16 agosto 2016

Foi há três anos


Era a mais carismática das filhas do Sr Champlon.
Deixou-nos faz hoje três anos, mas gozou oitenta e um duma vida cheia.
A audácia que a fazia levar cobras de rio para casa na infância, fê-la, já adulta, percorrer o mundo sem falar qualquer idioma estrangeiro. A determinação que a levou por terras recônditas dum Portugal estagnado para ensinar as artes das linhas com que as senhoras cosiam, foi a mesma que lhe serviu de trincheira no combate contra uma doença que ameaçava levá-la em curtos meses. 
A nossa proximidade era inversa à diferença etária. Tínhamos uma cumplicidade que raras tias e sobrinhas terão. Não deixámos nada por viver, fizemos tudo quanto podíamos, juntas: viajámos, desabafámos, rimos, chorámos, pregámos partidas, desentendemo-nos, planeámos, concretizámos. A nossa verdade era crua; o carinho, espontâneo.
Podemos não ter sido as melhores tia e sobrinha do mundo. Fomos o melhor que soubemos.
Não venham dizer que está em cada boa memória; eu sei que está. Mas às vezes, lamento não a ouvir gargalhar, nunca mais.




2 comentários:

Rogerio G. V. Pereira disse...

Há vidas, assim, cheias
Três anos?
Quando mais tempo passa
mais as lembramos...

Elvira Carvalho disse...

Sem palavras que mitiguem a sua saudade, deixo um abraço e saio emocionada.

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