15 abril 2015

Há três anos, o lançamento do meu livro, "Antes de Sermos Dia"


Da esquerda para a direita: mãe da autora; o poeta José Fanha, autor do prefácio, a quem coube apresentar a obra; editor Paulo Afonso Ramos; o cantor Rogério Charraz; a autora


O auditório do Campo Grande, antes de esgotar a capacidade de lugares sentados


 José Fanha, Sofia Barros e Paulo Afonso Ramos


A mesa com os protagonistas da apresentação


José Fanha e o porquê dos poetas escreverem


Deana Barroqueiro, que leu um dos poemas e lançou o debate sobre as 
diferenças entre a poesia no feminino e no masculino


 O poeta leu alguns dos poemas de "Antes de Sermos Dia"


 Rogério Charraz musicou e interpretou "Campo Lavrado", um dos poemas. 
Que agora faz parte do seu novo CD, "A Chave"


O agradecimento emocionado da autora


As âncoras emocionais nas primeiras filas


José Luís Outono leu "Todo o tempo é pouco"


 Uma tarde de sorrisos


Há momentos em que as palavras não bastam


A emoção, escrita a quente


O encontro de amigos. Uma tarde de magia.

09 abril 2015



O cenário: um gabinete de ortodontia.
As personagens: uma médica, uma mãe e dois filhos.
Uma conversa que começou sorridente e terminou às gargalhadas.
“Tens um dente a mais” – a ortodontista diagnosticou imediatamente o que se passa na boca do pré-adolescente . Resposta pronta da mãe: “Uns com tanto, outros com tão pouco!”
Um enredo semelhante ao da semana passada, na consulta de estomatologia.
Não há instrumentos que demovam o humor destas crianças ou ameacem os seus bichinhos carpinteiros. Quase não se consegue ter um diálogo com rumo e objectividade. As frases sempre interrompidas pelas perguntas da lourinha, que manuseia pinças, seringas e utensílios de nome desconhecido como se de brinquedos se tratasse.
Médica e mãe concluem que não há cabeça infalível. As agendas em papel guardam as anotações, mas é preciso que se olhe para elas.
Após a definição da estratégia para a dentição do miúdo, saímos, ainda rindo com a sugestão da mãe, que lhe sugeria que desse um dente à avó.

28 março 2015

Maria Rapaz

Maria Rapaz. Era assim que chamavam as meninas que trepavam às árvores, jogavam à bola ou assobiavam.
A tia Beatriz era a Maria Rapaz da família porque, na idade das tropelias, apanhava cobras do rio e levava-as para casa. Assobiando, pois claro!
Quando a minha filha começou a romper joelhos das calças com o mesmo afinco e regularidade com que o irmão costumava fazê-lo, a tia passou a chamar-lhe Maria Rapaz.
Já não tenho a minha tia para coser calças.
Fazia-o com a perfeição alcançada por um enorme gosto e muitos anos de prática de antiga professora de corte, costura e bordados.
Abria as costuras laterais da sarja e, com a ajuda de uma máquina que permitia o ziguezague, cerzia com cuidado onde as crianças haviam cortado a direito, muito tortamente. O trabalho era tão cuidadoso que nem se notava, por vezes, onde tinha havido um rasgão.
Agora, faz-me companhia no pensamento. Recordo a sua habilidade enquanto me esforço por deixar apresentáveis os joelhos das calças da Mafalda, com os pontos mal azambrados (como a tia diria) de quem cose à mão, sem jeito nem gosto.

19 março 2015

Dia do Pai


No Dia do Pai, porque seria tão bom que todos os pais fossem como uma casa onde os filhos regressam sempre...
A CASA
Sei dos filhos
pelo modo como ocupam a casa:
uns buscam os recantos,
outros existem à janela.
A uns satisfaz uma sombra,
a outros nem o mundo basta.
Uns batem com a porta,
outros hesitam como se não houvesse saída.
Raras vezes sou pai.
Sou sempre todos os meus filhos,
sou a mão indecisa no fecho,
sou a noite passada entre relógio e escuro.
Em mim ecoa a voz
que, à entrada, se anuncia: cheguei!
E eu sorrio, de resposta: chegou?
Mas se nunca ninguém partiu…
E tanto em mim
demoram as esperas
que me fui trocando por soalho
e me converti em sonolenta janela.
Agora, eu mesmo sou a casa,
casa infatigável casa
a que meus filhos
eternamente regressam.

