01 junho 2015

PARABÉNS, MAFALDA!


Há 9 anos, o Universo ganhou um novo astro, com força magnética própria. Irradia uma luminosidade alegre, acendendo os dias dos seus satélites.
Chama-se Mafalda, este milagre da vida. Superou os problemas duma gestação de risco, simultâneos a um luto e a um rumor de despedimento.Pintou de azul o nosso mundo. 
Acaricia desconhecidos com um simples olhar. Amacia-nos os dias quando tudo vai mal.Voa com os seus elegantes saltinhos que me fazem desejar que o tempo pare aqui. Ela, o mano, eu, mantendo-nos nestas idades. 
Os braços que volteiam no ar são asas que protegem quem ama, num amplexo altruísta que não parece próprio das bochechinhas e do jeito pueril.
Hoje é o dia da lutadora. 
Nasceu depressa. Olhou-me logo. Um parto pacífico, um enlevo imediato.
Nasceu no Dia da Criança e acredito que não deixará de o ser, esta bailarina que nada em neologismos, esta filósofa que cura almas, esta menina sagaz a quem eu desejo que a vida retorne tudo quanto de bom vai semeando com o seu jeito doce de ser.

15 maio 2015

O tratamento desumano na doença

Lamento a saúde da minha mãe estar na mão duma corja que vê números em vez de gente.
Lamento estar a passar por tudo isto sem testemunhas.
Lamento hoje ir apresentar hoje uma queixa no hospital, sabendo de antemão que neste país é chover no molhado e não tendo comigo uma testemunha do que ouvi, nos tons em que ouvi.
Lamento que existam assistentes sociais que, de assistentes, nada têm. Nunca me ajudaram.
Lamento que se dê alta da consulta de Neurologia, impunemente, a uma doente cuja filha deixou bem claros os seus problemas motores.
Lamento que se troquem os cuidados devidos a uma doente dependente pela incúria, quando se quer retaliar a familiar de referência por não ter aceitado a alta duma pessoa que corre o risco de cair, assim que recupere a marcha. Quando a recuperar. Porque está há uma semana sem ter, sequer, minutinhos de fisioterapia.
Lamento que a falta de condições para prestar os devidos cuidados, aliada às limitações económicas e humanas da família não só não constituam travão para os ditames economicistas duma administração hospitalar, como permitam a uma assistente social ligar à filha num tom de ralhete.
Comigo não.
A guerra fria terminou. Começaram as hostilidades.
Esta tarde apresentarei as devidas reclamações. Não desarmo. Nem à centésima. Tenho mais anos de luta contra a doença do que estas fedelhas de vida.
Aceito ajudas, aliados nesta luta. É disso que preciso. Que a minha mãe precisa.

25 abril 2015

Abril, sempre

Abril foi sempre um mês importante na minha vida.
Um mês de datas especiais. Os aniversários do meu pai e do meu irmão, o da liberdade, o do casamento dos meus pais. De algumas mudanças de emprego. Da morte do meu pai. Da criação do meu blogue, há 8 anos.
Quem me conhece sabe o quanto o 25 de Abril é especial, a emoção que sinto, o quanto me empenho em transmitir aos mais novos a liberdade, gémea da responsabilidade, da família da consciência.
Hoje, o meu cravo vermelho vem comigo para o hospital, tímido, dentro do peito. Só eu o vejo.
Hoje, a minha liberdade será, “apenas”, a de decidir, minuto a minuto, o que fazer. Mimar a minha mãe, enquanto ouço as memórias de outros 25 de Abril, às cavalitas do meu pai, a desfilar na avenida, a ouvir o Grândola, a ter todos os sonhos pela frente.

Ainda sonho. Hoje, o meu sonho é só um. Vocês sabem.

22 abril 2015

21 de Abril


Quando telemóvel tocou, tinha um filho de três anos e meio junto de mim e uma filha com quase oito meses de gestação no meu interior.
A notícia não era boa.
Foi há nove anos e as circunstâncias, como de costume, não ajudavam.

