23 fevereiro 2014

Amo-te


Amo-te desde sempre.
O amor não conhece limites, é intemporal.
Por isso, sei que te amei ainda antes de nascer e amar-te-ei sem que a eternidade seja medida suficiente.
Amo-te por tudo o que és e pelo que de ti desconheço.
Amo-te sem necessitar de ti e sem que precises de mim.
Sem exigências.
Amo-te na liberdade de nos falarmos ou na telepatia do silêncio.
Na quietude da escrita ou no fogacho da paixão.
Amo-te porque não és perfeito, mas és verdadeiro.
Para terminar, e só porque gosto de dizê-lo: amo-te!

12 fevereiro 2014

Uma aventura com nome de perturbação


Cada minuto parecia infinito.
Sentia-me quase a sufocar, à beira do desmaio.
Habituada a resolver tudo sozinha, a solidão desta vez oprimia-me quase tanto como a expectativa.
A consulta começou com uma hora de atraso. A minha ansiedade era velha, tendo-se arrastado penosamente a partir de ontem.
Os resultados actuais foram-me comunicados em linguagem difusa, frisando não constituírem ainda um diagnóstico: perturbação específica da linguagem.
Uma série de considerações que me foram chegando numa cadência ondulante: défice de atenção…  o funcionamento diferente do cérebro da minha filha (“não se trata dum atraso ou falta de inteligência” – isso eu sabia…)… dificuldade crónica na leitura, sobretudo nos textos literários, históricos, filosóficos… um artigo legal que prevê certas prerrogativas na educação de crianças com estas características… a vantagem em conversar com uma assistente social… a eventual necessidade de, um dia, a professora também ser esclarecida sobre estratégias…
Esperei muito tempo por este instante.
Primeiro, deixei-me enredar nas frases bem intencionadas que me diziam que aguardasse pelo “clique” da leitura. Depois, tentei ensiná-la a ler durante as férias, através dum método diferente. Já no segundo ano, foi a frustração revelada pela minha própria filha que me impeliu a procurar, por todos os meios, ajuda.
Precisamos dum diagnóstico, ainda que não gostemos de “rótulos”, para podermos integrar-nos numa situação inesperada.
No entanto, mesmo quando este se conjuga com as nossas suspeitas, será sempre como um corpo estranho, uma peça alheia ao esquema.
Estamos no primeiro passo duma longa caminhada. A aventura começou.

04 fevereiro 2014

Ai, as letras!

Tem sete anos e todos dizem que é linda.
Para mim, sua mãe, ela é perfeita.
A luz que emana do seu olhar faz o Sol sentir-se pequenino.
Contagia todos com as suas gargalhadas.
Deixa rasto das suas tropelias onde quer que passe.
Embalagens vazias de maquilhagem inertes num canto, recortes dos seus desenhos colados nos móveis, folhas espalhadas na mesa comprovam a sua criatividade com tinta, cola, missangas, folhas de revistas…
É incapaz de permanecer sentada e sossegada durante uma refeição. Ah! E está fora de questão não comer directamente com as mãos algumas das porções do jantar. O prazer de comer é muito melhor do que com os talheres!
Corre, pula, dança, canta e não se cansa.
Tanto mergulha numa piscina sem pé como escala uma parede bem alta e, superado o desafio, repete a proeza.
Organiza creches com os seus bebés, imagina coreografias que depois me incita a pôr em prática, quer participar nas actividades domésticas que lhe agradam.
Como qualquer criança, esta miúda é um desafio às capacidades de atenção e dedicação da família.
Há apenas alguns momentos que parecem angustiá-la. Acontecem quando as letras lhe pregam partidas. Ou as sílabas trocam de lugares ou lhe fintam a memória. Mesmo sem fechar os olhos, a Mafalda perde, por vezes, as imagens que elas lhe deviam dar.
Com os algarismos, ainda se entende. Mas as letras parecem ainda mais brincalhonas que ela.
Para ver se compreende as armadilhas que elas lhe preparam, a Mafalda começou uma gincana de consultas. Tem uma equipa do seu lado que a vai ajudar a perceber a estratégia das palavras. Sente que não está sozinha. Em casa, a mãe lê as histórias que, um dia, ela poderá decifrar sem ajuda. Na equipa, há médicos, terapeutas e psicólogos que, depois de concluídos os jogos que vão desvendar como funcionam as letras na sua cabeça, lhe revelarão os truques que ela e a professora não podiam descobrir sem as varinhas mágicas emprestadas apenas a algumas crianças, cheias de vivacidade e imaginação.

