22 maio 2007

Os seus passos não ecoavam; quando se caminha num jardim, a relva não devolve o compasso da passada.
O seu ritmo foi aumentando até atingir uma velocidade qque o coração tinha dificuldade em acompanhar. Já não era uma caminhada, mas um esboço de corrida que o afastava. Era a sensação de ter a percepção da esfericidade do mundo, o avançar para um ponto em que, em vez de se delinear em frente, tendia a sugerir-se projectado, mais em baixo, na elipse côncava dos metros seguintes.
Mais adiante deter-se-ia para despejar o pranto, não já, não enquanto permanecesse no horizonte de qualquer outro ser humano.
As más fases da vida, tinha-as mastigado sempre, como quem cortêsmente deglute aquela entrada indecifrável que abre um jantar de cerimónia em ambiente polidamente impessoal. Mas esta não era outra má fase; era a condenação da existência, o estapafúrdio do impensável.
Tinha de esgueirar-se, cuspir essa dor e anular-se a si próprio. Sem poder suspender indefinidamente a respiração, como viver com aquele acontecimento, com o telefonema sombrio, com a perda inqualificável?
Grita, corre, acelera, gesticula, impelindo-se em porquês chorados.
Em redor, o verde da paisagem inalterado. Alheia aos prédios distantes, uma papoila baloiça ao som do vento, acompanhada a curta distância por margaridas e outras papoilas.

(escrito perto da 1h)

7 comentários:

Anónimo disse...

Já vi ou melhor li, grandes livros, de quem sabe grandes escritores, que acredito começaram talvez mais ou menos assim...

Anónimo disse...

Já pensaste em escrever um livro ?
Escreves tão bem...
Por que não ?!...

Anónimo disse...

Eu também estou á espera dum livro
e. Para quando o começo?

Anónimo disse...

Amiga se soubesse como a compreendo!...
DA

a.filoxera disse...

Ao/à anónimo/a de 22 Maio: Vou buscar um lençol. Babo-me com as tuas palavras...

a.filoxera disse...

Aos/às anónimos/as de 23 e 24 Maio: Outro lençol, por favor!
Claro que já pensei, até já o idealizei. A ver vamos... Falta o recolhimento necessário.

a.filoxera disse...

À anónima de 24 de Maio, às 11.58: Ficção, minha amiga; pura ficção...

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