06 março 2008

Terrorista encantadora


Assim que chega, apressa-se a ir abrir o frigorífico.Se não alcança os iogurtes, na primeira prateleira, clama imediatamente por ajuda. Na sua língua, o bebês.
Uma vez na posse de um desses almejados potinhos, dirige-se à gaveta dos talheres, cujo conteúdo ainda nem sequer consegue abranger com o olhar, por se encontrar acima da sua estatura.
A ingestão é acompanhada de diversoas exclamações e movimentos sucessivos. Parte perde-se no percurso entre o boião plástico e a boca. Outra parte é voluntariamente comida à mão, que ela teima em mergulhar na embalagem em desafio constante aos ralhetes. Se a limpeza tardar mais que uns segundos, já a mão deslizará pelo cabelo, deixando um rasto branco.
Uma vez, esqueci-me de fechar devidamente a porta da máquina de lavar roupa. Resultado: comidinha lá para dentro.
Caso a tv esteja ligada, inevitavelmente exclamará uns tantos "óia!", e dançará sempre que a música se fizer ouvir.
Começa a magicar onde aplicar a sua energia inesgotável. Opta por abrir o armário onde guardo o cesto das molas da roupa e espalha-as pelo chão. Passados segundos, vira-se para o armário dos tuperwares. Nova razia. Se a mesa infantil onde o iogurte foi lanchado ainda apresentar resquícios deste, será boa ideia sujar neles as caixinhas agora desarrumadas.
O micro-ondas, com os algarismos reluzentes e o pi-pi-pi-pi é uma tentação... Tenho de desligá-lo da tomada.
Os pés já estão resguardados há demasiado tempo para o seu gosto. Num ápice, descalça sapatos e meias. É tempo de arrefecer os pés, correndo por aí.
"Anha, anha", diz, puxando-me pela mão. Quer que lhe dê o telefone móvel e a deixe brincar com ele. "Não, isto não é um brinquedo". Contesta, choramingando enquanto diz "mê" ("meu", em bebés).
A seguir é a vez da "áua, áua". Dou-lhe, num copo com pegas de ambos os lados, um centímetro de água. Bebe-a e pede mais. Mais um centímetro. Entorna-o imediatamente.
Apanha o seu bebé e brinca a colocar-lhe e tirar-lhe a chucha. De repente, atira-o para o lado e arrasta um tamborete para os pés, ao encontro do móvel da sala. Inclina o corpo sobre ele e alça uma perna. Novo impulso e é a outra perna que sobe. Primeiro de joelhos, depois de pé sobre o banquinho, carrega no botão que liga a aparelhagem. Roda os botões do volume e das estações de rádio. Carrega nos de ejectar cassetes e entretém-se a fechar e a abrir os compartimentos destas.
Aproxima-se do irmão, no sofá, e atiram para o chão as almofadas. É hora de trepar às costas do sofá. Próximo alvo: o quadro pendurado na parede, por cima do sofá.
O irmão puxa-a, receoso que ela se atire repentinamente para trás ou consiga fazer cair o quadro. Ela arranha-o. Ambos choramingam.
Se ele se lembra de ver desenhos animados, ela desliga a tv sistematicamente. Se ele quiser uma bolacha, ela quererá outra. Meia comida, meia semeada ao acaso pelo chão.
Faço-lhe a vontade, ligando a música. Dança. Bracinhos no ar ou atrás das costas, as palmas viradas para cima, um avião. Roda sobre si própria. Afasta as pernas até cair. Risos, cantorias, guinchos. Sempre no volume máximo. Palminhas.
Volto a calçá-la, pela enésima vez. "Não", diz ela, enquanto esperneia num tentativa de me sabotar a manobra. Volta ao chão, sapatos nos pés, ainda. Enquanto vou à cozinha, não só sobe novamente ao tamborete como se prepara para deitar uma caneta para dentro do aquário, pelo orifício por onde alimentamos os peixes.
Depois de preparar a água e a roupa, pego nela ao colo e digo-lhe que vai para o banho. Festa! Uma vez na água, pede a escova de dentes; não fala. Limita-se a fazer o gesto. Ao banho, segue-se uma série de rituais que, se não cumpridos, dão origem a contestação esganiçada.
Quer jantar sem ajuda, derramando sempre uma parte do conteúdo da colher. Quando se sente saciada, exclama: "cá cá!", ie, já está. O que não invalida que depois não vá rapinar o jantar do irmão ou debicar do nosso. Enquanto jantamos, são sucessivos os puxões do meu braço e as tentativas, às vezes bem sucedidas, de vir sentar-se ao colo.
Sempre descalça, desarruma, canta, pede, anuncia "cocó". Ainda nunca o fez no bacio, mas como há que estimular, dá-se-lho. Senta-se, levanta-se, circula de rabinho ao léu, até que se lembra que o bacio pode muito bem servir de chapéu. Enquanto não houver conteúdo, não haverá problema...
Quando a recriminamos por algum disparate, desarma-nos com um sorriso maroto.
E continua numa sucessão constante de disparates, até cair no sono: desclaça-se mais uma vez, arrasta, desarruma, salta em cima do sofá, entorna, mexe onde não deve, desafia constantemente o perigo. E sai quase sempre vencedora. E descalça, claro.
É assim a nossa pequenita, uma terrorista encantadora.