Mia Couto

08 março 2015

NO DIA DA MULHER * autora Sofia Barros - diz Luiz Vinagre



Hoje faz 13 anos que soube que a minha vida ficaria mais completa. Foi quando soube que esperava o primeiro filho.
Será sempre um dia especial.
Para assinalá-lo, partilho as minhas palavras sobre o Dia da Mulher, na voz de Luiz Vinagre.


04 março 2015


Podíamos ter ficado na pré-história.
Preferimos arriscar. Fizemos a nossa história.
Repentinámos o apelo, que sabia esperar.
Não soube mais.

09 fevereiro 2015


O que mais recordo de S. Pedro, da minha infância, é a banca de jornais que ladeava a estação de comboios. 
Lembro-me ainda da mercearia, da padaria, que chegou a funcionar - por pouco tempo - numa roulotte; do barbeiro; do engraxador e das Galerias S. Pedro (uma simples loja de pronto-a-vestir, à saída da praceta onde morávamos), cujo cão que me fazia companhia enquanto eu esperava a carrinha do colégio. E duma papelaria que passava despercebida, ao fundo da rua. Mas já estou a desviar-me do início: a barraquinha de jornais junto à gare.
Eu superava a pequenez dos meus seis anos, apoiando um pé no rebordo do quiosque, guindando-me à altura do balcão, onde os dedos se fincavam, permitindo-me assistir à conversa. Se o murinho era azul ou a minha imaginação o pintou de tal cor, já não sei. Mas a minha mãe tende a concordar.
Gostava de ter uma fotografia dessa banca, coberta por chapa de zinco, ondulada. 
O jornaleiro era o Sr Porfírio. Dele, tenho uma vaga ideia. Embora, como em relação ao quiosque, já não saiba onde termina a lembrança e se funde com a fantasia. Ali se vendia também tabaco. Eu ia, aos sábados, com o meu pai, comprar os jornais e os cigarros. Por vezes, a cautela da lotaria. Uma fracção, a ver se a sorte se enganava. A conversa era rápida, entre cliente e vendedor. Usavam os respectivos nomes enquanto comentavam as notícias. 
O meu pai era homem de hábitos regulares. Horários repetidos, sem desvio no costume dos calendários. Vivia perto da estação. Saía para o comboio, quase sempre, em passo de corrida, ao som do trrim-trrim da passagem-de-nível. Dizia, com agrado, que era o seu exercício matinal. Regressava de Lisboa sempre no mesmo horário. As tardes repetiam-se, como os movimentos do relógio.
Até que um dia. Ou melhor: uma tarde.
O Sr Porfírio adiantou-se. Largou o seu posto de vigia. Foi esperar o Sr Barros à plataforma.
De expressão iluminada, não tardou nas felicitações, convencido do motivo da comemoração. Sem entender o porquê da inusitada alegria, o meu pai lá foi ouvindo. O jornaleiro contando. Ambos estranhando, já.
Pousada a precipitação, detalhados os pormenores numéricos, o palavreado terminou com ambos esclarecidos. Concluíram que a sorte continuava certa. Isto é, distante. Quem se enganara fora o Sr Porfírio. 
O número que vendeu ao meu pai, ao contrário do que estava convencido não era o premiado.