17 janeiro 2014

Bolo-rei misterioso


A noite era o momento em que a mãe lia uma história, antes de adormecerem.
Algumas vezes, porém, ela lembrava-se de contar acontecimentos verdadeiros.
Como no dia em que lhes disse que o bolo-rei, de que a avó tanto gosta, costumava esconder, na sua massa, uma fava e um brinde.
“Uma fava e um brinde?” – perguntaram os irmãos, ao mesmo tempo. Parecia que tinham ensaiado a questão – “O que é um brinde?”
“Um brinde era um objecto pequenino que vinha no bolo-rei, como a fava. Mas, se a fava ninguém gostava de receber, já o brinde era uma espécie de presentinho-surpresa.”
Os olhares do Vasco e da Mafalda demoraram-se na mãe, bem atentos.
“Mas era o quê?” – perguntou a menina.
“Muitas vezes eram pequenos objectos para pendurar num fio, ao pescoço. Como mãos a fazerem figas, minúsculos cadeados…”
As crianças estavam admiradas.
Riram quando souberam que a tia costumava esconder, sub-repticiamente, a fava num guardanapo quando a sentia no bolo, voltando depois a escondê-la dentro deste, quando ninguém a observasse, para não ter de pagar o próximo bolo-rei.
O relato ficou gravado no baú das histórias da Mafalda, aquele baú onde armazenamos também os nomes, os desejos, os números, os acidentes.
No ano seguinte, a criatividade da menina, que se escondia no mesmo local - o tal baú das histórias - resolveu aprontar uma surpresa à família: já que os pasteleiros tinham deixado de esconder favas e brindes no bolo-rei, ela encarregar-se-ia disso.
Fava não encontrou lá por casa. Mas não se ralou. Também ninguém a quereria…
Mas brinde… ah, esse sim! Sabia muito bem o que poria no bolo para deixar todos pasmados.
A ideia era tão boa que o mais difícil foi manter-se caladinha até a cena espantosa acontecer.
Foi no fim da consoada. No preciso instante em que a avó ia servir-se da primeira fatia de bolo-rei, este começou a arrastar-se. Movimentou-se como se tivesse vida própria. E pés, claro!
Sim, foi isso mesmo! Não acreditas? Também lá em casa ninguém se convencia que o bolo se tinha realmente mexido.
“Mas… o que é isto?!?” – exclamou a avó, perplexa.
O irmão, que não tinha acompanhado a tentativa de encetar o bolo, olhou para a avó assim que se apercebeu da incredulidade na sua voz, acompanhada da expressão intrigada da mãe.
Nova tentativa para separar uma fatia. E o bolo avançou um pouco mais.
A Mafalda, discretamente, com as mãozinhas quase escondidas pela mesa, accionava o comando dum carro de brincar que tinha colocado na massa, substituindo algumas frutas cristalizadas.

Quando entenderam a partida e o que fazia o bolo deslizar, todos riram tanto que o Natal parecia… Carnaval.