Tive dez anos para me habituar a uma doença que nunca aceitei. 
Feitas as contas, perdi o meu pai há dezanove.
Mas consegui apaziguar a saudade.
Aprendi a viver com olhos de ver bonito. Como os seus.
Não conheci mais ninguém para quem a felicidade parecia renascer, todos os anos, no dia em que as andorinhas regressavam aos nossos beirais, procurando a Primavera.
Nem que fizesse do acender do cigarro um ritual incandescente, com início numa lupa exposta ao Sol.
O meu pai e eu tínhamos sorrisos próprios, olhares codificados, uma dança exclusiva, “bocas” e disputas dum repertório só nosso.
É tudo isso que hoje recordo. Para ver se reponho a asa num espírito desasado. O meu, desde que ele voou para outro plano.

(Ontem, tinha eu acabado de publicar este texto noutro espaço, tocou o telemóvel. Nove anos depois, a notícia voltou a não ser boa.
A minha mãe sofreu nova queda grave. Novo hematoma sub-dural.
Um dia de cada vez. E ela mais fragilizada...)

20 abril 2015

III Etapa do Circuito Regional de Surf (do Desporto Escolar)


Nem só de desporto vivem os campeonatos de surf.
Ali, respira-se maresia e cidadania. Jovens de diversos locais convergem para as ondas, levando consigo uma equipa de professores, encarregados de educação, família, animais.
O ambiente promove tanto o espírito de competição como a consciencialização ecológica. São constantes os apelos da organização aos atletas, para que deixem o areal mais limpo que à chegada. Estimula-se o seu espírito crítico e responsabilidade ao fazê-los avaliar o desempenho dos outros competidores.
O meu filho ainda continua a perguntar-me se não é “uma seca” para mim, estar presente durante estas provas. Sobretudo quando o vento frio nos chicoteia e fere os ouvidos. É claro que não. Estar tão pertinho do mar, apreciar a sã convivência entre desportistas que não se conhecem, ou dos que se vão conhecendo, vê-los jogar raquetas ou à bola, dar uns toques de volley com cães saltitando em seu redor, sentir a harmonia entre famílias e escolas é tudo o que eu gostaria que mais encarregados de educação pudessem viver. Sentir o quanto estes professores acarinham os seus alunos, o quanto se empenham por eles.
O meu filho foi até às meias-finais de skimboard e eu não vou ao ponto de dizer que a classificação não tem importância. Tem. Mas sou sincera. E o que se aprende num dia de competição num torneio destes ultrapassa o mensurável.
Só lamento a falta de condições com que os professores se debateram nesta que pretende uma localidade do surf: a Costa da Caparica. Que raio de país deixa os seus atletas e professores dormir no chão duma escola durante um torneio a ainda fazer grande publicidade em torno de um campeonato? Admite-se que não esteja uma equipa de primeiros-socorros sempre presente e alerta, como aconteceu em S. Pedro e em Peniche?
Desta etapa do circuito de surf, resta a convicção de que o cansaço de quem corre por gosto é muito mais saboroso. Todos estes alunos e professores estão de parabéns. A sociedade bem podia aprender com estes desportistas as regras de convívio, respeito, responsabilidade e entre-ajuda.

17 abril 2015

Ao meu pai, num aniversário que já não comemoramos...


Já sei que quem amamos não morre. Acompanha-nos sempre.
Mas -caramba!- há datas em que sentimos mesmo a sua falta física. Pois quem é que não deseja, acima de tudo, poder abraçar os que ama?
O meu pai faria anos hoje.
Eu far-lhe-ia um bolo, cujas velas sopraria na companhia da mulher, da filha e destes netos.
Assim, passarei o dia observando o meu filho numa competição de surf, enquanto irei tendo uma conversa surda, que ninguém ouvirá, com o meu pai. Os nossos diálogos dispensam, já, as palavras.
De resto, não era homem de grandes falas. Era mais de ouvir. Não me elogiava directamente. Orientou-me, como qualquer pai -verdadeiramente pai- orienta. Louvável atitude, para quem cresceu sem pai.
Deu-me conselhos, a maioria dos quais não pedi. Mas segui-os.
Aprendi, com o seu exemplo, a justiça, a liberdade, a coerência, a perseverança, a responsabilidade, o espírito crítico, o brio, o gosto pelo saber, a ajuda.
O meu pai foi o meu primeiro orgulho. Um herói com pés de Barros.
Tanto do que sou provém dele.
Foi pouco, o tempo que tivemos. É sempre pouco, quando se ama.
Mas valeu tanto!
Hoje, o meu coração dói, de tão inchado. Saudade e orgulho, em doses equivalentes.