02 fevereiro 2015

Alzheimer


Terminei a leitura do livro que serviu de base ao argumento para o filme que estreia esta semana, sobre uma professora a quem, aos 50 anos, é dito que sofre de Alzheimer.
O livro é duro? Nada, quando comparado com a realidade.
Ficamos com uma leve ideia do que será o declínio.
Não assistimos aos acessos de agressividade. Ao isolamento a que o doente e a família são condenados. Não sofremos ao ver alguém que amamos enfiar uma mão num tacho com água ao lume ou numa tomada. Não presenciamos as quedas, o uso de fraldas, os conflitos familiares que desencadeia.
Não tanta coisa…
Ainda assim, aconselho.
Sobretudo para quem ainda tem a desfaçatez de fazer piadas acerca de Alzheimer. Não é uma amnésia. Não é “só” desorientação, perda da capacidade de cálculo. É tudo. São infecções respiratórias recorrentes, seguidas de infecções urinárias. É descoordenação motora, incapacidade para se alimentar ou beber, uma total ausência da realidade, presente ou passada.
É a falta de respeito de quem desconhece. É a morte antes da morte.
Não há por que lutar.
Porque, quando alguém que amamos tem Alzheimer, a esperança é a primeira a morrer.

28 janeiro 2015


Mais um.
Um passo, uma recordação, uma cicatriz, um espírito.
São alguns, os que me acompanham. Sinto-os próximos, tão junto de mim que é como se me tocassem.
São os que marcam a nossa vida. Contemporâneos ou anteriores, o sentimento não exige distinção. Ficam. São referências. Intrometem-se nas conversas, nos sonhos, mexem cordelinhos, esperam-nos.
Estes são os momentos de consciencialização das notícias que não digerimos imediatamente.
Preparam-nos para a adaptação à passagem a outro plano de alguém pertencente às nossas vidas.
Originam reencontros, apaziguam espíritos, libertam histórias antigas.
Recordam a importância do convívio.
Quem parte, se é recordado, não deixou pela vida sem deixar marca.

Não a esqueceremos.

21 janeiro 2015


Sentavam-se no murete que rodeava o canteiro da estação.
Esperavam o comboio. Sabiam esperar. Eram tempos com tempo.
Aguardavam pacientemente o desenrolar dos momentos, alheios ao calor e a qualquer sinal mundano. Ou melhor: totalmente enquadrados no mais natural cenário. Como se fossem partículas de poeira, que o voo das andorinhas agitava quando se elevavam até aos beirais. Ou borboletas, flores, átomos primaveris.
Naquele assento improvisado, que era seu por costume e por gosto, falavam de nada, num tanto de gestos e tão pouco de palavras.
Não desviavam a atenção para o ruído dos carros nem para a rotina vestida de gente que, a passos enfadados, percorria a plataforma. Não se detinham no rumorejar das águas marinhas, ali onde a marginal era paralela e o mar vizinho dos carris.
Adivinhava-se-lhes uma cumplicidade mais certa que o sangue. A menina atenta aos bichos-de-conta, que gostava de sentir rolar na mão enquanto se não ouvisse o silvo metálico. O pai, participando no estudo dos movimentos circulares dos pequenos crustáceos, acompanhando a filha num ritual quase silente, de quem se conhece muito além do que se diz.
A espera nunca era longa. Os olhos seguiam os rastejantes casuais por entre os desníveis das pedrinhas e os seus planos mais lisos, onde as formigas seguiam, por vezes, um trilho diferente, bem definido.
Não havia horas, nem se ouviam altifalantes. Os restantes passageiros como que desapareciam. Só existiam pai, filha e o calor da infância.