03 janeiro 2014

Ano novo


Os anos são como os meses ou os dias. Incansáveis, vão-nos retirando tempo. Em troca, dão sabedoria a quem sabe interpretar as experiências, sejam de dores ou de alegrias.
Alguns de nós prometem, desejam, sonham, acreditam. 
Sobretudo quando o ano está para mudar.
Sms’s e chamadas banalizam votos de feliz ano novo. Os comportamentos repetem-se, todos os anos. 
Uns perguntam sobre planos para a passagem de ano. Outros mentem.
Não envio mensagens ocas. Falo com quem comunico ao longo dos anos, qualquer que seja o dia.
Não ligo muito ao telemóvel. Quem me conhece sabe que ele vive períodos significativos sem som.
Não procuro ambiente festivo. Não prometo. Não fantasio. Não lamento.
Recordo com saudade quem partiu. Penso, sorridente, em quem passou a integrar a minha vida. E sinto-me grata por todos os que nela permaneceram.
Desejo que todos os amigos saibam reconhecer o que de bom a vida lhes tem proporcionado. Que a saúde os proteja, que os valores se propaguem. Que todos possamos ver aliviado o fardo de preocupações e apreciar os dias simples.

23 dezembro 2013

Boas Festas


Um feliz Natal para todos os leitores e amigos do Escrito a Quente.
Se possível, em família, com harmonia e doçura(s).

08 dezembro 2013

As mães têm super-poderes


Tenho sete anos e acredito que as mães são como as fadas.
Conseguem tudo aquilo que nós não conseguimos.
Quando éramos bebés, as mães adivinhavam o que queríamos, mesmo sem falarem bebês.
Depois,  começamos a andar e magoamo-nos. As mães sabem sempre como nos reconfortar.
Se calha ser um trambolhão maior, a minha mãe até faz como nas histórias: abre as asas e lá vai ela; voa tão depressa, mas tão depressa, que chega ao hospital ainda antes da ambulância. Aconteceu isso quando o meu irmão partiu o braço na escola e outra vez, anos depois, quando precisou de pontos no sobrolho.
Sempre que estamos de apetites, as mães/fadas preparam a nossa comidinha favorita. Se a gula é enorme, lá vão elas desencantar um chocolate para nos adoçar o dia.
Lembro-me de quando a mãe ia ter comigo para declarar guerra aos meus pesadelos. Eles pareciam monstros enormes, daqueles bem ameaçadores. Mas ela, que até nem é muito grande, punha-os logo em sentido. E eu sabia que podia dormir sossegada o resto da noite, os sonhos maus não se atreveriam a vir novamente assustar-me.
Quantas vezes, a meio da noite, a nossa mãe/fada teve de mudar os lençóis por causa dum sonho em que eu pensava que estava na casa de banho e fazia mesmo xixi? Ou quando um de nós vomitava e tudo ficava sujo e malcheiroso: roupa de cama, paredes, chão?... eu acho que as mães conseguem porque têm super-poderes e não precisam e dormir quando isso acontece ou quando os bebés são daqueles que -como o meu irmão- não dormem nem deixam dormir.
Sei que elas nos passam uns dons para nós conseguirmos fazer tudo: apertar os atacadores, andar de patins, não chagarmos atrasados à escola mesmo se demorámos a levantar-nos… e fazem várias cosas ao mesmo tempo. Por exemplo, enquanto cozinham o jantar podem vigiar os nossos tpc… Para mim, está a ser difícil aprender a ler, mas a minha mãe vai levar-me a uma médica que combina com as terapeutas ensinarem-me alguns truques para eu descobrir as palavras que as letras me querem dizer.
As mães, mesmo sem emprego, fazem milagres. Eu sei que a minha por vezes anda cansada, até já a vi triste. Mas sorri sempre para nós e não deixa que nos falte nada: roupa, comida ou miminhos.
Agora, querem saber o que eu queria mesmo muito? Assim, tipo o meu desejo preferido? Era que os super-poderes das mães conseguissem mandar nos relógios. Pará-los ou adiantá-los. Eu queria que as horas passassem mais depressa quando estou a comer sopa de couves. Ou a arrumar os brinquedos. Mais do que tudo, adorava que a mãe pudesse parar os relógios quando estou no meio duma brincadeira que não me apetece interromper. Ou quando estou com sono de manhã. Ou durante as férias.
Ah, isso sim! Mãe com super-poderes, eu já tenho. Queria mesmo era ter uma com super-poderes sobre o tempo.

Poder ficar a dormir até que os olhos se abrissem com vontade de saltar da cama… Isso é que seria mesmo o melhor da história!

