05 janeiro 2015

Turistas na própria cidade


A primeira coisa que ambiciono fazer assim que puder é viajar. Também com os meus filhos.
Antes de mostrar-lhes outros mundos, apresento o que está mais próximo.
Anteontem fomos turistas na nossa cidade natal: Lisboa.
O carro descansou na Rua do Alecrim. Decidimos que começaríamos o périplo pela zona ribeirinha.
Descemos ao Cais do Sodré, contei-lhes algumas das memórias da Lisboa de infância, as mesmas que referi num texto de 30 de Abril neste espaço social.
A rua onde o avô trabalhava, outra onde era o emprego da avó quando grávida de mim, a padaria onde gostávamos de terminar cada ida às compras.
Os bichinhos carpinteiros do skate sossegaram quando pôde rolar junto ao rio, pela Ribeira das Naus.
"Lembras-te como se chama este rio?" - perguntei à Mafalda. "Rio de Janeiro". O Vasco completou a ideia sugerindo que voltemos quando for rio de Fevereiro.
No Terreiro do Paço vestígios festivos polvilhados pelo chão denunciavam uma passagem de ano recente.
O interesse do Vasco pela História levou-o a procurar a placa evocativa do assassinato do rei D. Carlos, enquanto a irmã pedia para entrar no restaurante do chef dum concurso televisivo.
Andámos pelas ruas da baixa, por vezes sobre rodas, até nos sentarmos a saborear um gelado. O almoço foi de casa, em jeito de pic-nic, e comido no relvado.
Contei-lhes das lojas que deixaram de existir, como os Porfírios, onde encontrávamos roupa da nossa idade, ao contrário da generalidade dos pronto-a-vestir, que nos obrigavam a passar do infantil ao sisudo.
A caminho da Sé, comentei "esta é a rua onde nasci", referi o recente museu de Santo António e encaminhei-os para a Sé. Chegámos no mesmo instante do célebre 28. Saímos noutras rodas. Só os meus filhos, para rolarem de skate no largo da Sé...
Subimos ao miradouro de Santa Luzia, o Vasco querendo ir até ao castelo, a Mafalda pedindo inúmeras vezes um passeio de tuk-tuk. Os miúdos não entendem quando dizemos que certos prazeres têm preço para turista. Uma família de teimosos. Eles a pedirem, eu a negar.
Já junto do miradouro, sugeri à Mafalda "sobe por ali; evitas esta escadaria", ao que ela logo respondeu "eu vou por onde o Vasco for, mesmo que seja mais caminhoso". 
A miúda foi "de reboque"; as pernas estavam cansadas, reclamava. Levámo-la sentada no skate, de mão dada a cada um de nós.
Regressámos à beira-rio, conversando sobre o cais das colunas, a requalificação da zona, sentindo o rumorejar da água.
Mais adiante, a rampa lisa junto à EMSA foi a cereja no topo do bolo. Rolaram com imaginação, disputando o skate. Até que a imaginação lhes deu para procurar onde alugar bicicletas.
Quando descobrimos, já estavam a fechar. Ficou a promessa de o fazermos, numa próxima ida.
Deixámos o skate repousar no carro enquanto passeámos pelo Chiado. A miúda encantada com umas dançarinas de ventre plano, o Vasco deliciado com a extensão e os arcos da Bertrand. Espontâneo, beijou-me com um "porque, mãe, tu mereces" que me sorriu rosto e memória.
Por ali andámos, recordando o incêndio, vendo chegar as luzes, as ruas aquecidas de gente e dum lanche que ficará na lembrança dos miúdos da geração do carro. Que caminharam que nem gente grande, neste dia alfacinha.

1 comentário:

Rogerio G. V. Pereira disse...

Ensinar as crianças a amar Lisboa
é uma coisa boa
Em "viagem futura"
fale-lhes de arquitectura,
das colinas,
das varinas
Que tal o famoso
"Eléctrico 28"?

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