14 janeiro 2015


Prometias-me poesia

Castelos de ameias erguidas
Contra dores escondidas
Em sorrisos soluçantes

Prometias-me poesia

Universos em expansão
Nas noites de S. João
Com artifícios troantes

Prometias-me poesia

Do auge do abandono
Aos destroços do Outono
Por truques de meliantes

Prometias-me poesia

Entre gaffes e entrelinhas
No sopro das ventoinhas
Sob olhares insinuantes

Prometias-me poesia

Rituais mais que profanos
Em ritmos norte-africanos
No retorno dos viajantes



Prometias-me poesia

E por ti me fiz ao mar
Com redes de capturar
Peixes-verso navegantes

12 janeiro 2015


Meto-me nestas coisas porque gosto.
Gosto de saber de perto o que se passa na escola e na turma de cada filho, saber quem são os pais dos colegas, estar a par dos projectos e dos défices de cada estabelecimento, conhecer ser reconhecida pelos professores e os elementos da direcção da escola.
Além de tudo isto, gosto de encontrar pessoas e debater ideias.
Mas há momentos, destes relacionados com o meio escolar, de que não gosto.
Como em certas reuniões com os encarregados de educação.
Há mães/pais de todos os estilos. Os convictos de que os filhos são anjinhos. Aqueles que projectam nos educandos os objectivos que não alcançaram. Os que, por qualquer questãozinha reclamam a presença do professor tal, porque "coitadas das crianças", os que não devem deixar os miúdos ter palavra lá em casa, aqueles que se julgam o centro do mundo e desejam que a reunião tenha como eixo a sua situação particular.
E há os que sabem comportar-se e os que não.
Ontem, questionei-me se continuarei a ser a representante dos encarregados de educação. Algo que tenho feito ao longo dos últimos cinco ou seis anos lectivos. Tive dificuldade em aceitar que cada um falasse de rompante, sem que a directora de turma fosse dando a palavra aos presentes. E foi confrangedor agir como Kruschev. Não com um sapato, mas com uma mão na mesa, afirmando que já os deixara falar; agradecia que não me interrompessem.
Parece que é preciso educar pais. A mim, basta-me (e, por vezes, parece demasiado exigente) educar os meus filhos.
Não concordo com a confusão de valores a que venho assistindo.
Felizmente, ainda vejo mães e pais de mente aberta. Que não culpam ou exigem a presença dos professores, que não tiranizam nem apaparicam os miúdos, que se questionam e são responsáveis.
Todos aprendemos uns com os outros. Nem todos o sabem.

05 janeiro 2015

Turistas na própria cidade


A primeira coisa que ambiciono fazer assim que puder é viajar. Também com os meus filhos.
Antes de mostrar-lhes outros mundos, apresento o que está mais próximo.
Anteontem fomos turistas na nossa cidade natal: Lisboa.
O carro descansou na Rua do Alecrim. Decidimos que começaríamos o périplo pela zona ribeirinha.
