15 dezembro 2008

Desafio da Gi

Naquele tempo, a minha mãe tinha uma loja em Paço de Arcos, de modo que, quando o comboio lá parava, não era só o café para a minha mãe que comprávamos no quiosque da estação, mas também as queijadas de leite e as revistas infantis.
Foi através do Fungagá da Bicharada e da Heidi que a minha mãe me incutiu o desejo de aprender a ler.
Lia para mim nos momentos mortos na loja e, já em casa, enquanto preparava o jantar. E dizia que, assim que eu aprendesse a ler, poderia entreter-me sem ter de estar sujeita à sua disponibilidade.
O meu pai trazia-me, das bancas da estação do Cais do Sodré, os almanaques Disney: Patinhas, Pateta, Donald e, claro, Mickey. Preocupava-se a minha mãe, pois na época estes eram importados do Brasil e o seu receio era que eu começasse por ler justamente obras que referiam “bala” em vez de “rebuçado”, “ónibus” em vez de “autocarro”, “vovó” quando se tratava de uma avó, etc.
A teoria do meu pai era diferente; o que interessava era a miúda ganhar o gosto pela leitura, depois haveria de expandir as suas predilecções e fazer a triagem dos diferentes modos de escrita.
Vieram outras bandas desenhadas, a Mafalda, os Strumpfs e outras menos conhecidas.
As Fábulas de la Fontaine, Uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma, da Irene Lisboa e O meu pé de laranja lima, do José Mauro de Vasconcelos. Começava a deitar a mão a um livro por sistema, para viajar na minha imaginação infantil de filha única, que, na prática, era o que eu acabei por ser.
Se ia passar um fim-de-semana a casa da minha tia, perguntava-lhe: Ó tia, não tens aí um livrinho para me entreter?, ao que ela, que só conservava antigas obras de literatura mais madura, me respondia: Não, não me lembro de nada. Olha, só se pegares no jornal.E eu assim o fazia. Mas ela arrependia-se; é que não parava de lhe perguntar o significado desta e daquela palavra.
Vieram os livros da Anita, mas lia-os sem grande interesse. Um dia descobri Alice Vieira. E foram Rosa, minha irmã Rosa, Lote 12-2º frente, Chocolate à chuva, A espada do rei Afonso, Este rei que eu escolhi… Saboreei-os com um gosto tão especial que ainda hoje tenho o maior carinho por eles. Até a minha mãe gostou de lê-los. Aqui, já numa troca de papéis: fui eu que lhos aconselhei.
Mais tarde, Os Cinco, pois claro, e As Gémeas, mas estas colecções não as tinha; eram livros emprestados. De amigos ou da biblioteca itinerante.
E a Sue Towsend, com o seu Adrian Mole e sequelas, mais uma vez risadas minhas e da minha mãe.
Esta dissertação sobre leituras de infância foi-me proposta pela Gi, que fez também a apresentação das suas obras de referência e passou a ideia a outros bloguistas. E eu passo-o à Blue Velvet, que adora estes desafios, à Pitanga, sempre inspirada, ao Tiago, que deve estar quase, quase a ter mais tempo, com as férias natalícias, ao António, que nunca se poupa a pesquisas quando um tema lhe merece consideração, ao Jo Ra Tone, que tem uma forma muito própria de elaborar uma história em torno de quase nada, à Pipinha, para quem tudo é terura e à Fada, pois sendo professora e fada terá, certamente, muitas leituras a recordar num exercício como este.

15 comentários:

BlueVelvet disse...

Fizéste-me rir com este post, o que não é coisa pouca.
E recordar.
Dar-te-ei a resposta, sim.
Beijinhos, amiga

Maria disse...

Ainda guardo todos os livros dos Cinco! Há mais de 40 anos...

Beijinhos e boa semana

(já respondi ao teu desafio lá)
(finalmente!)

1/4 de Fada disse...

Desafio aceite, claro! este é dos mais giros que já vi. Partilhamos algumas leituras, mas a maior parte são diferentes, vai ser engraçado... Alguns dos teus livros de infãncia li-os já adulta :) e adorei!

São disse...

