10 dezembro 2014

Após um acidente sério, um balanço resumido da minha vida

Tudo começou quando fiz dezoito anos.
Queria arrumar os exames e ir para a praia. Em vez disso, receei que o cancro me levasse a mãe. Meti mãos à empreitada duma casa e pés a caminho do hospital, em Lisboa. Quase não sobrava tempo para estudar.
Nunca mais a minha mãe foi a mesma. Com a mama, perdeu uma parte importante dela.
Depois, o meu pai. Alzheimer. Os primeiros indícios aos 59 anos. Eu a ver o que a minha mãe não vislumbrava.
Anos inimagináveis de perda dolorosa. Uma solidão partilhada entre as duas. A impotência, a falta de forças.
Eu sempre longe; na indústria farmacêutica atribuíam-me, invariavelmente, o papel de papa-léguas.
A minha mãe a ligar-me porque ele caía e não conseguia levantá-lo. Eu em Rio Maior.
Mudei fraldas a um pai doente antes de ter filhos. Os fins-de-semana de assistência aos meus pais. Os filhos do meu ex-marido a fazerem, por vezes, companhia.
A minha mãe a sofrer um avc. Eu dividida entre um lar onde tivemos que deixar o meu pai, enquanto ela recuperava, e o hospital onde ficou internada.
Em casa, quase só o tempo de dormir. Roupas, cuidados, angústias.
Dez anos de despersonalização. A família ausente. Queriam recordar-se dele como era...
Eu a lembrar-me de todos, a dar notícias, a estar presente.
A minha tia acidentada, a ter de ser operada ao colo do fémur. O meu pai internado, pele e osso, com uma das inúmeras infecções que sofreu após desaprender de comer.
E, enquanto a minha mãe recuperava forças, eu, muito grávida, ia de Lisboa para a Amadora, entre hospitais, entre pai e tia, no calor de Agosto. 
Compras, chamadas de atenção. Exigia-se a perfeição.
Os últimos dois anos do meu pai num lar que mal conseguíamos pagar. O meu filho vivendo grande parte dos primeiros fins de semana em ambiente de gente debilitada, sozinha.
Sentia-me culpada quando pensava que talvez fosse preferível ele partir. Tanta culpa! Tanta dor! Mas mantinha o sorriso, conversava com ele, acarinhava-o.
Até que um dia.
Eu, gravidíssima -ainda mais que no acidente da minha tia- a atender a chamada, com o Vasco ao lado. Nunca se está preparado.
Na despedida apareceram os que não acompanharam a doença. Por breves instantes.
E tudo voltou a ser normal por uns meses. Comigo a lamentar que o Vasco perdesse a lembrança do avô.
Até sabermos que a minha tia era consumida por um cancro metastizado.
A minha bebé a começar a vida enquanto eu ficava sem emprego e receava perder a minha tia.
A separação, sem emprego.
A minha mãe sofrendo quedas e fracturas umas após as outras. 
A minha tia fintando a doença durante sete anos, com uma energia admirável.
Conseguiu ficar o tempo suficiente para os sobrinhos-netos a recordarem.
Eu e a minha mãe multiplicando-nos em deslocações e cuidados. Mesmo quando já não a tínhamos. Muitos animais e uma casa à espera das nossas capacidades.
A visão da minha mãe deteriorando-se. Uma cirurgia às cataratas a correr mal.
As dificuldades de aprendizagem da Mafalda. A suspeita duma doença rara e grave.
A dor, a solidão, a falta de recursos. E eu a continuar a apreciar a vida. A estar com todos, sem estar comigo. 
Agora, temi ficar sem mãe. Ali, em frente aos netos. Ou que ela perdesse a mobilidade, a consciência.
A solidão. A preocupação com a normalidade da vida dos filhos, em dias sem qualquer normalidade.
Tenho um sorriso secreto, quando me falam de força, de paciência. 
Sempre as tive. 
Mantenho o riso, após tanta aflição. Privilégio de poucos.
Tenho tido de tudo em doses elevadas.
Não conto aqui.
Raros me conhecem. Sabem que não me vergo. Não ligo ao estatuto. Bato-me pelos valores que defendo. 
Paguei um preço alto. Conservei a dignidade. 
A escrita e um ocasional esgar ou resposta, são os meus equilíbrios. 
Mantenho o gosto pela vida. A criatividade de quem não pode dividir responsabilidades, pensar primeiro em si ou viajar e ainda alegra os dias.
Não escrevo humor nem lamechices. Desprezo o fácil. Aprecio os dias sem história com a gratidão e o encanto de quem sabe o que é sofrer, viver em sobressalto.
Aceito presenças, abraços. 
Conselhos? É no que as pessoas sabem ser generosas. Sou cada vez mais selectiva.

2 comentários:

Rogerio G. V. Pereira disse...

Vamos sendo
até sermos dia
e um dia seremos

Nilson Barcelli disse...

A tua vida dava um filme...
Mas continua a lutar pela vida com a mesma força de sempre, pois vale a pena teres essa coragem de não virar a cara à luta.
Faço votos para que tenhas umas Festas Muito Felizes, querida amiga.
Beijo.

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