05 julho 2007

A Fórmula de Deus



Posso passar sem muita coisa, mas nunca sem livros. Ando sempre a namorar algum. Todos me fazem companhia, tornando-se meus amigos por uns dias, alguns dão-me mais prazer que outros, quase todos têm algo a ensinar-me, chegando alguns a marcar-me, mesmo.
Não duvido que A Fórmula de Deus será um dos livros da minha vida.
Por demonstrar como a nossa ignorância sobre o sistema que nos rodeia é directamente proporcional à dimensão deste sistema.
Por nos conduzir através da ligação entre a consciência, a biologia, a a química, a física e a matemática.
Por nos explicar as teorias acerca do início e do fim do nosso Universo e da possibilidade de existência de outros.
Por fazer aumentar a minha curiosidade (nascida em livros sobre o Cosmos, como a Breve História do Tempo) a respeito de temas tão importantes como as questões fundamentais da física, da cosmologia e da matemática.
Por mostrar como a pequenez anda a par do infinitamente enorme, como a lógica matemática nos cerca nas constantes do Universo, como a consciência é inevitabilidade eterna e as leis do Universo são omnipresentes, omnipotentes e omniscientes, sendo ainda eternas e absolutas.
Por ter a habilidade de apurar o nosso apetite literário dando-nos a saborear, no meio de um enredo lógico-científico, uma cena sensual deliciosa.
Sem nunca se desviar do tema central do romance, José Rodrigues dos Santos presenteia-nos com estes pontuais fragmentos erotizados que vêm conferir maior interesse e realismo ao enredo já tão envolvente. Tudo com um fabuloso pano de fundo, com estimulantes do apetite tão carismáticos como Albert Einstein e tão míticos e atractivos como o Tibete.
Tal como em A Filha do Capitão ou no Códex 632, a leitura de J.R.S. aprisiona-me; voluntariamente, claro. Não consigo desprender-me das personagens, da narrativa, dos ambientes retratados pormenorizadamente. Viajo (eu, que tanto adoro viajar, mas que não tenho tido condições para tal ultimamente) nestas histórias saboreando a aprendizagem que só os livros paridos duma intensa entrega e paixão nos conseguem transmitir.
É o querer chegar ao fim de uma obra sem querer terminar o prazer da sua leitura.
A Fórmula de Deus "apanhou-me" numa fase (mais uma...) de incerteza, angústia e, sem exagero, sofrimento. Uma daquelas fases da vida em que tudo é medido, repensado, analisado, em busca do sentido que a vida encerra. O mesmo sucedeu com o Códex 632, numa fase anterior.
Não obstante estas coincidências, irei sempre associá-los a umas horas muito positivas do meu percurso de leitora ávida.
Da leitura da Fórmula, fica-me o reforço da convicção de que somos menos que quase nada neste Universo. Mas temos a responsabilidade de aproveitar as inúmeras afinações das condições que favoreceram não só a produção de vida, como também a própria existência da nossa espécie e da sua capacidade racional.
Acredite-se ou não na tese deste romance, diria que é de leitura obrigatória, se a palavra "obrigatória" não tivesse uma conotação desagradável. Opto, então, pelo termo "recomendável". Muito recomendável.
Sem quere ser reducionista, parece-me razoável inferir que o conhecimento é o melhor objectivo que nos podemos propor e que os afectos são a nossa melhor bússola.
Mas é possível que só a minha experiência aponte para esta conclusão. Resta a cada um ler, e daí retirar a sua própria.

11 comentários:

Anónimo disse...

Tenho o dito livro na fila para ler após "A herança do vazio" da Kiran Desai,este venceu o Man Booker Prize 2006. Com tão interessante critica á "A formula de Deus" não sei se não pegarei primeiro nele.

Anónimo disse...

Com tamanha qualidade literaria (a tua claro), estas aqui estás a escrever o prólogo do proxímo livro do J.R.S.
E isto só pra começar...

SOBE E DESCE disse...

Pois claro que somos atomos do Universo, uma energia que não se perde na terra. Somos compostos de tudo o que existe neste Universo maravilhoso, e desde há muito eu pergunto o que se passará lá muito longe a 27 mil milhões de luz?
Não li ainda o livro mas como já disse uma vez eu creio em muito mais, muito mais... e quando olho para certos acontecimento sinto que ...
Tibete!... Sabe que o budismo não é uma religião mas sim um estado de alma?...

SOBE E DESCE disse...

Queria dizer 27 mil milhoes de anos luz

Anónimo disse...

Bom dia! Realmente, o seu Blog é escrito a quente!!!
Palavras firmes, intensas, que me (nos) fazem estar e ver com os seus olhos, conhecer por dentro a sua emoção ao lê-los!
Obrigada!

Voltarei
Um caloroso abraço

Maria Mamede

a.filoxera disse...

Seja bem-vinda, Maria. E volte sempre que lhe apetecer, como eu farei em relação ao seu blog.

a.filoxera disse...

Ao/à anónimo/a de ontem às 20.57, agradeço o elogio exagerado. Oxalá "sesse" (como dizia o meu pai).

SOBE E DESCE disse...

Obrigada o seu comentário e a chamada de atenção para o 5º.
Há tempo que lá não ia e não dei por nada. É pena pois o que vi gostei.
Quanto ao livro já o tive nas mãos, mas tenho tanto para ler!...
Ando sempre em pesquizas de coisas q gostava de saber.
O dia só tem 24h!...

Maria Jose disse...

Pois é...O dia só tem 24h e, na correria em que ando sempre, começo a ler qualquer livro e, quando volto a ter tempo para pegar nele, já não me lembro do que está para trás !!... Ainda por cima, à noite, só me dá pra dormir...Parece que fui mordida pela mosca tzé-tzé !!;))
Enfim...Gosto imenso do que escreves, bem sabes. Acho que prefiro o teu escrito a quente a qualquer outro livro !
Beijo grande

a.filoxera disse...

A Sobe e Desce: adoraria conseguir acompanhá-la nessas pesquisas. A ver se esboçamos um plano, no próximo encontro...

a.filoxera disse...

À Maria José: os teus elogios exagerados sabem-me bem... Contanto que não deixes indefinidamente de lado os livros, como este que vou agora aconselhar...
Mais uma vez, obrigada e um grande xi, para ti e para esse meu "sobrinho" que em ti cresce.

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