25 novembro 2013

Dia Internacional Contra a Violência Sobre a Mulher


Todas são mulheres. Mães. Novas, entre os 30 e tal e os quarenta e poucos.
Dinâmicas, trabalhadoras.
Todas relatam cenas que protagonizaram.
Não são contos para contar na hora de dormir, às crianças.
São biografias de horror e medo. Entre paredes. As crianças não são os ouvintes de histórias encantadas, mas testemunhas da força, do medo.
Rute tinha uma filha pré-adolescente. Casada com um ourives, pensou ter descoberto um  homem sensível. Na primeira vez foi um estalo que lhe marcou a alma. Nas restantes, as marcas eram notórias a quem quer que a visse chegar ao hospital. Rute, como tantas mulheres, ainda acreditava quando ele lhe pedia desculpa. Invariavelmente, com uma peça acabada de fazer que lhe oferecia como prova de arrependimento. A promessa de que teria sido a última vez sempre desmentida por cenas que a filha presenciava. Foi a menina quem a fez adiar a separação. Embora visse a mãe chorar e lhe adivinhasse marcas no coração semelhantes às do rosto, a miúda não queria ver os pais separados. Pertencia ao grupo maior: o das crianças para quem o pai nunca pode ser menos que perfeito.
Isabel tem dois filhos. Um casal. Adolescentes, passam a maior parte do tempo fora da esfera materna. O marido foi sempre quem sustentou a casa. Ela quem assegurou o milagre da ordem da vida familiar. Os comentários surgiram com os anos. Ele não media as palavras quando queria subestima-la. Ela nem se foi apercebendo do tom crescente de desvalorização que se ia instalando. Até se sentir violentada doutra forma. Foi quando a dependência económica a conduziu à subjugação sexual. E como ele conseguia ser carrasco, ali onde nem os filhos estavam presentes…
Cecília sempre sentiu um indefinível desequilíbrio na vida familiar. Os filhos dele eram responsabilidade dela sempre que iam passar fins-de-semana. Quando os filhos comuns chegaram, a conduta manteve-se, pois claro. As despesas eram por conta dela. O ambiente degradou-se à medida que o comportamento escalou. Dum desfile de roupas e de tigelas de cereais pelo chão da sala onde ele adormecia no sofá, noite após noite, passou às agressões verbais. Não faltaram a privação de internet, as atitudes de franca hostilidade, a tortura do sono, as ameaças. O tipo requintado de violência: sem marcas visíveis.
Sara ficou surpreendida quando as mães dos seus alunos lhe relataram experiências muito semelhantes à sua. Não ficou porque havia trabalhado como voluntária numa associação dedicada a casos de violência. Sabia os podres duma sociedade onde ninguém parece conhecer nenhum caso. Sabia que tantas como ela tinham marcas, mais ou menos visíveis, do que era a vida doméstica. Pedidos de desculpa e promessas alternando com agressões físicas, perseguições, chantagem, desresponsabilização económica de pais em relação a filhos.
Maria José tinha dificuldade em ocultar da filha, de cinco anos, as marcas evidentes de murros e pontapés. Por mais de uma vez foi assistida no hospital. Quase todos os dias a necessidade de chorar se impunha nos momentos mais constrangedores. A menina sentia-se perdida. Via a mãe triste, presenciava gritos, uma expressão na cara do pai que a assustava. Perguntava-se o que fizera para que eles se zangassem daquela forma.
Hoje, todas excepto Isabel vivem outras realidades.
Rute voltou a casar e teve mais um filho. Tem com o marido uma relação de paridade, dedicação e carinho que envolve ambas as famílias.
Cecília conheceu a paz depois de viver só com os dois filhos e de ter concretizado o seu sonho.
Sara voltou a casar, arriscou um negócio próprio e o seu sorriso acentua a harmonia em que vivem as duas famílias e a rota dum negócio que navega em águas favoráveis.

Maria José vive com Rafael e a filha. O ex-marido cessou as perseguições quando Rafael e Maria José se aproximaram. 