15 abril 2015

Há três anos, o lançamento do meu livro, "Antes de Sermos Dia"


Da esquerda para a direita: mãe da autora; o poeta José Fanha, autor do prefácio, a quem coube apresentar a obra; editor Paulo Afonso Ramos; o cantor Rogério Charraz; a autora


O auditório do Campo Grande, antes de esgotar a capacidade de lugares sentados


 José Fanha, Sofia Barros e Paulo Afonso Ramos


A mesa com os protagonistas da apresentação


José Fanha e o porquê dos poetas escreverem


Deana Barroqueiro, que leu um dos poemas e lançou o debate sobre as 
diferenças entre a poesia no feminino e no masculino


 O poeta leu alguns dos poemas de "Antes de Sermos Dia"


 Rogério Charraz musicou e interpretou "Campo Lavrado", um dos poemas. 
Que agora faz parte do seu novo CD, "A Chave"


O agradecimento emocionado da autora


As âncoras emocionais nas primeiras filas


José Luís Outono leu "Todo o tempo é pouco"


 Uma tarde de sorrisos


Há momentos em que as palavras não bastam


A emoção, escrita a quente


O encontro de amigos. Uma tarde de magia.

09 abril 2015



O cenário: um gabinete de ortodontia.
As personagens: uma médica, uma mãe e dois filhos.
Uma conversa que começou sorridente e terminou às gargalhadas.
“Tens um dente a mais” – a ortodontista diagnosticou imediatamente o que se passa na boca do pré-adolescente . Resposta pronta da mãe: “Uns com tanto, outros com tão pouco!”
Um enredo semelhante ao da semana passada, na consulta de estomatologia.
Não há instrumentos que demovam o humor destas crianças ou ameacem os seus bichinhos carpinteiros. Quase não se consegue ter um diálogo com rumo e objectividade. As frases sempre interrompidas pelas perguntas da lourinha, que manuseia pinças, seringas e utensílios de nome desconhecido como se de brinquedos se tratasse.
Médica e mãe concluem que não há cabeça infalível. As agendas em papel guardam as anotações, mas é preciso que se olhe para elas.
Após a definição da estratégia para a dentição do miúdo, saímos, ainda rindo com a sugestão da mãe, que lhe sugeria que desse um dente à avó.

28 março 2015

Maria Rapaz

Maria Rapaz. Era assim que chamavam as meninas que trepavam às árvores, jogavam à bola ou assobiavam.
A tia Beatriz era a Maria Rapaz da família porque, na idade das tropelias, apanhava cobras do rio e levava-as para casa. Assobiando, pois claro!
Quando a minha filha começou a romper joelhos das calças com o mesmo afinco e regularidade com que o irmão costumava fazê-lo, a tia passou a chamar-lhe Maria Rapaz.
Já não tenho a minha tia para coser calças.
Fazia-o com a perfeição alcançada por um enorme gosto e muitos anos de prática de antiga professora de corte, costura e bordados.
Abria as costuras laterais da sarja e, com a ajuda de uma máquina que permitia o ziguezague, cerzia com cuidado onde as crianças haviam cortado a direito, muito tortamente. O trabalho era tão cuidadoso que nem se notava, por vezes, onde tinha havido um rasgão.
Agora, faz-me companhia no pensamento. Recordo a sua habilidade enquanto me esforço por deixar apresentáveis os joelhos das calças da Mafalda, com os pontos mal azambrados (como a tia diria) de quem cose à mão, sem jeito nem gosto.

19 março 2015

Dia do Pai


No Dia do Pai, porque seria tão bom que todos os pais fossem como uma casa onde os filhos regressam sempre...
A CASA
Sei dos filhos
pelo modo como ocupam a casa:
uns buscam os recantos,
outros existem à janela.
A uns satisfaz uma sombra,
a outros nem o mundo basta.
Uns batem com a porta,
outros hesitam como se não houvesse saída.
Raras vezes sou pai.
Sou sempre todos os meus filhos,
sou a mão indecisa no fecho,
sou a noite passada entre relógio e escuro.
Em mim ecoa a voz
que, à entrada, se anuncia: cheguei!
E eu sorrio, de resposta: chegou?
Mas se nunca ninguém partiu…
E tanto em mim
demoram as esperas
que me fui trocando por soalho
e me converti em sonolenta janela.
Agora, eu mesmo sou a casa,
casa infatigável casa
a que meus filhos
eternamente regressam.