Descemos ao Cais do Sodré, contei-lhes algumas das memórias da Lisboa de infância, as mesmas que referi num texto de 30 de Abril neste espaço social.
A rua onde o avô trabalhava, outra onde era o emprego da avó quando grávida de mim, a padaria onde gostávamos de terminar cada ida às compras.
Os bichinhos carpinteiros do skate sossegaram quando pôde rolar junto ao rio, pela Ribeira das Naus.
"Lembras-te como se chama este rio?" - perguntei à Mafalda. "Rio de Janeiro". O Vasco completou a ideia sugerindo que voltemos quando for rio de Fevereiro.
No Terreiro do Paço vestígios festivos polvilhados pelo chão denunciavam uma passagem de ano recente.
O interesse do Vasco pela História levou-o a procurar a placa evocativa do assassinato do rei D. Carlos, enquanto a irmã pedia para entrar no restaurante do chef dum concurso televisivo.
Andámos pelas ruas da baixa, por vezes sobre rodas, até nos sentarmos a saborear um gelado. O almoço foi de casa, em jeito de pic-nic, e comido no relvado.
Contei-lhes das lojas que deixaram de existir, como os Porfírios, onde encontrávamos roupa da nossa idade, ao contrário da generalidade dos pronto-a-vestir, que nos obrigavam a passar do infantil ao sisudo.
A caminho da Sé, comentei "esta é a rua onde nasci", referi o recente museu de Santo António e encaminhei-os para a Sé. Chegámos no mesmo instante do célebre 28. Saímos noutras rodas. Só os meus filhos, para rolarem de skate no largo da Sé...
Subimos ao miradouro de Santa Luzia, o Vasco querendo ir até ao castelo, a Mafalda pedindo inúmeras vezes um passeio de tuk-tuk. Os miúdos não entendem quando dizemos que certos prazeres têm preço para turista. Uma família de teimosos. Eles a pedirem, eu a negar.
Já junto do miradouro, sugeri à Mafalda "sobe por ali; evitas esta escadaria", ao que ela logo respondeu "eu vou por onde o Vasco for, mesmo que seja mais caminhoso". 
A miúda foi "de reboque"; as pernas estavam cansadas, reclamava. Levámo-la sentada no skate, de mão dada a cada um de nós.
Regressámos à beira-rio, conversando sobre o cais das colunas, a requalificação da zona, sentindo o rumorejar da água.
Mais adiante, a rampa lisa junto à EMSA foi a cereja no topo do bolo. Rolaram com imaginação, disputando o skate. Até que a imaginação lhes deu para procurar onde alugar bicicletas.
Quando descobrimos, já estavam a fechar. Ficou a promessa de o fazermos, numa próxima ida.
Deixámos o skate repousar no carro enquanto passeámos pelo Chiado. A miúda encantada com umas dançarinas de ventre plano, o Vasco deliciado com a extensão e os arcos da Bertrand. Espontâneo, beijou-me com um "porque, mãe, tu mereces" que me sorriu rosto e memória.
Por ali andámos, recordando o incêndio, vendo chegar as luzes, as ruas aquecidas de gente e dum lanche que ficará na lembrança dos miúdos da geração do carro. Que caminharam que nem gente grande, neste dia alfacinha.

