26 junho 2014

Apresentação de "Horas de Água"


A minha amiga Maria João Martins (blogue Pequenos Detalhes) publicou um novo livro de poesia.


 Foi no passado Domingo, em Lisboa, com a editora Lua de Marfim


 Tal como eu, a Maria João acredita que a poesia está na vida.
O segredo, no olhar.


23 junho 2014

Noites com Poemas, na Biblioteca de S. Domingos de Rana

Na passada Sexta-feira, n'As Noites com Poemas, em S. Domingos de Rana, as palavras disseram-se 
e cantaram-se em torno do tema “A canção como mensagem”. 


 O dinamizador, Jorge Castro, ladeado pelos convidados, Rogério Charraz e Manuel Veiga



No ambiente habitual. Uma sala cheia de resistentes, 
que apreciam os encontros cujo principal pretexto é a poesia.


Depois, há a amizade, as emoções. As conversas com este ou aquele amigo. 
Falamos das famílias, dos projectos em curso, da vida.


Fazem bem, serões assim. Onde os abraços se geram nos braços, nas palavras, nos sorrisos.

(aqui, a reportagem completa, no blogue do Jorge Castro, Sete Mares, 
de onde retirei as duas últimas fotos )

05 junho 2014

Arte Mar Estoril 2014

Tal como nos cinco anos anteriores, a exposição Arte Mar Estoril 
encontra-se patente no paredão do Estoril, até ao dia 15 de Junho.


A Barbatana


Cetus


Following the sun


Microrganismo oblíquo


Noah


 Symbiotic Sights


 Pessoa não humana


Kraken


Sem título

Pode votar na sua obra favorita, realizada a partir de materiais sustentáveis,
 enviando um sms grátis.
Clique aqui para saber as condições do concurso.

25 maio 2014

Estou velho, mas não estou parvo!


“Ora vamos lá ver quem ganha hoje. Quem será que tem as mãos mais quentinhas?”
A Conceição vem cá a casa muitas vezes. Ao sábado, já se sabe, é certinho que aparece para almoçar.
E repete sempre isto. Pega-me nas mãos, como se eu não tivesse nada a dizer ou querer, e lá volta a mesma pergunta, que já cheira mal...
A culpa é das minhas filhas. A mais velha habituou-a ao almoço semanal desde que a vizinha ficou viúva e agora quem a atura mais a história das mãos quentes sou eu.
O pior é que ainda tenho de ouvir as minhas filhas dizerem “mas que mal tinha, o paizinho juntar os trapinhos com a D. Conceição?”, como se juntar os trapinhos com alguém fosse coisa que me pudesse passar pela cabeça…
Ora essa! Estou velho, mas não estou parvo!
Então, agora que estou sossegado, com setenta e tantos, viúvo há muitos anos e a viver com uma filha, para que preciso eu duma mulher?
Já vivi o que a vida tem de bom. Nasci no tempo da monarquia, lembro-me da passagem do século e do atentado que matou o rei e o príncipe. Peguei numa arma quando as distribuíram no Monsanto para defesa da república. Casei e tive oito filhos.
Quatro morreram ainda em bebés, uns anjinhos. Ficou-nos o mais velho e três moças, as mais novas.
Depois morreram famílias quase inteiras, quando morávamos em Silves. A tísica andava por aí com tais ganas que quando passávamos frente a certas portas era de esguelha…
Andei por esse país ao serviço da Junta Autónoma de Estradas, como chefe de conservação de estradas.
Havia muita miséria por todo o lado. Aos sábados os pobres vinham pedir à vila de Mértola. Dávamos às gaiatas um pão, que elas lhes entregavam, e eles logo distribuíam entre todos. Os homens apareciam todos os dias a pedir trabalho.
Quando algum morria, fui conseguindo reunir uns escudos para darmos à viúva, que não tinha direito a nada.
Lembro as guerras, os noticiários na rádio e os panos pretos nas janelas, à noite.
A minha Leonilde morreu do coração em 1960. Já não assistiu à coragem do General Sem Medo…
Em 1964, o meu filho, que estava na Lunda, morreu num acidente de carro e nem pude sepultar-lhe o corpo.
Agora passaram 6 anos. Estou velho e já fintei um cancro. Só quero que me deixem viver um pouco mais, em sossego e saúde.
Passear de carro ao fim-de-semana com a minha mais velha, que não casou. Ler e ver alguma televisão. Pouca, que as Conversas em Família deixam-me uma azia cá dentro…
Já não tenho muita esperança de algum dia ver este país mudar de rumo ou de me tornar avô. Mas marido, outra vez? Nunca! Nem com aquela Conceição, com mais rugas na cara que eu, nem com ninguém.
Ora essa! Estou velho, mas não estou parvo!