Mia Couto

08 março 2015

NO DIA DA MULHER * autora Sofia Barros - diz Luiz Vinagre



Hoje faz 13 anos que soube que a minha vida ficaria mais completa. Foi quando soube que esperava o primeiro filho.
Será sempre um dia especial.
Para assinalá-lo, partilho as minhas palavras sobre o Dia da Mulher, na voz de Luiz Vinagre.


04 março 2015


Podíamos ter ficado na pré-história.
Preferimos arriscar. Fizemos a nossa história.
Repentinámos o apelo, que sabia esperar.
Não soube mais.

09 fevereiro 2015


O que mais recordo de S. Pedro, da minha infância, é a banca de jornais que ladeava a estação de comboios. 
Lembro-me ainda da mercearia, da padaria, que chegou a funcionar - por pouco tempo - numa roulotte; do barbeiro; do engraxador e das Galerias S. Pedro (uma simples loja de pronto-a-vestir, à saída da praceta onde morávamos), cujo cão que me fazia companhia enquanto eu esperava a carrinha do colégio. E duma papelaria que passava despercebida, ao fundo da rua. Mas já estou a desviar-me do início: a barraquinha de jornais junto à gare.
Eu superava a pequenez dos meus seis anos, apoiando um pé no rebordo do quiosque, guindando-me à altura do balcão, onde os dedos se fincavam, permitindo-me assistir à conversa. Se o murinho era azul ou a minha imaginação o pintou de tal cor, já não sei. Mas a minha mãe tende a concordar.
Gostava de ter uma fotografia dessa banca, coberta por chapa de zinco, ondulada. 
O jornaleiro era o Sr Porfírio. Dele, tenho uma vaga ideia. Embora, como em relação ao quiosque, já não saiba onde termina a lembrança e se funde com a fantasia. Ali se vendia também tabaco. Eu ia, aos sábados, com o meu pai, comprar os jornais e os cigarros. Por vezes, a cautela da lotaria. Uma fracção, a ver se a sorte se enganava. A conversa era rápida, entre cliente e vendedor. Usavam os respectivos nomes enquanto comentavam as notícias. 
O meu pai era homem de hábitos regulares. Horários repetidos, sem desvio no costume dos calendários. Vivia perto da estação. Saía para o comboio, quase sempre, em passo de corrida, ao som do trrim-trrim da passagem-de-nível. Dizia, com agrado, que era o seu exercício matinal. Regressava de Lisboa sempre no mesmo horário. As tardes repetiam-se, como os movimentos do relógio.
Até que um dia. Ou melhor: uma tarde.
O Sr Porfírio adiantou-se. Largou o seu posto de vigia. Foi esperar o Sr Barros à plataforma.
De expressão iluminada, não tardou nas felicitações, convencido do motivo da comemoração. Sem entender o porquê da inusitada alegria, o meu pai lá foi ouvindo. O jornaleiro contando. Ambos estranhando, já.
Pousada a precipitação, detalhados os pormenores numéricos, o palavreado terminou com ambos esclarecidos. Concluíram que a sorte continuava certa. Isto é, distante. Quem se enganara fora o Sr Porfírio. 
O número que vendeu ao meu pai, ao contrário do que estava convencido não era o premiado.

02 fevereiro 2015

Alzheimer


Terminei a leitura do livro que serviu de base ao argumento para o filme que estreia esta semana, sobre uma professora a quem, aos 50 anos, é dito que sofre de Alzheimer.
O livro é duro? Nada, quando comparado com a realidade.
Ficamos com uma leve ideia do que será o declínio.
Não assistimos aos acessos de agressividade. Ao isolamento a que o doente e a família são condenados. Não sofremos ao ver alguém que amamos enfiar uma mão num tacho com água ao lume ou numa tomada. Não presenciamos as quedas, o uso de fraldas, os conflitos familiares que desencadeia.
Não tanta coisa…
Ainda assim, aconselho.
Sobretudo para quem ainda tem a desfaçatez de fazer piadas acerca de Alzheimer. Não é uma amnésia. Não é “só” desorientação, perda da capacidade de cálculo. É tudo. São infecções respiratórias recorrentes, seguidas de infecções urinárias. É descoordenação motora, incapacidade para se alimentar ou beber, uma total ausência da realidade, presente ou passada.
É a falta de respeito de quem desconhece. É a morte antes da morte.
Não há por que lutar.
Porque, quando alguém que amamos tem Alzheimer, a esperança é a primeira a morrer.