30 dezembro 2014

Os meus desejos para 2015



Que cada dia traga a alegria de uma promessa

Que todo o gesto enxugue as lágrimas incontidas

Que a noite te afague num carinho que não esqueça

E o vento te ofereça as alegrias prometidas



Que os impulsos dessa alma de aventureiro

Sejam passos inventados a cada nova dança

Que toda a casa albergue amor verdadeiro

E a ternura seja o espelho de qualquer criança



Que qualquer estrada desemboque num moinho

Que o presente seja um livro ou um brinquedo

Que haja sempre pão e nunca acabe o vinho

E que cada jardim conserve um segredo



Que todos possam, sempre, ouvir cantar

Essa voz doce, de eterno trovador

Que quando sentires vontade de chorar


Sejam gotas de alegria na oferta duma flor



(Desvelo, poema publicado no meu livro Antes de Sermos Dia)

24 dezembro 2014

Feliz Natal



Sobretudo, desejo que os dias, estes ou os restantes, sejam de amizade.
Desejo a todos um Natal acolhedor e uma quadra docinha. 
Porque, como costumo dizer, precisamos mais de presenças que de presentes.

10 dezembro 2014

Após um acidente sério, um balanço resumido da minha vida

Tudo começou quando fiz dezoito anos.
Queria arrumar os exames e ir para a praia. Em vez disso, receei que o cancro me levasse a mãe. Meti mãos à empreitada duma casa e pés a caminho do hospital, em Lisboa. Quase não sobrava tempo para estudar.
Nunca mais a minha mãe foi a mesma. Com a mama, perdeu uma parte importante dela.
Depois, o meu pai. Alzheimer. Os primeiros indícios aos 59 anos. Eu a ver o que a minha mãe não vislumbrava.
Anos inimagináveis de perda dolorosa. Uma solidão partilhada entre as duas. A impotência, a falta de forças.
Eu sempre longe; na indústria farmacêutica atribuíam-me, invariavelmente, o papel de papa-léguas.
A minha mãe a ligar-me porque ele caía e não conseguia levantá-lo. Eu em Rio Maior.
Mudei fraldas a um pai doente antes de ter filhos. Os fins-de-semana de assistência aos meus pais. Os filhos do meu ex-marido a fazerem, por vezes, companhia.
A minha mãe a sofrer um avc. Eu dividida entre um lar onde tivemos que deixar o meu pai, enquanto ela recuperava, e o hospital onde ficou internada.
Em casa, quase só o tempo de dormir. Roupas, cuidados, angústias.
Dez anos de despersonalização. A família ausente. Queriam recordar-se dele como era...
Eu a lembrar-me de todos, a dar notícias, a estar presente.
A minha tia acidentada, a ter de ser operada ao colo do fémur. O meu pai internado, pele e osso, com uma das inúmeras infecções que sofreu após desaprender de comer.
E, enquanto a minha mãe recuperava forças, eu, muito grávida, ia de Lisboa para a Amadora, entre hospitais, entre pai e tia, no calor de Agosto. 
Compras, chamadas de atenção. Exigia-se a perfeição.
Os últimos dois anos do meu pai num lar que mal conseguíamos pagar. O meu filho vivendo grande parte dos primeiros fins de semana em ambiente de gente debilitada, sozinha.
Sentia-me culpada quando pensava que talvez fosse preferível ele partir. Tanta culpa! Tanta dor! Mas mantinha o sorriso, conversava com ele, acarinhava-o.
Até que um dia.
Eu, gravidíssima -ainda mais que no acidente da minha tia- a atender a chamada, com o Vasco ao lado. Nunca se está preparado.
Na despedida apareceram os que não acompanharam a doença. Por breves instantes.
E tudo voltou a ser normal por uns meses. Comigo a lamentar que o Vasco perdesse a lembrança do avô.
Até sabermos que a minha tia era consumida por um cancro metastizado.
A minha bebé a começar a vida enquanto eu ficava sem emprego e receava perder a minha tia.
A separação, sem emprego.
A minha mãe sofrendo quedas e fracturas umas após as outras. 
A minha tia fintando a doença durante sete anos, com uma energia admirável.
Conseguiu ficar o tempo suficiente para os sobrinhos-netos a recordarem.
Eu e a minha mãe multiplicando-nos em deslocações e cuidados. Mesmo quando já não a tínhamos. Muitos animais e uma casa à espera das nossas capacidades.
A visão da minha mãe deteriorando-se. Uma cirurgia às cataratas a correr mal.
As dificuldades de aprendizagem da Mafalda. A suspeita duma doença rara e grave.
A dor, a solidão, a falta de recursos. E eu a continuar a apreciar a vida. A estar com todos, sem estar comigo. 
Agora, temi ficar sem mãe. Ali, em frente aos netos. Ou que ela perdesse a mobilidade, a consciência.
A solidão. A preocupação com a normalidade da vida dos filhos, em dias sem qualquer normalidade.
Tenho um sorriso secreto, quando me falam de força, de paciência. 
Sempre as tive. 
Mantenho o riso, após tanta aflição. Privilégio de poucos.
Tenho tido de tudo em doses elevadas.
Não conto aqui.
Raros me conhecem. Sabem que não me vergo. Não ligo ao estatuto. Bato-me pelos valores que defendo. 
Paguei um preço alto. Conservei a dignidade. 
A escrita e um ocasional esgar ou resposta, são os meus equilíbrios. 
Mantenho o gosto pela vida. A criatividade de quem não pode dividir responsabilidades, pensar primeiro em si ou viajar e ainda alegra os dias.
Não escrevo humor nem lamechices. Desprezo o fácil. Aprecio os dias sem história com a gratidão e o encanto de quem sabe o que é sofrer, viver em sobressalto.
Aceito presenças, abraços. 
Conselhos? É no que as pessoas sabem ser generosas. Sou cada vez mais selectiva.