19 maio 2014

2 anos decorridos sobre a apesentação no Porto



Os apresentadores da obra, José Gomes e Maria Mamede, 
a autora, Sofia Barros, e o anfitrião, Mário Rui Martins.




Albino Santos












11 maio 2014



Lisboa começava na estação de comboios do Cais do Sodré.
Até à minha adolescência, era na capital que as compras se faziam.
Na era ante-shoppings, saíamos da gare ferroviária pelas escadinhas onde os ardinas empilhavam os jornais para venda. Ali se liam primeiras páginas dos diários com notícias políticas, se compravam almanaques Disney ou se miravam os dotes físicos das mocinhas que embelezavam as capas de revistas ditas masculinas.
Um nadinha para a direita, as bancas da fruta, em metal colorido, a par das paragens de táxis.
Era assim que começava a tarde quando tínhamos oito ou dez anos e íamos à Sepordagio ou em busca de roupa para substituir a que já ficava curta.
Eu e a minha mãe atravessávamos a Praça do Duque da Terceira e íamos ao emprego do meu pai para eu poder surpreendê-lo e namorar o navio de cruzeiro à escala, da linha Costa, que recebia os visitantes da Orey Antunes. As conversas desvaneciam-se então, enquanto na minha imaginação aquela réplica passava a navegar no meu quarto, com alguns pequenos bonecos de borracha como viajantes.
Raramente, almoçávamos os três, no Porto de Abrigo, ali numa transversal.
Os percursos eram frequentemente feitos a pé. Por vezes, apanhávamos um autocarro para o centro. As pernas das crianças eram mais costumeiras nestas deambulações que de consumista pouco tinham.
O regresso normalmente premiava o cansaço com uma paragem na padaria Caneças, onde nos embrulhavam pães-de-deus cujo aroma nos acompanhava até casa, numa antecipação gulosa do momento de lhes ferrar o dente.
Fazer uma compra era, então, um programa. Uma tarde com história.

Histórias que ocupam lugar cativo cá dentro. Onde eu continuo a ver o meu pai descer os degraus para vir ao hall de entrada da Orey Antunes receber-nos com o seu beijo perfumado enquanto eu sonhava perante a maqueta dum navio.

02 maio 2014



Arrumámos a imaginação e não voltamos a tocar-lhe com receio do cheiro a naftalina.
Levamos os dias numa sucessão ininterrupta de calculismos.
Aplaudimos os enredos onde a magia impera mas desprezamos as leis do coração.
Acreditamos em cada filme que nos conduza a um milagre, porém, na vida, só a razão nos orienta.
E agora digam-me como podemos educar as nossas crianças se o principezinho não é transposto para o nosso mundo?
De que forma pretendemos ajudar os amigos se desconfiamos da sua fé no que nos parece vazio?
Ambicionamos o carácter excepcional das personagens da literatura, sorrimos a cada verso dum poema, apaixonamo-nos pela imprevisibilidade das narrativas e depois amarrotamos todo este fascínio ao esquecermo-nos que no chão, e sem tecnologia, brincamos muito melhor com os nossos filhos.
De vagar e de mãos se faz a brincadeira, como a paixão.
Deixamos de enaltecer a criatividade e encantamo-nos com gadgets que nos alteram a perspectiva da conexão mais básica a esta grande ordem cósmica chamada universo.
Ignoramos a vida no tempo presente do indicativo projectando ambições no futuro condicional.
Cerceamos as nossas experiências porque absorvemos preconceitos dum mundo que nos quer formatados nos mesmos moldes e padroniza comportamentos e conceitos.
Tememos a condenação pela diferença. O medo quase lei, a tolerância e o sentido crítico quase relíquias.
Queremos o mensurável. Falamos de índices e de valores materiais porque desaprendemos o valor dos humanos, dos animais, dos ecossistemas.
As pessoas crescidas gostam de números, já dizia o herói criado pelo aviador.
Resta esperar que continuem a nascer crianças neste planeta envelhecido e torto.
Para que nunca falte quem nos reconduza ao pôr-do-sol, à observação das estrelas, ao tempo que dedicamos às nossas rosas.

