trabalho há-de fazer e ajudamo-la na escolha das cores. Depois, quando ela vai deitar-se, ainda comentamos, baixinho, uns com os outros, a habilidade que ela tem para estas artes.
A campaínha da porta toca. Quem será?
Olha, é o neto. A mãe trouxe-o para passar a noite com a avó.
Vem eufórico. Salta para a cama da avó e, ainda não acabou de contar a sua brincadeira com um amigo, já está a pedir "qualquer coisa para comer". A avó faz-lhe a vontade, como habitualmente.
A seguir, encaminham-se para a salinha que habito com os meus irmãos e mostra-nos ao menino: "Vês como ficaram os quadros que fiz para ti? Gostas?". Sinto-me vaidoso, pois os olhos do petiz sorriem, num brilho contagiante.
Mas logo entristeço, quando a senhora continua "Amanhã já podes levá-los para a tua casa".
Não, deixa-me ficar, não quero ir embora daqui, insisto, numa voz surda para a nossa criadora.
O menino continua a mirar-nos, encantado, enquanto eu, derrotado, lamento não poder decidir o meu destino.
Porém, a surpresa chega quando a avó começa por envolver um dos meus manos num plástico, daqueles com bolinhas, que miúdos e graúdos tanto gostam de fazer estalar. De seguida, faz o mesmo comigo; depois, é a vez dos restantes irmãos.
Na companhia deles já me sentirei menos perdido, mas como será viver noutra casa?
Pensamentos como este preenchem a minha última noite na casa da minha criadora, aconchegado juntinho aos meus manos, todos dentro do mesmo saco.
Começa um novo dia. O rapazinho, sentindo-se já nosso dono, pega, orgulhoso, no saco para o levar para a sua casa. E lá vamos nós, que nunca antes tínhamos saído de casa, no carro do pai do menino, até à nova morada.
Aqui, a surpresa foi total. E muito agradável: esperava-nos uma parede inteira, onde nos colocaram todos juntos uns aos outros para poderem apreciar a nossa beleza.
À medida que a família e os amigos vêem a nova decoração deste quarto de criança, recebemos mais e mais elogios. Ficamos todos vaidosos!
Cada vez gosto mais da minha nova casa. É bom acompanhar as brincadeiras do meu novo dono e do seu irmãozinho. Muitas cores e cantiguinhas nos embalam nesta nova vida.
E o melhor de tudo é que ganhámos toda esta animação sem perdermos de vista a nossa criadora: a avó vem cá muitas vezes brincar com os netos, e deita-nos sempre um olhar carinhoso...
07 julho 2007
Viagens Sentimentais

"Tudo em que o Tiago toca se transforma em escrita. Umas vezes é mais reportagem, outras vezes é mais literatura de viagens. Umas vezes é mais lírico, umas vezes ensaísta e quase historiador, outras épico, outras picaresco. Às vezes as saudades apertam e ele torna-se mero mortal apaixonado".
Assim se refere Luisa Costa Gomes ao Tiago, no prefácio de Viagens Sentimentais.
Na nota introdutória, o próprio Tiago serve um aperitivo delicioso: "Às vezes, quando faz sol cá dentro, considero-me uma espécie de homem ilustrado, tantas as aventuras (poucas as desventuras), tantos os encontros (e desencontros), tantos os anjos (e anjas)-da-guarda". (...)
"De resto, traz-me aqui, aos livros, uma vontade compulsiva de contar histórias, a mesma que me fez querer ser jornalista e andarilho- o ofício a que ninguém reconhece seriedade.
Desapertem os cintos e boas viagens".
Sobre o autor, digo eu que é um vagabundo das palavras, em busca do seu eu pelo mundo. Pôs em prática a paixão pelas viagens, delas fazendo o seu ofício. Em troca da grande maturidade que alcançou, tem pago o preço mais elevado que alguém pode pagar: acompanha o crescimento da filha ao ritmo que a profissão impõe e hipoteca o grande amor a quem, numa das viagens sentimentais, consagra palavras saídas directamente do coração, per sempre...
Se há alguém cujas experiências são dignas de serem publicadas, é ele. Se há escrita sentida e apaixonada, é a dele.
A todos os que amam os livros, apreciam viajar ou, como eu, anseiam por um período -nem que seja único na vida- de completa aventura, ao encontro de outras gentes e costumes, sem conforto, nem horários à ocidental, nem preconceitos, eu apelo à leitura desta obra.
A delícia proporcionada na evasão relatada é fiel e habilmente servida pela narrativa atenta, ritmada e conhecedora, de quem se aventurou com João Garcia numa escalada no Nepal, "coisa de manicómio ou de masoquista", de alguém que interiorizou as regras mongóis para montar uma tenda, que percorreu todo o trilho do Transiberiano e que é a mesma pessoa que inventa uma história para explicar à filha o que é o amor.