Muito giro, sem dúvida!
Um abraço.

Antonio saramago disse...

Como é bom o teu lado de diversão com as criançadas e crianças.
Estás com todo o espirito Natalicio dentro dee ti...

elvira carvalho disse...

O primeiro livro que li sem ser o livro escolar, devia ter os meus dez anos e foi A Rosa do Adro. Meu padrinho emprestou-o ao meu pai, ser irmão e eu li-o. Depois, foi o Amor de Perdição, pela mesma via, e depois, comecei a ir buscar livros à biblioteca itenerante, uma camioneta, que aparecia na Seca, de 15 em 15 dias.
Penso que nunca li um livro infantil. Pelo menos que me lembre, só quando o Pedro era menino, que comprei uma colecção, para lhe ler ao adormecer. Mas eram os contos tradicionais. O gato das botas, o lobo Mau, Pedro e o Lobo, cinderela etc etc.
Um abraço

Antonio saramago disse...

Fui buscar o teu espirito natalicio, pela tua alusão aos livros da Criançada, nada mais, mas se não tens muito esse espirito, então junta-te a mim, pois também não é das coisas que mais aprecie, muito embora não desgoste de todo...

Pitanga Doce disse...

Ah meninas! Que sorte vocês tiveram nas suas infâncias com tantos livros assim!
Lá em casa éramos tres filhas e eu a mais nova. O que vinha para mim era o que sobrava das irmãs e como elas não gostavam de ler...
Minha mãe nos distraía ensinando-nos a bordar. Comprava tecidos já riscados e eram, assim as nossas férias. Quando eu, queria ler, pegava as redações que havia feito na escola e as lia novamente.

Meu pai tinha livros mas eram sérios demais para minha idade. Obras completas com volumes encadernados e um peso além do que uma criança poderia segurar.

Só lembro-me de ter lido Cazuza de Viriato Correa, porque foi pedido na escola.

beijos meninas
beijos Filoxera

Meg disse...

Filoxera,

De certo modo comovente esta viagem à infância através da literatura infantil.
E de repente acordaste muitas recordações esquecidas no tempo.

Um beijo e boa semana

jo ra tone disse...

Filoxera,
Obrigado pela passagem do desafio, e como vês dou sempre a minha volta ao jardim para saber novidades.
Olha, os livros que li quando era mais pequeno lembro-me por exemplo do inesquecível Pato Donald & companhia,Romances: A mulher de olhos abertos, Moliére, O terceiro ano no colégio das quatro torres e uma vasta colecção dos livros de bolso da "caminho" emprestados pelos primos.
Agora leio outros mais difíceies de entender.
Beijinho

Patti disse...

Tantos do que falas, são também os meus.
E tenho ainda, todas essas revistas da Heidi, que esperava cheia de excitação todas as semanas, na papelaria da esquina.

A Alice Vieira e o Adrian Mole, já não são da minha geração, mas são também intemporaris pois a Beatriz tem e gosta muito.

Gi disse...

Também li muitos dos que aqui postas. No fim de contas, só agora a geração dos mais pequenitos, tem outros livros à disposição.
Apesar de eu ter os livros dos 5 todos, os meus filhos nunca os quiseram ler; as aventuras que leram já foram outras; afdoraram os livros da rua Sésamo, por exemplo.

TeddyLover disse...

Olá. Obrigada pela visita. Esqueci-me da Heidi no meu post, conforme esqueci alguns outros que tenho vindo a relembrar ao lêr os posts dos convidados da GI.

Paulo Cunha Porto disse...

Querida Filoxera,
gostei muito de conhecer este Teu Espaço em que se está tão bem...
Vejo que temos em comum a Disney e Os Cinco...
E sim, lembro-me também da preocupação da minha Mãe, que em solteira ensinara Português, com as discrepâncias vindas do Brasil. Ao que o meu Pai respondia: " e nós, com as telenovelas?".
Beijinho

Sofá Amarelo disse...

Os 5 fizeram de mim literariamente aquilo que hoje sou... acho eu... nunca vi o Sofá a ler... e muito menos um sofá amarelo, mas pronto...

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