29 abril 2014




Soube há momentos da morte da minha amiga de maior idade.
A Dulce era uma doce senhora. Olhos azuis intemporais e sorridentes, alma de poeta, idade de muito saber e de muito aprender.

Nasceu há mas de noventa anos, no Alentejo interior, onde as meninas educadas em moldes rústicos não estudavam muito. Descobriu aquele sabor especial dos livros e apaixonou-se por eles, como pelas planícies alentejanas.

Os estudos não puderam prolongar-se, mas a imaginação e a determinação impuseram-se. Escreveu muito. Sobretudo contos e quadras de amor à terra. Ainda o fazia, num jornal alentejano local.

Revolucionária sem se aperceber, contrariou as mentalidades bolorentas das suas origens quando, já passados os oitenta anos, “juntou os trapinhos” com um senhor um pouco mais novo.

Perdeu-o contra o tempo, que estava contado para ele.

Estou a vê-la levantar-se no lançamento do meu livro e eu a lacrimejar ouvindo um poema pela sua voz. O seu sorriso gaiato...

No Verão passado, perdeu uma das amigas de mais longa data, a minha tia.

Era Agosto e as lágrimas reforçavam as palavras com que despediu dela, junto ao caixão. Ali recordou tanto, daquela amizade com mais de oito décadas, numa dolorosa despedida que ainda acentuou a tristeza de todos quanto estávamos presentes.

Agora, tenho mais alguém a quem recordar com saudade. E com orgulho.

E lágrimas.

25 abril 2014

25 de Abril, sempre!


Eu era apenas um ano e tal de gente, pequena demais para me aperceber quando o 25 de Abril aconteceu.
Não sabia que o meu pai tinha ido para Lisboa, em busca dos acontecimentos que as notícias diziam revolucionários. A minha mãe, em casa comigo, receava pelo que pudesse acontecer, temendo um volte-face na situação, mesmo alguma escaramuça...
A minha memória dos 25 de Abril subsequentes prende-se com aquele brilho no olhar dos meus pais, com as manif's, com as canções de Abril que me fazem vibrar cá dentro as cordas da emoção e me convocam ao olhar as lágrimas cúmplices dum coração que estremece.
Esta é, para mim, a data. Marca-me de tal forma que a escolhi para criar o Escrito a Quente, há sete anos.
Porque a liberdade é essencial à vida, como escrever se tornou essencial para os meus dias.