28 janeiro 2015


Mais um.
Um passo, uma recordação, uma cicatriz, um espírito.
São alguns, os que me acompanham. Sinto-os próximos, tão junto de mim que é como se me tocassem.
São os que marcam a nossa vida. Contemporâneos ou anteriores, o sentimento não exige distinção. Ficam. São referências. Intrometem-se nas conversas, nos sonhos, mexem cordelinhos, esperam-nos.
Estes são os momentos de consciencialização das notícias que não digerimos imediatamente.
Preparam-nos para a adaptação à passagem a outro plano de alguém pertencente às nossas vidas.
Originam reencontros, apaziguam espíritos, libertam histórias antigas.
Recordam a importância do convívio.
Quem parte, se é recordado, não deixou pela vida sem deixar marca.

Não a esqueceremos.

21 janeiro 2015


Sentavam-se no murete que rodeava o canteiro da estação.
Esperavam o comboio. Sabiam esperar. Eram tempos com tempo.
Aguardavam pacientemente o desenrolar dos momentos, alheios ao calor e a qualquer sinal mundano. Ou melhor: totalmente enquadrados no mais natural cenário. Como se fossem partículas de poeira, que o voo das andorinhas agitava quando se elevavam até aos beirais. Ou borboletas, flores, átomos primaveris.
Naquele assento improvisado, que era seu por costume e por gosto, falavam de nada, num tanto de gestos e tão pouco de palavras.
Não desviavam a atenção para o ruído dos carros nem para a rotina vestida de gente que, a passos enfadados, percorria a plataforma. Não se detinham no rumorejar das águas marinhas, ali onde a marginal era paralela e o mar vizinho dos carris.
Adivinhava-se-lhes uma cumplicidade mais certa que o sangue. A menina atenta aos bichos-de-conta, que gostava de sentir rolar na mão enquanto se não ouvisse o silvo metálico. O pai, participando no estudo dos movimentos circulares dos pequenos crustáceos, acompanhando a filha num ritual quase silente, de quem se conhece muito além do que se diz.
A espera nunca era longa. Os olhos seguiam os rastejantes casuais por entre os desníveis das pedrinhas e os seus planos mais lisos, onde as formigas seguiam, por vezes, um trilho diferente, bem definido.
Não havia horas, nem se ouviam altifalantes. Os restantes passageiros como que desapareciam. Só existiam pai, filha e o calor da infância.

14 janeiro 2015


Prometias-me poesia

Castelos de ameias erguidas
Contra dores escondidas
Em sorrisos soluçantes

Prometias-me poesia

Universos em expansão
Nas noites de S. João
Com artifícios troantes

Prometias-me poesia

Do auge do abandono
Aos destroços do Outono
Por truques de meliantes

Prometias-me poesia

Entre gaffes e entrelinhas
No sopro das ventoinhas
Sob olhares insinuantes

Prometias-me poesia

Rituais mais que profanos
Em ritmos norte-africanos
No retorno dos viajantes



Prometias-me poesia

E por ti me fiz ao mar
Com redes de capturar
Peixes-verso navegantes

12 janeiro 2015


Meto-me nestas coisas porque gosto.
Gosto de saber de perto o que se passa na escola e na turma de cada filho, saber quem são os pais dos colegas, estar a par dos projectos e dos défices de cada estabelecimento, conhecer ser reconhecida pelos professores e os elementos da direcção da escola.
Além de tudo isto, gosto de encontrar pessoas e debater ideias.
Mas há momentos, destes relacionados com o meio escolar, de que não gosto.
Como em certas reuniões com os encarregados de educação.
Há mães/pais de todos os estilos. Os convictos de que os filhos são anjinhos. Aqueles que projectam nos educandos os objectivos que não alcançaram. Os que, por qualquer questãozinha reclamam a presença do professor tal, porque "coitadas das crianças", os que não devem deixar os miúdos ter palavra lá em casa, aqueles que se julgam o centro do mundo e desejam que a reunião tenha como eixo a sua situação particular.
E há os que sabem comportar-se e os que não.
Ontem, questionei-me se continuarei a ser a representante dos encarregados de educação. Algo que tenho feito ao longo dos últimos cinco ou seis anos lectivos. Tive dificuldade em aceitar que cada um falasse de rompante, sem que a directora de turma fosse dando a palavra aos presentes. E foi confrangedor agir como Kruschev. Não com um sapato, mas com uma mão na mesa, afirmando que já os deixara falar; agradecia que não me interrompessem.
Parece que é preciso educar pais. A mim, basta-me (e, por vezes, parece demasiado exigente) educar os meus filhos.
Não concordo com a confusão de valores a que venho assistindo.
Felizmente, ainda vejo mães e pais de mente aberta. Que não culpam ou exigem a presença dos professores, que não tiranizam nem apaparicam os miúdos, que se questionam e são responsáveis.
Todos aprendemos uns com os outros. Nem todos o sabem.

