25 maio 2014

Estou velho, mas não estou parvo!


“Ora vamos lá ver quem ganha hoje. Quem será que tem as mãos mais quentinhas?”
A Conceição vem cá a casa muitas vezes. Ao sábado, já se sabe, é certinho que aparece para almoçar.
E repete sempre isto. Pega-me nas mãos, como se eu não tivesse nada a dizer ou querer, e lá volta a mesma pergunta, que já cheira mal...
A culpa é das minhas filhas. A mais velha habituou-a ao almoço semanal desde que a vizinha ficou viúva e agora quem a atura mais a história das mãos quentes sou eu.
O pior é que ainda tenho de ouvir as minhas filhas dizerem “mas que mal tinha, o paizinho juntar os trapinhos com a D. Conceição?”, como se juntar os trapinhos com alguém fosse coisa que me pudesse passar pela cabeça…
Ora essa! Estou velho, mas não estou parvo!
Então, agora que estou sossegado, com setenta e tantos, viúvo há muitos anos e a viver com uma filha, para que preciso eu duma mulher?
Já vivi o que a vida tem de bom. Nasci no tempo da monarquia, lembro-me da passagem do século e do atentado que matou o rei e o príncipe. Peguei numa arma quando as distribuíram no Monsanto para defesa da república. Casei e tive oito filhos.
Quatro morreram ainda em bebés, uns anjinhos. Ficou-nos o mais velho e três moças, as mais novas.
Depois morreram famílias quase inteiras, quando morávamos em Silves. A tísica andava por aí com tais ganas que quando passávamos frente a certas portas era de esguelha…
Andei por esse país ao serviço da Junta Autónoma de Estradas, como chefe de conservação de estradas.
Havia muita miséria por todo o lado. Aos sábados os pobres vinham pedir à vila de Mértola. Dávamos às gaiatas um pão, que elas lhes entregavam, e eles logo distribuíam entre todos. Os homens apareciam todos os dias a pedir trabalho.
Quando algum morria, fui conseguindo reunir uns escudos para darmos à viúva, que não tinha direito a nada.
Lembro as guerras, os noticiários na rádio e os panos pretos nas janelas, à noite.
A minha Leonilde morreu do coração em 1960. Já não assistiu à coragem do General Sem Medo…
Em 1964, o meu filho, que estava na Lunda, morreu num acidente de carro e nem pude sepultar-lhe o corpo.
Agora passaram 6 anos. Estou velho e já fintei um cancro. Só quero que me deixem viver um pouco mais, em sossego e saúde.
Passear de carro ao fim-de-semana com a minha mais velha, que não casou. Ler e ver alguma televisão. Pouca, que as Conversas em Família deixam-me uma azia cá dentro…
Já não tenho muita esperança de algum dia ver este país mudar de rumo ou de me tornar avô. Mas marido, outra vez? Nunca! Nem com aquela Conceição, com mais rugas na cara que eu, nem com ninguém.
Ora essa! Estou velho, mas não estou parvo!

19 maio 2014

11 maio 2014



Lisboa começava na estação de comboios do Cais do Sodré.
Até à minha adolescência, era na capital que as compras se faziam.
Na era ante-shoppings, saíamos da gare ferroviária pelas escadinhas onde os ardinas empilhavam os jornais para venda. Ali se liam primeiras páginas dos diários com notícias políticas, se compravam almanaques Disney ou se miravam os dotes físicos das mocinhas que embelezavam as capas de revistas ditas masculinas.
Um nadinha para a direita, as bancas da fruta, em metal colorido, a par das paragens de táxis.
Era assim que começava a tarde quando tínhamos oito ou dez anos e íamos à Sepordagio ou em busca de roupa para substituir a que já ficava curta.
Eu e a minha mãe atravessávamos a Praça do Duque da Terceira e íamos ao emprego do meu pai para eu poder surpreendê-lo e namorar o navio de cruzeiro à escala, da linha Costa, que recebia os visitantes da Orey Antunes. As conversas desvaneciam-se então, enquanto na minha imaginação aquela réplica passava a navegar no meu quarto, com alguns pequenos bonecos de borracha como viajantes.
Raramente, almoçávamos os três, no Porto de Abrigo, ali numa transversal.
Os percursos eram frequentemente feitos a pé. Por vezes, apanhávamos um autocarro para o centro. As pernas das crianças eram mais costumeiras nestas deambulações que de consumista pouco tinham.
O regresso normalmente premiava o cansaço com uma paragem na padaria Caneças, onde nos embrulhavam pães-de-deus cujo aroma nos acompanhava até casa, numa antecipação gulosa do momento de lhes ferrar o dente.
Fazer uma compra era, então, um programa. Uma tarde com história.

Histórias que ocupam lugar cativo cá dentro. Onde eu continuo a ver o meu pai descer os degraus para vir ao hall de entrada da Orey Antunes receber-nos com o seu beijo perfumado enquanto eu sonhava perante a maqueta dum navio.

02 maio 2014



Arrumámos a imaginação e não voltamos a tocar-lhe com receio do cheiro a naftalina.
Levamos os dias numa sucessão ininterrupta de calculismos.
Aplaudimos os enredos onde a magia impera mas desprezamos as leis do coração.
Acreditamos em cada filme que nos conduza a um milagre, porém, na vida, só a razão nos orienta.
E agora digam-me como podemos educar as nossas crianças se o principezinho não é transposto para o nosso mundo?
De que forma pretendemos ajudar os amigos se desconfiamos da sua fé no que nos parece vazio?
Ambicionamos o carácter excepcional das personagens da literatura, sorrimos a cada verso dum poema, apaixonamo-nos pela imprevisibilidade das narrativas e depois amarrotamos todo este fascínio ao esquecermo-nos que no chão, e sem tecnologia, brincamos muito melhor com os nossos filhos.
De vagar e de mãos se faz a brincadeira, como a paixão.
Deixamos de enaltecer a criatividade e encantamo-nos com gadgets que nos alteram a perspectiva da conexão mais básica a esta grande ordem cósmica chamada universo.
Ignoramos a vida no tempo presente do indicativo projectando ambições no futuro condicional.
Cerceamos as nossas experiências porque absorvemos preconceitos dum mundo que nos quer formatados nos mesmos moldes e padroniza comportamentos e conceitos.
Tememos a condenação pela diferença. O medo quase lei, a tolerância e o sentido crítico quase relíquias.
Queremos o mensurável. Falamos de índices e de valores materiais porque desaprendemos o valor dos humanos, dos animais, dos ecossistemas.
As pessoas crescidas gostam de números, já dizia o herói criado pelo aviador.
Resta esperar que continuem a nascer crianças neste planeta envelhecido e torto.
Para que nunca falte quem nos reconduza ao pôr-do-sol, à observação das estrelas, ao tempo que dedicamos às nossas rosas.

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