(Os nomes, claro, não correspondem aos reais)

22 novembro 2013

Todas as noites


Todas as noites te escrevo poemas que não lês.
Contêm promessas de amor eterno, utopia verídica dos poetas.
São poemas que moram em mim, não conhecem gavetas.
Todas as noites os escrevo e tu não os lês.

Todas as noites te dedico poemas de amor
Ditados pelas estrelas, senhoras de poder universal.
São elas que nos traçam sina doce e imortal.
Todas as noites são noites de poemas de amor.

Todas as noites
Os meus lábios te sussurram, sem que os ouças: és o meu poema.
Todas as noites nos amamos e adormecemos juntos, distantes.

Todas as noites.

16 novembro 2013

Oásis


(imagem retirada da internet)

Um oásis pela frente.

O calor evolando-se do chá de menta, dos corpos lânguidos, ocultos pelos véus.

Uma dança do ventre que se solta duma carícia, na tenda secreta, de entre almofadas multicolores.

Há palmeiras a derreter nos últimos acordes de Sol. Rosas do deserto escondendo-se dos ventos contra-alísios.

Espíritos encantados por flautas que desencantam serpentes.

Aromas de narguilé embriagam o ar quente e os sentidos.

A imensidão das dunas, pequena perante as nossas viagens pelas palavras.

11 novembro 2013


Fica.

Em silêncio.

Não quero falar. Deixei de falar.

Como diz um amigo, “por vezes cansa estar sempre a responder ao óbvio, ao que não nos apetece”.

Tenho demasiadas coisas guardadas cá dentro. Não quero lembrá-las.

Quis alguém que soubesse ouvir.

Sem responder com angústias próprias, sem comparar dores.

Porque não se sabem os percursos. As cicatrizes, os sorrisos.

O meter na cabeça que se consegue. Que tem de se conseguir. O desgaste.

O espanto pelo tanto que se alcança.

Um paradigma particular, um modo de vida reinventado.

Por vezes penso exilar-me no meu interior.

Depois, a existência pede-me que escreva. E eu obedeço-lhe.

Por palavras meias deito fora os escombros.

Prossigo, livre. Transporto apenas as boas memórias. Até novo tremor de vida.

Sei que então não me faltarão socorros.

A palavra escrita. Ou tu.

03 novembro 2013

Distracção divina

Conheci-te na rota do meio-dia
A tua tarde, uma ilha sem sereia.
Onde búzios trazidos p’la maresia
Propagavam hinos doces sobre a areia.
 
 Acordámos despidos no rochedo
Abraçados na praia clandestina
Personagens dum misterioso enredo
Engendrado p´la distracção divina
 
Renascemos no linho dum areal
Debruado a medo dentro do peito
Descobrimos fogo com sabor a sal
Nas marés vivas dum amor perfeito.

15 outubro 2013

"Antes de Sermos Dia" foi lançado há um ano e meio

 
Um das datas mais especiais da minha vida, a do lançamento meu livro de poesia, com prefácio do José Fanha, foi há um ano e meio.

 
A reportagem que, no dia seguinte publiquei no
Escrito a Quente, pode ser vista aqui
 
 
E o livro está disponível através da Editora Lua de Marfim e em
 
 

29 setembro 2013

Talvez...

 
Talvez o amor se canse de esperar
Talvez o medo impeça de tentar
Talvez a Lua nos veja dançar
Talvez os versos não devam rimar.
 
Talvez eu fique em casa se chover
Talvez as dores tenham de doer
Talvez o ventre inche de prazer
Talvez os lutos ensinem a viver.
 
Talvez um mimo te faça sorrir
Talvez os filhos não queiram dormir
Talvez um dia tenha de partir
Talvez ainda possas sugerir.
 
Talvez a obra exceda o criador
Talvez a sorte nos traga o melhor
Talvez perder seja um mal menor
Talvez ainda me dês uma flor.
 
Talvez no Inverno eu te procure
Talvez um abraço tudo cure
Talvez te roube um beijo e jure
Que seja eterno enquanto dure.

