15 maio 2007

Descubra as semelhanças- II capítulo

Já passaram mais de sete horas, e eu continuo quente. Sim, a ferver. E garanto que não é no bom sentido... Desta vez escrevo mais a quente ainda.
Porque não posso deixar de estar revoltada com a forma como a chamada política de "protecção no desemprego" está a ser levada a cabo.
Para aqueles que possam não saber (sim, porque convém referir que este blog, parecendo que não, é visitado por centenas de pessoas...), eu sou a desempregada que originou o I capítulo desta saga.
Ainda não comecei a receber as prestações de desemprego a que tenho direito e estou já a ser convocada para uma sessão de esclarecimento e elaboração do meu "plano pessoal de emprego". Que, por azar, coincidiu com a data que estava estipulada para me entregarem e fazerem a montagem de umas estantes compradas há quase duas semanas. Não imaginam as démarches que tive de empreender para alterar a data da entrega... Mas adiante.
Lá vou eu hoje, mais treze desempregados licenciados e recém-licenciados, para a elaboração dessa coisa que, só pelo nome e sobrenome que tem deve garantir saídas profissionais, então não? E assim fiquei a saber, eu, uns recém-licenciados em Sociologia, Agronomia, Psicologia Clínica, Serviço Social e outros licenciados (mais a dar para o júnior ou sénior), em Belas Artes, Imagem Publicitária ou algo do género, Recursos Humanos, Medicina (com especialização em Pneumologia, e que era director de serviço- neste país que diz ter falta de médicos, pasme-se!!!), etc, que somos obrigados a aceitar a integração numa das formações que o centro de emprego promove.
Sei que a esta hora já estão com pressa de fechar este post sem o ler até ao fim, mas por favor, rogo-lhes que continuem; encarem-no como a vossa boa acção de cidadania de hoje.
Assim, são-nos dados a conhecer quais os cursos em questão: Implementação/Gestão de Sistemas de Higiene e Segurança no Trabalho; Gestão de Instituições Sociais; Tecnologias de Informação e Comunicação em Ambiente Empresarial; Gestão empresarial de Micro e Pequenas Empresas.
Após esta informação, cada um de nós é questionado sobre a sua preferência de inscrição. A minha ia, definitivamente, no sentido da 3ª hipótese, que se divide em três vertentes possíveis, sendo minha vontade enveredar pela de Produção Multimédia. Mas resolvo colocar questões que, pela falta de resposta, me fazem pensar que finalmente descobri a minha verdadeira identidade. Filósofos, eureka!: Posso não saber para onde me dirijo, mas sei quem sou: um extra-terrestre! Pois quem mais se lembraria de perguntar a data concreta de início destas acções de formação e o seu horário? Pois...
Fiquei a saber que, não obstante só se saber que o curso começará em Junho (e não o dia ao certo nem o horário), eu tenho de frequentá-lo se demonstrar interesse nele. Independentemente de ter férias marcadas em Junho e de a minha família já não gozar férias há três anos. Na mesma situação estão alguns dos outros desempregados deste grupo. "Mas as formações são interrompidas em Agosto!", diz-nos placidamente a senhora que conduziu a sessão, certamente mais indicada para contar histórias num jardim infantil -dado o tom demasiado brando e condescendente da sua voz- do que para enfrentar um grupo de pessoas com alguma estaleca e formação e de onde parte uma voz que a interpela: "Então, se não me sabe dizer ao certo a data e o horário, será que me pode dizer em que é que a minha situação difere da de uma pessoa em liberdade condicional?". Que estamos a receber o subsídio (mentira, eu ainda nem vi o meu, mas enfim...), que os desempregados não podem ter férias, etc. Claro que não só ouviu logo a minha resposta "Se estou a receber é porque também já descontei muito" como também se levantou de imediato uma série de comentários, uns mais em surdina que outros, sobre a fantochada a que somos sujeitos. Confesso que actuei como rastilho desta revoltazinha...
Houve uma série de questões pertinentes que foram colocadas, mas não desenvolverei para que não desistam desta leitura.

