28 julho 2009

Tristeza

Foi a segunda vez que me deparei com uma cena destas .
Consumindo as derradeiras energias num estertor letal, gatos contorcendo-se no meio da estrada. Triste demais.
Se a primeira cena se passou há anos, na Avenida Almirante Reis, em Lisboa, e não me saiu da cabeça, esta não me largará nunca.
São flashes que voltam à memória uma e outra vez. O terrível espectáculo de um ser inocente num movimento desenfreado de dor, de desespero. Desespero que se entranha em quem assiste ao acontecimento.
Há uns doze anos, numa avenida em que eu própria seguia ao volante, com uma série de outras viaturas atrás de mim em velocidade constante, a única coisa que pude fazer foi contornar o animal, evitando tocar-lhe com alguma roda. Ficaram as lágrimas e a triste lembrança.
Hoje, porém, a minha atitude foi outra. Pedi a quem conduzia que parasse o carro. Sinais de luzes para quem se preparava para cruzar o entroncamento. “Que se passa?”- ainda perguntou a senhora.
Eu, precipitei-me numa ânsia protectora para aquele minúsculo gatinho que esgotava a vida numa luta perdida. De início, nem sabia onde era o seu ferimento. Sangue, pedacinhos na via de circulação.
Cá dentro, ansiedade. Cabeça fria, no entanto, que nestas alturas nunca perco o raciocínio.
Apliquei todo o meu carinho no gesto de pegar naquele peso-pluma. Um bebé preto, que revelou uma cabecinha esfacelada. Um coraçãozinho precipitando-se para a eternidade.
E foi no mimo das minhas mãos que ele se despediu deste sofrimento. E eu fiquei assim, como estou agora. Mas com a certeza de que fiz o que devia ser feito e que ele partiu cheio de carinho.


Escrevo este post "pesado" com o intuito de recordar a cada um de vós o que o meu instrutor de condução costumava frisar: um carro é uma arma que temos nas mãos.

13 comentários:

Maria disse...

Há posts que eu não sei comentar.
Este é um deles.
De qualquer forma te digo que, na cidade, nunca tal me aconteceu. Chego a parar o carro para o bicho (cão ou gato) se escapar.
Mas já me aconteceu na estrada, em auto-estrada. Ia tendo um acidente por causa de um cão que, repentinamente, se atravessou vindo do nada, e eu para me desviar dele fiz um 'ésse'. Ou dois, já não sei.
A partir desse dia ficou claro para mim que não faço mais 'ésses'... o que resta como hipótese não me agrada, mas ter um acidente ainda me agrada menos...

Beijinho

p.s. Na autoestrada não se anda a 40 nem a 50, e travar a 100 ou 120 não é brinquedo...

Isamar disse...

Um texto que me comoveu muito.Um gato, um cão são seres vivos que merecem a nossa atenção, o nosso cuidado e minorar-lhes o sofrimento é uma obrigação. Nem sempre assim acontece e recordo que nesta altura do ano vejo muitos animais atropelados e muitos mais abandonados.Infelizmente!

Beijinhos

Bem-hajas!

Carlos Albuquerque disse...

Não considero este post nada "pesado". Quanto mais assim se escrever, mais se alerta para que não se deixe adormecer a consciência cívica em cada um de nós. Já me aconteceu, por várias vezes, mesmo em auto-estradas, ter que evitar o choque com animais. E,já agora,aqui fica o apelo para que os automobilistas, como nós, respeitem as passadeiras para peões!
Dois beijos

Gi disse...

Eu tive a ventura de salvar a que ficou depois minha gatinha de um fim desses.
Alimentei-a a seringa; ainda nem abria os olhos e foi colocada no meio da estrada para morrer.
Essa minha gata foi das experiências mais enriquecedoreas que tive. Tratava-me como filha e eu como mãe dela ... igualzinha em direitos e deveres como os meus filhos.
Sei, perfeitamente, o que vou sofrer se um dos meus filhos partir desta vida antes de mim, como aconteceu com a minha gatinha.

Si disse...

A única vez que isso me aconteceu - com um cão - tinha a carta há pouquíssimo tempo, ia sózinha e a baixa velocidade porque já estava a chegar ao meu destino - pura e simplesmente congelei dentro do carro parado, como o coração quase a sair pela boca fora. Valeu a sorte de, neste entretanto, o bicho recuperar e correr desenfreado para longe dali...

Antonio saramago disse...

Muitas vezes é inevitável, mas também é verdade que muita gentalha até tem prazer em atropelar um animal, mas para esta gente é bom ficarem com o carro danificado, pk são eles a terem de acartar com as despersas.
Logo um gatinho que tão inocentinhos são!!!

AnaMar (pseudónimo) disse...

aconteceu-me parar, procurar a mãe e trazer o gatinho para casa. Parecia até que tudo estava bem, mas nessa noite ele miou muito, adormeci com ele no meu peito e senti que a vida se esvaia daquele corpo minusculo. E eu sem nada poder fazer.
Fartei-me de chorar e não sei se o que fiz foi o mais certo.

Bjs

Fernando Santos (Chana) disse...

Olá, belo texto...Espectacular....
Beijos

Anónimo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Felizmente nunca me aconteceu uma coisa dessas. Não sei como reagiria. Espero continuar sem saber

Maria, Simplesmente disse...

Pois é Filoxera. Todos os dias vemos o que nos faz doer o coração.

Respondendo ao seu comentário sobre aquela fotografia "As cores que me legaste", são cores que me habituei a ver, desde que nasci, num quadro pintado a óleo por minha mãe.
Esse quadro está sempre na minha frente, parece-me que a casa não é casa se ele não estiver ali.
Obrigada
Beijos
Maria

Vieira Calado disse...

Também assisti a uma cena dessas.

Até escrevi um poema

que está num dos meus livros...
não sei já qual...

Bom fim de semana.

Bjs

Sofá Amarelo disse...

Ainda há uns tempos disse que um dos teus textos foi o mais lindo que li na net... mas tenho que alterar isso agora... é difícil comentar... só consigo expressar algumas lágrimas, não só pelo gatinho (tb vou postar uma coisa sobre um gatinho em breve mas este com mais sorte!) como pela tua atitude... e dizer-te: OBRIGADO!!!

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