As eternas referências literárias (eternas porque são ao mesmo ao estilo do Tiago) e as fotografias, escolhidas a preceito, concorrem para a excelência deste testemunho.
Os agradecimentos, no final do livro, aos indígenas -sobre os quais diz "Não foram apenas passageiros. Fizeram a fortuna das viagens." -constituem um digestivo saboreável em qualquer momento e sempre memorável, pela riqueza espiritual de cada uma destas personagens reais.
Este post pretende apenas publicitar uma obra imperdível. Não é ainda a apreciação final sobre a mesma. Essa está na forja para daqui a uns dias. Porque o Tiago já me enviara o texto completo do livro, mas não escravizei a impressora com palavras não palpáveis. Preferi aguardar, para poder saborear o cheiro saído das páginas impressas dum livro novo, as imagens inspiradoras e o o relevo dum título rico em conteúdo. Como o Tiago e os que melhor me conhecem sabem, o prazer da leitura é, para mim, um prazer global, estimulante dos sentidos.
Para outra oportunidade ficará também o lançamento da obra-prima ("prima" no sentido de "primeira", entenda-se, pois estou certa que esta terá um dia irmãs de qualidade idêntica ou superior).
06 julho 2007
Não basta estarmos vivos; é preciso que nos sintamos vivos...
05 julho 2007
A Fórmula de Deus
Posso passar sem muita coisa, mas nunca sem livros. Ando sempre a namorar algum. Todos me fazem companhia, tornando-se meus amigos por uns dias, alguns dão-me mais prazer que outros, quase todos têm algo a ensinar-me, chegando alguns a marcar-me, mesmo.
Não duvido que A Fórmula de Deus será um dos livros da minha vida.
Por demonstrar como a nossa ignorância sobre o sistema que nos rodeia é directamente proporcional à dimensão deste sistema.
Por nos conduzir através da ligação entre a consciência, a biologia, a a química, a física e a matemática.
Por nos explicar as teorias acerca do início e do fim do nosso Universo e da possibilidade de existência de outros.
Por fazer aumentar a minha curiosidade (nascida em livros sobre o Cosmos, como a Breve História do Tempo) a respeito de temas tão importantes como as questões fundamentais da física, da cosmologia e da matemática.
Por mostrar como a pequenez anda a par do infinitamente enorme, como a lógica matemática nos cerca nas constantes do Universo, como a consciência é inevitabilidade eterna e as leis do Universo são omnipresentes, omnipotentes e omniscientes, sendo ainda eternas e absolutas.
Por ter a habilidade de apurar o nosso apetite literário dando-nos a saborear, no meio de um enredo lógico-científico, uma cena sensual deliciosa.
Sem nunca se desviar do tema central do romance, José Rodrigues dos Santos presenteia-nos com estes pontuais fragmentos erotizados que vêm conferir maior interesse e realismo ao enredo já tão envolvente. Tudo com um fabuloso pano de fundo, com estimulantes do apetite tão carismáticos como Albert Einstein e tão míticos e atractivos como o Tibete.
Tal como em A Filha do Capitão ou no Códex 632, a leitura de J.R.S. aprisiona-me; voluntariamente, claro. Não consigo desprender-me das personagens, da narrativa, dos ambientes retratados pormenorizadamente. Viajo (eu, que tanto adoro viajar, mas que não tenho tido condições para tal ultimamente) nestas histórias saboreando a aprendizagem que só os livros paridos duma intensa entrega e paixão nos conseguem transmitir.
É o querer chegar ao fim de uma obra sem querer terminar o prazer da sua leitura.
A Fórmula de Deus "apanhou-me" numa fase (mais uma...) de incerteza, angústia e, sem exagero, sofrimento. Uma daquelas fases da vida em que tudo é medido, repensado, analisado, em busca do sentido que a vida encerra. O mesmo sucedeu com o Códex 632, numa fase anterior.
Não obstante estas coincidências, irei sempre associá-los a umas horas muito positivas do meu percurso de leitora ávida.
Da leitura da Fórmula, fica-me o reforço da convicção de que somos menos que quase nada neste Universo. Mas temos a responsabilidade de aproveitar as inúmeras afinações das condições que favoreceram não só a produção de vida, como também a própria existência da nossa espécie e da sua capacidade racional.
Acredite-se ou não na tese deste romance, diria que é de leitura obrigatória, se a palavra "obrigatória" não tivesse uma conotação desagradável. Opto, então, pelo termo "recomendável". Muito recomendável.
Sem quere ser reducionista, parece-me razoável inferir que o conhecimento é o melhor objectivo que nos podemos propor e que os afectos são a nossa melhor bússola.
Mas é possível que só a minha experiência aponte para esta conclusão. Resta a cada um ler, e daí retirar a sua própria.
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