23 setembro 2013

Outono e praia

 
Sinto o calor do Sol baixo, derramando-se sobre o corpo todo, como uma carícia nas costas.
Uma sensação de massagem nos pés quando estes se expandem no areal.
Há um aroma de fim de Verão no ar. Boicotado pelo odor do tratamento de águas. Logo o sossego deixa de o ser quando uma família discute o lanche “Ó João, queres o teu Bolycao?”, seguido duma disputa entre o João e o António, primos que reclamam o mesmo cromo do lanche-surpresa de valor nutricional duvidoso.
A mãe/tia a arbitrar o conflito, alegando que ele já deve ter aquele cromo. As crianças, indiferentes aos argumentos, teimando na disputa. A senhora opta pela estratégia da fuga em frente. “E temos iogurtes, queres iogurte?” Que sim, quer iogurte. A mãe/tia saca um conjunto deles do interior dum saco térmico, onde deve ter trazido todo o conteúdo do frigorífico para uma tarde de quatro pessoas na praia. Um saco térmico grande, aparentando um recheio generoso.
Os miúdos encetam o lanche, a conversa redundante continua. Parece que cromos e guloseimas têm uma relação filosófica que lhes permite serem tema de discussão dum momento de lazer.
Aborda-se também o assunto jantar. Frango assado. E mais uma série de frases em torno do mesmo. Já me questiono se a verdadeira vocação desta família será a filosofia, se a gula.
Felizmente, Setembro e o Outono são aliados, quando se trata de ir a banhos. A praia tem mais zonas livres.
Determinada, pego nas nossa toalhas, mochilas e havaianas e migro para outro ponto, onde a areia não parece ameaçada por conversas indesejadas.
Do que eu gosto mesmo, na praia, é de sentir o Sol pintar-me a pele. Mergulhar umas quantas vezes.  Olhar, sorrindo, os miúdos eufóricos no body-board e nas brincadeiras. Deleitar-me com a boa literatura que levo sempre, para uns momentos de maior estado “zen” J

14 setembro 2013

O Verão na pele

 
Há, neste Algarve tranquilo, algo que me apazigua.
Férias sem burocracias e questões a tratar, embora algumas tentem imiscuir-se nestes dias de pausa, após meses complicados e quando me esforço por dar espaço ao luto recente.
O Sol, aqui, despede-se sempre em tons de brilho suave. Não abafa. Promete, no entanto, um calor aconchegante para cada dia seguinte.
Continuo a ser a mãe cuja atenção as crianças reclamam em intervalos de escassos minutos, infalivelmente.
Mas sou uma mãe menos dispersa, aqui.
Não deixo de ser a cozinheira, porém os almoços são dos que menos me prendem ao fogão. E sempre servidos no terraço, disputados pelas abelhas, num ambiente florido, de cor e descontracção.
Fecho os olhos, deixo-me hipnotizar pelo canto das gaivotas. Viajo com elas.
Homenageio as espreguiçadeiras, lendo languidamente romances que me levantam os pés do piso demasiado duro do restante ano.
Por vezes detenho a atenção na piscina. Nos mergulhos. Nas brincadeiras. Nos risos. Nas pequenas escaramuças infantis.
Saboreio os finais de tarde amenos, tão diferentes dos que temos em casa, ventosos.
A vida passa a ser apenas isto, por uns dias. Este ritmo brando, os poucos deveres, os bons dias duma pequena comunidade que se reúne em torno da piscina, o carinho dos amigos recém-reencontrados, a troca de palavras de apreço com mãe e tia, ao telemóvel.
Tenho o Verão na pele. As cigarras como manto. O amor dos meus filhos.
Se a felicidade tem uma fórmula, é esta.