05 janeiro 2015

Turistas na própria cidade


A primeira coisa que ambiciono fazer assim que puder é viajar. Também com os meus filhos.
Antes de mostrar-lhes outros mundos, apresento o que está mais próximo.
Anteontem fomos turistas na nossa cidade natal: Lisboa.
O carro descansou na Rua do Alecrim. Decidimos que começaríamos o périplo pela zona ribeirinha.
Descemos ao Cais do Sodré, contei-lhes algumas das memórias da Lisboa de infância, as mesmas que referi num texto de 30 de Abril neste espaço social.
A rua onde o avô trabalhava, outra onde era o emprego da avó quando grávida de mim, a padaria onde gostávamos de terminar cada ida às compras.
Os bichinhos carpinteiros do skate sossegaram quando pôde rolar junto ao rio, pela Ribeira das Naus.
"Lembras-te como se chama este rio?" - perguntei à Mafalda. "Rio de Janeiro". O Vasco completou a ideia sugerindo que voltemos quando for rio de Fevereiro.
No Terreiro do Paço vestígios festivos polvilhados pelo chão denunciavam uma passagem de ano recente.
O interesse do Vasco pela História levou-o a procurar a placa evocativa do assassinato do rei D. Carlos, enquanto a irmã pedia para entrar no restaurante do chef dum concurso televisivo.
Andámos pelas ruas da baixa, por vezes sobre rodas, até nos sentarmos a saborear um gelado. O almoço foi de casa, em jeito de pic-nic, e comido no relvado.
Contei-lhes das lojas que deixaram de existir, como os Porfírios, onde encontrávamos roupa da nossa idade, ao contrário da generalidade dos pronto-a-vestir, que nos obrigavam a passar do infantil ao sisudo.
A caminho da Sé, comentei "esta é a rua onde nasci", referi o recente museu de Santo António e encaminhei-os para a Sé. Chegámos no mesmo instante do célebre 28. Saímos noutras rodas. Só os meus filhos, para rolarem de skate no largo da Sé...
Subimos ao miradouro de Santa Luzia, o Vasco querendo ir até ao castelo, a Mafalda pedindo inúmeras vezes um passeio de tuk-tuk. Os miúdos não entendem quando dizemos que certos prazeres têm preço para turista. Uma família de teimosos. Eles a pedirem, eu a negar.
Já junto do miradouro, sugeri à Mafalda "sobe por ali; evitas esta escadaria", ao que ela logo respondeu "eu vou por onde o Vasco for, mesmo que seja mais caminhoso". 
A miúda foi "de reboque"; as pernas estavam cansadas, reclamava. Levámo-la sentada no skate, de mão dada a cada um de nós.
Regressámos à beira-rio, conversando sobre o cais das colunas, a requalificação da zona, sentindo o rumorejar da água.
Mais adiante, a rampa lisa junto à EMSA foi a cereja no topo do bolo. Rolaram com imaginação, disputando o skate. Até que a imaginação lhes deu para procurar onde alugar bicicletas.
Quando descobrimos, já estavam a fechar. Ficou a promessa de o fazermos, numa próxima ida.
Deixámos o skate repousar no carro enquanto passeámos pelo Chiado. A miúda encantada com umas dançarinas de ventre plano, o Vasco deliciado com a extensão e os arcos da Bertrand. Espontâneo, beijou-me com um "porque, mãe, tu mereces" que me sorriu rosto e memória.
Por ali andámos, recordando o incêndio, vendo chegar as luzes, as ruas aquecidas de gente e dum lanche que ficará na lembrança dos miúdos da geração do carro. Que caminharam que nem gente grande, neste dia alfacinha.

LinkWithin

Blog Widget by LinkWithin