18 dezembro 2008

A calçada estava tão limpa, a rua tão vazia, que o passo apressado não obstou a que os olhos reparassem naquele lindo rectângulo vermelho, ali repousando no frio das pedras.
Não tinha por hábito recolher nada do chão. Ainda sentia as palavras proferidas na infância pela mãe: do chão só se apanha dinheiro ou ouro.
Mas foi um ímpeto incontornável. O apelo vermelho finalmente na sua mão, foi virado, revelando uma surpresa. O sobrescrito tinha remetente, havia escrito um endereço de um destinatário, mas o seu interior estava vazio.
Um envelope lindo, escrito com uma letra cuidada, sem conteúdo. Alguém pegou num montinho de correspondência e foi aos correios, sem se dar conta que este caiu, pensou.
Lamentável. E a coincidência da época, em pleno meio do mês de Dezembro, não deixa espaço para lamentações. Num rasgo quase de necessidade, decidiu, de rompante, fazer uma boa acção.
Aquele Bruno não ia deixar aquela Lara sem uma surpresa natalícia. Ela própria se encarregaria disso. Afinal, tinha as moradas e, a roer-lhe a vontade, aquele bichinho que rumina surpresas e boas acções.
Pensou, ponderou as diversas opções, fez um esforço mental para se recordar do que a faria sorrir. Não queria despachar o assunto sem um toque diferente, nem demorar tanto tempo a tomar uma atitude que esta pudesse chegar apenas após o Natal.
No dia em que foi ao balcão dos correios, pois percebeu que a franquia seria um pouco acima da habitual, sentiu-se especial. Saiu de lá com um sorriso tão brilhante quanto secreto, pensando na reacção da Lara quando abrisse a carta do Bruno e de lá retirasse uma flor de Natal, uma estrela de papel em origami, um cartão natalício com dois bonecos de neve tão ternos que só visto, escrito com tinta dourada e rematado com beijos. Tudo envolvido em estrelinhas minúsculas, brilhantes, que se derramariam no seu colo assim que ela abrisse a surpresa, recheada das mais ternas palavras e preparada por uma estranha. Uma estranha cheia de vontade de embelezar vidas.

(p.s: esta imagem não é minha; alguém muito especial fez-me esta surpresa hoje: encheu-me de flores)

13 comentários:

Maria disse...

És linda.....

Beijos

Carminda Pinho disse...

Belo conto de Natal.:)
Bjs

Gi disse...

Lindo! És uma romântica;
Eu sou mais terra-a-terra e começo logo a pensar em possíveis consequências desse acto. ;)
Mas é Natal, não é?

O Profeta disse...

Sabia apenas que era um pequenino naquela longa noite
No celeste um luminoso sorriso me chamava
Lançou-me aos olhos raios de deslumbrante luz
Era a minha prenda, uma brilhante…Estrela Alva…
Um Mágico Natal para ti querida amiga que ao longo deste ano me visitaste. Que a Estrela Alva te ilumine neste Natal.
Mágico beijo

BlueVelvet disse...

Que conto mais lindo.
Tens que contar esta história ao Vasco.
Que bom que a tua inspiração voltou.
Adorei.
Beijinhos, amiga

Si disse...

Fluída, imaginativa, inspirada nesse condão de abrilhantar vidas e de lhes dar o calor necessário que duma escrita a quente sai.
Gostei imenso
Beijinhos

elvira carvalho disse...

Bonito. Mais do que a escrita o gesto nela descrito e de uma beleza sem par.
Um abraço

Patti disse...

Estrelas minúsculas e brilhantes no meu colo? Vou já abrir a minha caixa do correio, para ver se também tive essa sorte.

É esta a beleza positiva do Natal.
Seja assim todo o ano.

zito disse...

Belo conto de Natal.....
Na era dos sms e e-mail o romantismo felizmente nao morreu...
Bom Natal

Meg disse...

Filoxera,

Este é um conto comovente pelo desenlace, que imagino muito feliz.
Mais uma bonita história das tuas.

Um abraço

Pena disse...

Linda Amiga:
Um texto soberbo de beleza e ternura imensas. Lindo. Doce!
Revela uma sensibilidade apurada na escrita que faz admiravelmente.
"...Pensou, ponderou as diversas opções, fez um esforço mental para se recordar do que a faria sorrir. Não queria despachar o assunto sem um toque diferente, nem demorar tanto tempo a tomar uma atitude que esta pudesse chegar apenas após o Natal.
No dia em que foi ao balcão dos correios, pois percebeu que a franquia seria um pouco acima da habitual, sentiu-se especial. Saiu de lá com um sorriso tão brilhante quanto secreto, pensando na reacção da Lara quando abrisse a carta do Bruno e de lá retirasse uma flor de Natal, uma estrela de papel em origami, um cartão natalício com dois bonecos de neve tão ternos que só visto, escrito com tinta dourada e rematado com beijos..."

Lindo. Lindo. Lindo.
Fico feliz.
Beijinhos amigos mais descansados de respeito e forte estima pelo seu sensível talento fascinante.
Cordialmente...Feliz Natal para si e para os seus!

pena

Sofá Amarelo disse...

Sento mesmo o cheiro a Natal ao ler o teu conto tão terno... é tão simples dar um pouco de nós aos outros... não custa nada e as palavras soam como estrelinhas...

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Belo conto de Natal. Era bom que houvesse mais Natais...

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