15 comentários:

Maria, Simplesmente disse...

Encantadora e lindíssima, uma autêntica boneca de caixa...mais ainda porque tem vida, muita vida!...
Pode "babar-se toda" porque tem razão para isso!...
Bj
D
Maria

Maria disse...

É uma encantadora menina que às vezes faz diabruras... ainda bem que é "terrorista", é bom sinal...

Beijinhos

Carminda Pinho disse...

O que eu me ri a ler este teu post
cheio de ternura.
É claro que me vieram à memória as traquinices dos meus, especialmente o do meio que já tem 26 anos mas que às vezes ainda dá o seu ar de "terrorista".
Amiga, eles são os maiores tesouros que a vida te pode dar.

Beijinhos

Blue Velvet disse...

Grande terrorista de facto!
E a dos iogurtes sou testemunha...e o meu sofá também.
Um doce!
Ela e o post.
Beijinhos e veludinhos, amiga

Sophiamar disse...

Que ternura! Só te posso agradecer por teres partilhado connosco estes momentos passados com a tua pequerrucha. Em bebês falando é um "quida bebé"

Beijinhos para ti e para os teus dois grandes amores

Maria, Simplesmente disse...

Obrigada o seu comentário.
Não é só ao património público mas também ao privado, e enquanto aquele sai dos nossos impostos, o privado é porvezes de difícil recuperação pois pintamos num dia e no seguinte está talvez pior. A limpeza é caríssima, por isso mesmo vamos deixando degradar por falta de dinheiro.
E nãp são só os lugares chamados "problemáticos". São todos.
Bj
Maria

Blue Velvet disse...

No Dia Internacional da Mulher, beijinhos para ti que és uma Mulher a sério

Tiago' disse...

Os bebés são a alegria de uma casa, sempre... é neles que oriento o meu futuro, e que nas alturas menos boas penso hoje "o melhor ainda está para vir"... :)

Beijinhos para ti e para a tua filha,
Tiago'

Outonodesconhecido disse...

ENCANTADORA A TUA PEQUENINA E O TEU POST TAMBÉM. NÃO LHE CHAMES TERRORRISTA, ANTES ENDIABRADA.
BOA SEMANA

De Amor e de Terra disse...

Que bom ler-te Amiga!
E que bom saber a tua pequenita!
Beijos e até sempre.

Maria Mamede

JOSÉ NEVES disse...

FABULOSA esta história real, toda esta traquinice é sinal de vitalidade, são momentos que mais tarde farão recordar a vivência da pequenota.

Parabéns pelo texto, fez-me voltar atrás no tempo,

ADOREI.

Beijos e felicidades para a Terrorista encantadora.

Alexandre disse...

Tens aí uma menina encantadora com uma força que a tornará uma vencedora! Sei o trabalho que deve dar, os meus nunca foram assim tão mexidos mas as crianças são diferentes umas das outras e também conheço algumas que eram assim e depois mais tarde ficaram super calminhas!

A personalidade das crianças é algo fantástico!!!!

Muitos beijinhos!!!

António Inglês disse...

Ora, o que essa traquina quer é atenção seja ela de quem for... e é bom que assim seja.
Eu cá por mim, nunca esqueci os meus filhotes, e são cinco, hoje já crescidos, até porque os netos e as netas fazem questão de nos lembrar...
Mas é sempre assim, se eles estão muito parados é porque estão doentes, se mexem muito é porque são hiper-activos...
Eu cá por mim gosto de os ver traquinas...
Uma boa semana
António Inglês

Oliver Pickwick disse...

É de fato uma terrorista encantadora. Mas, seja cuidadosa, Filoxera! A mantenha longe das vistas do FBI.
Beijos, e parabéns pela garota esperta!

Maria Jose disse...

Pois... Parece mesmo um anjinho...mas é só pra enganar aquela carinha... Vai-se a ver e...

Beijo grande pra bonequinha linda...

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