16 fevereiro 2009

O amor surge quando não se espera

Todas as tardes, no regresso casa, Bruno passava na padaria que elegera como a sua favorita pouco após a mudança de casa.
Nos primeiros dias, ainda não conhecendo as diversas opções em redor, deixou-se levar pelo improviso, comprando o pão hoje aqui, amanhã ali. Não tardou em concluir que na pastelaria mais próxima de casa o odor a fumo entranhava-se nos produtos e que no café pequenino, de clientela mais antiga, a qualidade não era grande coisa. Bolos com travo a limão, pão sem sabor…
A prospecção das imediações continuou até ao dia em que se deixou surpreender pelo paladar delicioso das bolachinhas sortidas duma pastelaria com secção de padaria e fabrico próprio diário. O próprio pão era de uma maciez saborosa que se derretia na boca da mesma forma que os bolos. Um prazer que quase extravasava a todos os sentidos, uma verdadeira tentação. E a preços sensatos, o que era caso raro.
A vizinhança cria laços, e a simpatia reforça-os. Com o passar dos dias, Bruno foi passando de dois a três dedos de conversa com as empregadas da pastelaria.
- Hoje temos daqueles bolinhos de coco acabadinhos de cozer!- anunciava-lhe Fátima num dia.
- Ah, assim não posso dizer que não; eu bem tento nem olhar para a montra!
Ou:
- Bom dia, Isabel. Então os seus meninos, já lhes passou a virose?
- Ah, já são águas passadas!- e, de bónus, Isabel acrescentava duas bolachinhas de manteiga ao embrulho desse dia.
Noutra ocasião:
- Então e que mais, não que os mini-croissants também cairiam bem nesse lanche?- indagava Inês quando, numa manhã domingueira, Bruno contou que teria visitas para a tarde.
Mas, para Bruno, eram os sorrisos de Inês, as suas sugestões que o faziam, acima de qualquer outro motivo, voltar ao estabelecimento mesmo quando ainda tinha pão congelado. Discretamente, observava cada movimento delicado das suas mãos, tentava entrever uma especial simpatia nos comentários que se alongava a cada dia, uma atenção especial apenas dirigida para ele, da mesma forma que com ela os seus sorrisos se abriam mais e de modo mais franco.
- Então, está para receber um presente hoje?
- Eu? Porquê?
Inês vestia o casco de malha pelo avesso. Não havia dado pelo facto até Bruno lho mencionar.
-Ah, que distracção! Bem, pode ser que me dê sorte…
Passou o dia de folga de Inês e, quando tornaram a dialogar na véspera do dia de S. Valentim,
- Hoje levo quatro bolas de mistura
Ela lembrou-se de comentar:
- Sabe, há dias não tive prenda nenhuma. Andei tanto tempo com o casaco do avesso e não tive sorte.
- Ainda vai ter. Vai ver que ainda terá.
- Está bem, depois eu digo-lhe, se tiver.
No dia seguinte, Bruno não vinha sozinho na sua tradicional compra diária. Com ele, trazia um ramo simples, tendo como base um girassol.
Disse-lhe:
- É para si, Inês.
- Para mim?- engasgou-se ela, surpreendida pelo gesto inesperado de um cliente que achava uma simpatia e muito atraente.- Obrigada!
- Tem um cartão.
Ela leu-o. Um convite para um lanche a dois.
E, desta vez, não seria ela a ter o trabalho.

15 comentários:

Patti disse...

E felizmente ainda há Brunos ...

Maria disse...

Amor. Tudo o que a gente precisa...

Beijinho, linda!

BlueVelvet disse...

Baunilha e chocolate?
Beijinhos

Gi disse...

Felizmente, o amor acontece.

De Amor e de Terra disse...

Olá minha linda, boa tarde.
Gostei MUITO!!!
Doce, sereno,sem lamecha; prendeu-me.

Parabéns!

Bj

Maria Mamede

1/4 de Fada disse...

Uma história bonita e cheia de esperança. Adorei.

Sofá Amarelo disse...

Hum , viva, o regresso da escrita, que bom, e que escrita, e que historinha... com sabor a côco, os meus bolinhos preferidos... quero saber onde é... e também vou vestir um casaco do avesso, quiçá aconteça algo...

Muitos beijinhos!!!

AnaMar (pseudónimo) disse...

Belo...o nascer de um amor? Ou de uma bela amizade!
Bj

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Afinal sempre teve o presente. Mais vale tarde...

Iris disse...

O amor é uma caixinha de surpresas,
Quando se tira a tampa solta-se.
Quem estiver aberto a recebê-lo,
Terá a felicidade de o sentir...

Parabéns Filoxera

Lindo texto, lindo sonho

Vieira Calado disse...

Passei para ver e ler as novidades.

Deixo beijoca

Antonio saramago disse...

Será que o Amor é um impulso?

elvira carvalho disse...

E o amor baila nos olhos do Bruno...
Bonita história.
Um abraço

Carla disse...

afinal a sorte nem sempre foje...que bom que assim é!
beijos

Anónimo disse...

Escreves tão bem. Adorei!

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