As conclusões: não só acabámos por escolher cursos que terão início em Setembro (na esperança de que, até lá, surja um emprego) como acabámos por abrir mão do que pudesse ter mais interesse para cada um de nós, já que as famílias não têm de sofrer ainda mais com a situação em que nos encontramos. Aprendemos ainda que a prova de busca activa de trabalho tem de obedecer a métricas em função da faixa etária: no meu caso, terei de comprovar que respondo a seis anúncios de emprego por mês ou, na falta de tantos, compenso em número de candidaturas espontâneas. Mas como, daqui a três meses, começo a passar da validade para procura de emprego, a obrigatoriedade baixa para cinco.
A não obediência a estas exigências implica a perda do subsídio de desemprego.
Nisto consiste o nosso plano pessoal de emprego, grosso modo.

Expliquem-me como se eu tivesse três anos: é por falta de formação que este grupo de cidadãos se encontra no desemprego? Ou é porque empresas, como a que se diz a nº1 no ranking da indústria farmacêutica, conseguem despedir impunemente um bom número de grávidas e lactantes? Afinal, a responsabilidade do Estado vai no sentido de nos "proteger" agora, dando-nos formação??? E onde estava a protecção quando dela precisámos?
Já agora, o Estado também oferece formação àqueles que gostariam de ter obtido uma licenciatura mas não o conseguiram por falta de meios?
E, a pensar naqueles que, como eu, até gostam de estudar e de enriquecer a sua formação, será demais pedir que as iniciativas nos sejam trazidas ao conhecimento com todos os detalhes já estabelecidos e com alguma flexibilidade para que estes "meninos de escola" possam aderir às mesmas sem que as suas vidas familiares fiquem à mercê de um catavento?

Apelo a cada um de vós que divulgue esta palhaçada. Nunca se sabe quem será a próxima vítima deste sistema, que até pode ter uma boa intenção por detrás, mas não dá para viver só de boas intenções, não é?

3 comentários:

Anónimo disse...

Tem muitíssima razão, mas não se esqueça que muita gente gosta dessa situação.
Posso estar a ser injusta, mas há por aí quem a perfira.
Quem quer uma vida digna sente na pele a injustiça, mas há também quem não se importe pois recebendo uns cobres e tendo um subsídio para poder tomar uma bica e levar uma manhã inteira no café, na má língua, é já uma grande felicidade.
Eu não estou a ser injusta, estou a ser sincera, porque tenho ouvidos e olhos para ver e cabeça para, por enquanto pensar.
Não lhe parece que se todos sentissem o que sente muita coisa já teria mudado?
Repare que é o 1º. comentário que tem em assunto tão importante como o seu.
Sou não lhe digo quem sou porque lhe enviei uma mensagem há pouco.

Anónimo disse...

É sempre bom sabermos como (mal)funcionam as coisas, nunca se sabe quem sera a "próxima vítima"

Maria Jose disse...

Há muita coisa errada no nosso país...mas quero crer que está a ser feito um esforço no sentido de melhorar...
Quantas pessoas não conhecemos à nossa volta que vivem do subsídio de desemprego e nada fazem para mudar a situação ?... Pois é, eu conheço vários casos, bem próximos de mim... E, se porventura, surge uma oportunidade de emprego, até nem se aceita...ou porque é longe, ou porque ganhamos mais a ficar em casa e nem nos "chateamos",ou porque fazemos uns "biscates" em casa, livres de impostos... ou porque nem nos apetece...
O pior é que o subsídio não dura a vida toda, a idade vai passando e as oportunidades vão diminuindo...
Por causa de uns pagam os outros !
Não quero dizer com isto que concordo com a situação descrita...mas que trabalhamos para sustentar muitos parasitas, ai isso trabalhamos !...
Enfim, tenta encarar essa etapa da tua vida como se de um emprego se tratasse, com tarefas a cumprir, com formações para fazer e com um período de férias obrigatório em Agosto, mês que não interessa a ninguém, mas que tantas vezes nos obrigam a gozar...
Tenho a certeza que vai ser uma etapa da tua vida muito passageira...
Aproveita para fazer aquilo que te dá prazer ! ;))

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