29 novembro 2014

Campeonato regional de surf (Desporto Escolar)


Foi sobre rodas que os surfistas começaram o dia. 
Rolavam o tempo nos skates, enquanto decorria a reunião técnica para estabelecer os hits.
Éramos contagiados com harmonia que se consegue quando tantas pessoas se unem num momento desportivo com cor, música, sol e amigos de quatro patas.
A luz convidativa, as ondas admiráveis. Mais que tudo isto, era a minha praia, o meu filho em prova, que me faziam sorrir.
O Vasco devia ter surfado de manhã e participado na prova de skimboard à tarde, mas o mar obrigou a uma interrupção do surf dos iniciados. Acabou por fazer 3 provas durante a tarde.
Como mãe, esta sua primeira competição emocionou-me. O miúdo é muito "cool". O seu espírito competitivo é tranquilo, a adrenalina nem se denuncia. Faz os exercícios de aquecimento, observa os hits dos restantes competidores, atento às instruções do professor. Conversa pouco, mantém uma atitude serena. Gere os minutos, a ondulação, a corrente e o vento numa prestação em que dá o seu melhor. E goza o tempo entre amigos.
Amanhã há mais.

12 novembro 2014

Uma nova escola, finalmente!




Hoje começa uma nova fase para a nossa família.
Algo por que ansiava há tempos aconteceu subitamente.
Mesmo quando desejamos uma grande mudança, mesmo quando vemos as alterações como algo positivo, uma parte de nós fica nostálgica.
O entusiasmo não demite o vínculo emocional, embora saibamos que outro será criado.
Ontem não tivemos tempo de nos despedirmos na escola da Mafalda. Havia consulta e terapia e o relógio jogava contra. Ontem os meus olhos ameaçavam extravasar.
Hoje regressaremos, ao final do dia, à escola que foi nossa por sete anos. Uma segunda casa, onde nos integrámos, fizemos amigos, aprendemos, rimos, chorámos, comemorámos.
Eu deixarei de ser a representante dos Enc. Educ. O Vasco deixará de ajudar nos dias de festa. A Mafalda deixará de ter contacto diário com a turma que estava com ela pelo 3º ano.
Deixamos uma fase. A pele arrepia-se, as emoções tomam conta de nós por momentos.
Inauguramos outra fase. Novas rotinas, um novo percurso, amigos novos. Aprendizagens, nomes, hábitos, ritmos, tudo se renova.
Estamos sempre a evoluir.
Este mês, todos nós arranjaremos uma forma, no nosso interior, para aconchegar o que queremos conservar destes sete anos. E descobriremos um espacinho para integrar as novas experiências e caras que farão parte das nossas vidas.
Sempre a amadurecer.

01 novembro 2014

Pão-por-Deus


Eram cinco.
Vinham com mochilas e sacos para o pão-por-Deus. Ou "doçura ou travessura". Rapidamente conciliaram os conceitos. Não importava a designação, desde que juntassem umas guloseimas que lhes premiassem o tempo passado a tocar às campainhas da vizinhança, entre comentários humorados e conversas menos risonhas.
Eram cinco, todos rapazes, todos da mesma escola.
Pousaram as mochilas no hall, saudaram-me com à-vontade e vozes de criança, beberam água, receberam uns doces, negociaram as horas para o regresso e saíram.
Gosto de ir conhecendo os amigos do Vasco. Os da actual turma, os da do ano passado.
Gosto de ver repetir-se a cena de há uns anos largos, quando a casa dos meus pais foi, tantas vezes, o ponto de encontro da turma.
Aprecio a atitude destes miúdos. Educados, uns mais conversadores que outros, cuidadosos no diálogo. Reservados ou extrovertidos.
São rapazes. São simples. A vida é o que é, não são floreados nem declarações de amor a torto e a direito. Companheirismo e jogos, convívio em casa e na rua e skate. Tá-se bem!
No final da ronda, a reunião tornou a ser cá em casa. Feitas as contas, na sala, repartiram o produto do pão-por-deus. "A senhora gosta de caramelos de café?" - perguntou o Henrique. Ainda sobrou para mim. Sou uma sortuda!
Mais copos de água, votos de bom fim de semana e vi-os descerem as escadas.
Deixaram sorrisos e uma sweat esquecida.
É bom estar entre miúdos, diariamente.

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