23 abril 2014

Páscoa


A Páscoa da minha infância começava quando me sentava na camioneta.
Tantos quilómetros pela frente! Cinco horas até chegar ao Porto. Eu, sozinha, com 5 ou 6 anos, enchia-me de coragem porque sabia que teria tios e primos à minha espera, à chegada.
Os galos ainda se faziam ouvir em Gueifães e acordávamos com o entusiasmo inigualável de quem apenas ambiciona brincar.
É esta a Páscoa que conservo.
R
elato aos meus filhos os dias de brincadeiras na rua, duma primalhada que se estendia por quatro casas. Os longos percursos a pé em que acompanhava os primos/amigos até à confissão, eu, a quem o meu pai me transmitira uma fé profundamente ateia.
A romaria, encabeçada pela minha tia, até ao Porto, onde tinha uma loja de referência e em cuja rua procurávamos toilettes novas para cada um dos meus quatro primos. Eu era também presenteada, sorrindo com tamanha sorte.
Outras vezes, mais crescida, rumava sozinha a casa do meu irmão, para estar com os sobrinhos, da minha faixa etária. Oito, pois então! Para quem foi criada como filha única, não podia haver melhor que estas férias no Porto. Numa casa, era uma entre cinco, com mais uma série de miúdos da família nas vizinhanças. Na outra, tinha o estatuto de tia para oito! (e, rapidamente, para tantos outros, quando as gerações se multiplicaram).
Ainda é esta a Páscoa que sinto nas veias. As séries bíblicas na tv, as missas, a família numerosa. O compasso percorrendo as ruas e nós antecipando-nos à sua chegada, percorrendo as casas numa ansiedade pueril e alegre. A mesma que nos fazia apanhar rãs no charco e trazê-las para casa.
A minha tia, mãe de quatro primos, dona duma loja no centro da Invicta, gerindo tantas funcionárias e responsabilidades, continua a ser a minha imagem da Páscoa. A incansável figura matriarcal, que nos servia um cabrito delicioso e um leite-creme memorável que jamais alguém conseguiu igualar, é a minha referência desta época, como de quase todas as férias.
Se hoje esta quadra me traz gratas memórias, é porque saía dum local onde não havia tradição religiosa e me integrava numa terra onde tudo me envolvia no espírito cristão que fazia desta data mais um motivo de comemoração em família.
Vejo os meus filhos, de sorrisos castanhos de chocolate, e penso que não sabem o quanto a Páscoa já foi mais doce…

17 abril 2014

Parabéns, pai!


Tivemos pouco tempo para rirmos juntos.
Trinta e três anos são escassos, sobretudo quando não sei se nos últimos cinco saberias sempre quem eu era.
São pouco tempo quando se trata dum pai e duma filha.
Quando há um orgulho mútuo, uma cumplicidade que dispensava palavras.
Farias hoje anos. No mês da liberdade. No mês que seria teu até pela data da morte.
São dias de fortes memórias, estes. Entre hoje e vinte e dois.
Continuas a fazer-me companhia. Estás presente na educação que transmito aos meus filhos, nos livros que completam a minha casa, nas recordações das viagens, no meu amor à tua terra natal, o Porto.
Juro que ainda sinto os aromas dos teus perfumes, o cheiro dos tabacos, ouço-te a voz e vejo a tua expressão que mais me marcou.
A celebração do 17 de Abril é menos festiva, mas o seu significado permanece.
Adoraria ter tido mais tempo. Seria emocionante ver-te conviver com os meus filhos, falarmos sobre certas fases desta viagem, poder transmitir-te mais algumas ideias, como fizeste comigo.
Não nos foi possível.
Abraço-te nesse plano da utopia, onde agora estás.
E segredo-te “parabéns, pai!” por tudo o que a tua vida significou para mim, pelo exemplo que foste. Por esta herança que nenhuma fortuna poderia ter valido.

(P.S: Perdi o meu par quando deixaste de poder fazer “a nossa dança”, mas o teu neto faz-me agora companhia nessa nossa patetice :-) )

15 abril 2014

"Antes de Sermos Dia" faz hoje 2 anos


Faz hoje dois anos que o meu livro Antes de Sermos Dia foi publicado.
Deixo-vos um excerto do prefácio, de José Fanha:

"As palavras de Sofia celebram a vida, a luz e o amor. mesmo lidas em conjunto e fora do blogue que as viu nascer, constituem o diário de uma necessidade de amor, amor físico, amor oferecido, roubado, agarrado, retribuído, amor de terra e água, amor integral que seja, como dizia Vinícius, "eterno enquanto dure".
O amor, especialmente o amor sensual, é na nossa literatura muito mais assumido e cantado pelas mulheres que pelos homens. Basta pensar em Florbela ou Maria Teresa Horta.
E é nesse registo que Sofia se situa."



José Fanha, Sofia Barros, Rogério Charraz e Paulo Afonso Ramos


 O auditório, antes do início da sessão de lançamento


 José Fanha, autor do prefácio, apresentadando a obra


Aspecto da sala


Rogério Charraz, que musicou o meu poema Campo Lavrado






José Luís Outono



Beatriz Aquino, lendo "Sou"



Deana Barroqueiro


Emanuel Lomelino





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