25 fevereiro 2011

Havia uma porta. E por ela entravam flores em pleno voo, canções perfumadas e aves migratórias que se sentiam ao longe.
Havia um recanto, desses recolhidos do resto do mundo, onde se aninhavam os sonhos e adormeciam cansaços. Um recanto pintado de poesia, em tons quentes de emoção.
Havia um esconderijo aberto aos amigos, pleno de risos e lágrimas. Dessas que vêm comemorar as alegrias ou enterrar os desgostos.
Havia um refúgio no tempo, que parava sempre que se anunciava um novo momento, uma nova dádiva de minúscula eternidade.
Havia um abrigo, resguardado de solavancos, sempre em condições de circulação, ausente de esperas, imune à distância.
Havia um reduto onde a clareza era constante, a vida uma promessa e a esperança uma garantia.

A porta sucumbiu à nortada. Cedendo à lei da força, desengonçou-se. Deixou que o espaço sagrado fosse profanado.
À vista de todos, apenas destruição.

Sentindo-se violentada, ela ergueu-se, contabilizando os danos. Contemplou cada equimose, cada escoriação. A fadiga era inimiga, mas ela sabia que sairia vencedora da contenda.
Fechou os olhos, saboreando a sensação revitalizante de uma inspiração demorada.

13 comentários:

Cata- Vento disse...

Mais um texto lindíssimo perpassado de poesia que se devora num trago.
Escreves muito bem, amiga!

Beijinhos

Bem-hajas!

Rogério Pereira disse...

Porta assim
querida poeta
não tem fechadura, nunca
está sempre entreaberta

:))

Carlos Albuquerque disse...

É atrevimento meu, mesmo imodéstia (que peço perdoe),mas, ainda assim, arrisco: Li este belíssimo texto e tomei-o com uma metáfora poética, porque esta porta que havia, e continuou a haver,ultrapassou o significado das coisas para ganhar a dimensão de uma existência humana...
"...um refúgio no tempo..." e "...dádiva de minúscula eternidade..." são figuras de estilo de fino recorte literário, que me encantaram.
Parabéns e continue a libertar a sua veia de escritora, aqui a partilhando com os seus visitantes e leitores.

Nilson Barcelli disse...

Gostei dessa tua porta que renasce das fadigas das contendas e do vandalismo dos outros.
Um excelente texto, prosa muito poética e agradável de ler.
Querida amiga, bom resto de Domingo e boa semana.
Beijos.

Chousa da Alcandra disse...

Eu quero que as portas da miña vida sexan sempre permeables coma esa que ti describes; para que deixen entrar o perfume das cantigas mentras son refuxio de amigos...

Beijos

Braulio Pereira disse...

suave poesia doce de ler.

porta aberta esperança viva.

gostei do teu carinho lá

obrigado.. feliz e boa semana


beijos!!

© Piedade Araújo Sol disse...

a porta fechada que nos traz refugio pode ser muito boa.

um texto em prosa poetica muito bonito.

boa semana Filo e um

beij

ANTÓNIO disse...

Gostei de te ler...
É um encanto perfumado a forma doce como da prosa se faz poesia.
Continua, para ter o prazer de te ler...

Beijos e uma boa semana.

António

momo disse...

que texto más lindo...ay las puertas secretas.
Un beijo

São disse...

A poesia não transborda só em versos,como aqui nos deixas provado.

Um abraço

none disse...

Adorei....e senti

Vieira Calado disse...

A porta abriu... oura porta!

Saudações cordiais.

Sofá Amarelo disse...

Há sempre uma porta por onde entram pedacinhos de vida...

LinkWithin

Blog Widget by LinkWithin