(Algures a Sul, 8/9/13)

30 agosto 2013

Duas semanas

Uma inquietação crescente.
Uma saudade que ameaça ocupar cada cavidade do peito.
Duas semanas são pouco tempo para me habituar à tua ausência.
Há duas semanas afaguei-te o rosto pela última vez. A vida despedira-se de ti minutos antes. Eu soube que ficarias sempre presente em nós.
Quando o senhor da funerária perguntou se queríamos um epitáfio a acompanhar as flores no estilo habitual, de eterna saudade, respondi de imediato que não. Que queríamos “estarás sempre presente”.
A despedida foi como eu gostaria que fosse. Com toda a família, os antigos vizinhos e os novos. Amigos e conhecidos elogiando-te.
Ontem à noite, sozinha, permiti-me a dor, ao percorrer fotografias de viagens. Impressionante, como algumas retratam grupos em que a maioria dos fotografados já viajou para o plano infinito…
A nossa ligação foi cúmplice e marcante.
Recordo-me de me incitares a enfrentar os meus medos quando era criança.
De acordarmos cedo para irmos para a quinta da Azambuja.
De viajar contigo até Ceuta e Tetouan aos 13 anos. A Benidorm no ano seguinte.
De me deixares treinar a condução a partir dos 14 anos, com o teu Micra.
Lembro-me de, poucos anos depois, me zangar quando deixaste a dentadura no meu copo dos dentes numa das viagens à ex-URSS. Das caminhadas e das subidas às montanhas na Sibéria.
De ir esperar-te ao aeroporto em 2002, eu muito grávida do Vasco. Tu viajando de maca, com o colo do fémur fracturado. Uma viagem em que passaste a maior parte do tempo num hospital. Não saíste com os restantes passageiros. De repente, apercebi-me de uma ambulância que  arrancava da zona de chegadas. Desatei a correr na sua direcção, com aquela barriga grande à frente. Gritei. Consegui dar nas vistas. A ambulância parou. Só te levou para o hospital depois de eu te acarinhar.
Nos dias de Natal, eras tu quem tratava do peru. Eu fazia o bacalhau, a minha mãe o pudim.
Não tiveste filhos. Foste presença constante nos primeiros anos de vida dos meus, como na minha infância.
Agora, suponho que estejas mais próxima de outros espíritos que acompanham a minha história. Sinto-os como se os visse, num relance por cima do ombro.
Estarás sempre presente.

14 agosto 2013

O canto dos cucos


Os cucos saltitavam, atarefados na sua cantilena compassada, quando a campainha soou.
Dali, onde se arrumara, sentadinha, a sentir estender-se a tarde, não conseguia enxergar quem, fechando o portão, gerava outro ruído, paralelo ao do ranger suplicante de óleo: o dos pensamentos ansiosos que se faziam ouvir, apenas, no íntimo de cada um. Mas descobria, logo aos primeiros passos que se seguiam ao chiar, a figura que vinha alegrar algum dos contrariados residentes do lar.
Lar, que é como quem diz, armazém. Apesar do bom ambiente, do jardim cuidado, dos espaços amplos, das paredes coloridas e ar respirável, sem aqueles odores típicos de tantos, D. Augusta não tinha dúvidas de que entregava agora os seus dias a um calendário sem dias santos: o calendário dos dias iguais de tantas vidas abandonadas.
Ela, que descobrira aos seis anos o segredo das letras, a magia das contas e, aos dez, vivera a aventura do percurso para a escola dos grandes, iniciava agora a contabilidade dos dias em que a vida a acordava. Ela, que encetara aos vinte o primeiro grande empreendimento da sua vida: o casamento com o cantoneiro Francisco Costa, o Xico da Vila, como era conhecido lá na terra. Aos vinte e um já ninava o Manuel, primeiro de quatro filhos, com canções que lhe embalavam o cansaço da maternidade e da vida caseira. A criançada aumentava de altura na razão directa do aumento das ralações. Havia os livros para a escola do mais velho, a asma do Fernando, a vaidade precoce da Luisinha e as lições que o Hugo nunca guardava, na cabeça de todos os ventos.
E havia os milagres que Augusta fazia com a máquina de costura, nas bainhas que brincavam ao sobe-e-desce enquanto as roupas não esgarçassem, nas novas vidas que o vestuário ganhava com aproveitamentos de tecido. E, claro, os trabalhos no barranco, onde o rio, traiçoeiro, na sua ânsia de grandezas, deitava, ocasionalmente, a perder meses de dedicação, deixando a família sem as couves para a sopa e os ovos para a gemada dos meninos, sorridentes pelo mimo fortuito ao pequeno almoço.
Na aldeia, a vida decorria ao som das quatro estações do clima. Comemoravam-se os aniversários, Páscoas e Natais e choravam-se os anjinhos que a doença levava, quase sempre de conluio com a miséria.
Augusta deslizava sobre os anos acompanhada da mesma desenvoltura com que fora para a primária, o mesmo olhar vivo de quando espreitava Francisco à porta do café central. O único, ali.
Os meninos cresceram. Só o mais velho não lhe deitara netos no regaço. Vivia agora no Algarve. O trabalho era a sua vida. Os do meio também haviam estudado, e muito, que o casal insistira em dar-lhes a melhor preparação para a vida. Mas Fernando estava desempregado havia mais de dois anos. Com três filhos e apenas o vencimento abaixo do visível da nora, visitava a mãe ao ritmo modesto da ajuda dos irmãos. Só Luísa ia resgatá-la aos fins de semana e levar-lhe um sorriso nos outros dias, um miminho doce quando os horários das actividades dos miúdos se deixavam intercalar.
Hugo vivia agora no Canadá. Fora com a promessa de trabalhar na construção e assim o fez. Construiu prédios e família.
Nos dias sem história, Augusta ainda olhava para o televisor, mas não encontrava nele nada que lhe permitisse esquecer, por míseros minutos, o seu Xico e as conversas que nunca lhes haviam faltado. Até o sangue extravasar no cérebro do marido, deixando-o inconsciente, num sono hermético. Três dias. Os necessários para que a família o acarinhasse antes de se enlutar. 
A viuvez trouze-lhe peso ao olhar. Os movimentos demorados demonstravam uma D. Augusta encolhida pelo desgosto e pela idade.
Fintou a saudade com as peripécias infantis que os netos lhe ofereciam. Sorrisos e palavras recuperaram-lhe a expectativa de vida.
Agora, a expectativa alimentava-se dos toques da campainha do lar. A vida eram as visitas e os passeios familiares. E o canto dos cucos. 

30 julho 2013

Sete luas




Uma semana voou

Sobre o nosso pôr-do-Sol.

Sete pétalas, sete luas

Sobre essa escala pautada

Por claves de girassol.

 

Desenhámos areais

Por entre dez mil sorrisos.

Erguemos altares de estrelas,

Venerámos os sentidos

Em secretos paraísos.

 

Sonhámos o mesmo sonho,

Mezcal sóbrio de azul.

Sorvemos a pele salgada,

Despertámos para o voo

Do vento morno do Sul.

 

E num toque toque licoroso

Brindámos em cada beijo.

E, ao longo das sete noites,

Fomos vagas inflamadas

Na preia-mar do desejo.

02 julho 2013

.



Já o vi chegar de mansinho para alguns.
Vi-o levar outros de repente.
O fim.
Não sei se este será o seu anúncio.
Se te veremos definhar ou se o sopro gelado o trará num instante.
Nunca se está preparado. Não sei da minha vida sem a tua presença. Todas as minhas memórias te incluem.
Se pudesse escolher, diria que não quero prolongamentos, sofrimento vão.
Prefiro o teu voo ao afundamento.
Saberei m
elhor não te ter perto do que a mágoa repetida do deixar de ser.
As boas lembranças, tenho-as tatuadas no mesmo local que as feridas. Contrabalançam as dores que a vida reserva.
Se umas se esbatem, as outras também. Um equilíbrio instável. Mas meu.
Podes ir, se for o momento. Podes ir e acompanhar-nos à distância.
Sabendo que ficamos bem. Tão bem quanto se pode ficar quando estas surpresas acontecem.
Seja o que for que o tempo nos reserve, este nunca será um texto de despedida.
Porque é tudo tão breve que é sempre um até já.
Podes ir. Porque ficarás, sempre.

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