30 março 2009

(foto minha)

Amanhã será aqui que nos encontrarão.
Férias são férias e, para que o Vasco tenha uns dias com sabor a lazer, há que dar rédea solta à imaginação e variar os programas dos dias de interrupção escolar.
A oferta de um bilhete despoletou a ideia. A pequerrucha ainda não paga e o Sol incita a passeios.
Assim, vou ao encontro dos meus familiares leões e dos restantes amigos. Quem me conhece sabe da minha paixão por felinos, desde o doméstico gato ao selvagem gato bravo, do denominado rei da selva, ao elegante tigre, ao sarapintado leopardo, ao ameaçado lince, sem esquecer a misteriosa pantera, o ágil puma ou o excelente caçador que é o jaguar.
Todos eles me seduzem com a agilidade e o jeito dengoso de se movimentarem.
Claro que, como amante afastada do continente africano, fico pasmada frente ao elefante, que tem para mim uma carga emocional inexplicável, e admiro a excentricidade de animais como as girafas.
Já os meus filhos, esses deliram com os macacos, o espectáculo dos golfinhos e dos leões marinhos ou a gracinha dos pinguins.
Mas todos, eles e eu, nos rendemos à maravilha que é passar o dia tão perto daqueles de quem somos forçados a viver tão afastados…

27 março 2009

(foto minha)
Despedimo-nos no Outono, num dia de luz magnífica, que até o ferro e o cimento vestia com tonalidades de talha de igreja. Sentados no banco de pedra, no jardim brindámos à vida e à amizade. Conversámos com e sem palavras. Enchemos a alma de cor, risos, e da réstia de calor que antecede o Inverno. Depois, chegou a hora do adeus. O abraço foi mais demorado. Não muito, uma fracção de segundo, tanto tempo, o espaço exacto que medeia entre a vida e a morte. Até…, disse-lhe. Virei costas, não mais o vi. No entanto, poderia jurar que ainda lá está, tenho a certeza de que ainda lá está, sentado no mesmo banco do jardim, de cara virada para o sol, olhos fechados, gozando um dia em que, de tão perfeito, é uma imitação do paraíso. Decerto aguarda o som dos meus passos, a voz do seu médico. Faz bem em esperar, porque, se Deus quiser, um dia vou fazer-lhe uma visita.

(Nuno Lobo Antunes, in Sinto Muito)

25 março 2009

23 março 2009

O dia convidava a sair.
Sol, temperatura amena, nada do tradicional vento.
A lembrança surgiu, repentina. Fez-me perguntar-lhe se ainda estaria na praia.
E ela estava.
E lá nos encontrámos, é caso para dizer, numa boa onda. Eu, a pequerrucha, a sua boneca e a vizinha do blogobairro, que a fotografou.
Aqui deixo, em segunda mão, o testemunho, duns momentos improvisados, que são tantas vezes os melhores.

19 março 2009

PAI


Bate forte, fortemente, esta saudade latente

Podia começar assim, um poema que escrevesse para ti, pai.
Mas nunca fui capaz de tecer poesia. Se fosse, tu merecê-la-ias.
Dizem que hoje é o Dia do Pai. Não te tenho comigo, nem ao meu pai emprestado, o inglês que partiu há pouco para esse plano onde se diluem as angústias, se anulam as preocupações.
Fazes-me falta. Já o disse aqui muitas vezes e continuarei a dizê-lo. Nunca foste do estilo "pai galinha". Eras aberto, comunicativo, frontal. Pouco dado a manifestar emoções, no entanto, sensível.
Hoje, para mim, não é dia de cemitério. Não quiseste ocupar o espaço e o tempo dos rituais fúnebres. Respeitámos, até porque também acho mais sensata, a tua opção.
E, porque este é um texto dirigido a ti, quem achar que não está para tristezas pode acabar aqui a leitura.
É que eu estou cheia de segredos para deitar cá para fora. E, enquanto não consigo fazê-lo quanto aos outros, pelo menos vou recordar os bichinhos de conta que enrolávamos na mão, era eu miúda de uns cinco anos, as noites de quarta, quando víamos os filmes na tv juntos, já adolescente, as conversas que tinhas comigo sobre temas que para outros pais eram tabú.
A doença. Essa devastação chamada Alzheimer que me roubou o pai cedo demais. Até uma morte que antecedeu uns dias o nascimento da tua neta. Gravidez enlutada. Quando ela nasceu, não chorei de dor, chorei pelo vosso desencontro. Pelas cinzas que fui obrigada a espalhar ao sabor das ondas porque a mãe assim teimou... Foi aí que te disse adeus. Adeus é, para mim, palavra apenas para esta situação: a morte. Estava demasiado perturbada para me despedir de ti quando a urna entrou para a tua última vontade, pelo que só disse adeus dias mais tarde. Junto ao infinito azul.

Tanto do que eu sou provém de ti! Tanto que eu te sinto aqui, junto a mim, todos os dias...
E agora, que não te tenho, que nunca mais te vou ter, dou por mim a pensar que ainda bem que foste poupado ao que se tem passado por aqui.
Precisava tanto de ter um pai agora! E os teus netos, esses, precisavam tanto de um avô...

17 março 2009

Antecipou-se

(foto minha, tirada no Porto, no Carnaval)

Chegou sem convite. E antecipou-se na hora de chegada.
Pousou, suavemente, o pé descalço sobre o verdejante relvado recém-aparado. Uma ou outra margarida, daquelas bem pequenininhas, despontavam já, pontuando o cenário de círculos brancos, ínfimos.
Inspirou aromas suaves, agradáveis, guardados na memória de quase um ano.
Estendeu os braços em direcção a todos. Num abraço de luz, num calor reconfortante.
O dia alongou-se, alargou a esperança. Esperança que dizem verde, como a relva. Esperança que nunca acaba.
Soprou as núvens, afastando-as para longe.
Despiu-se e rendeu-se aos raios solares como uma mulher se entrega a uma paixão intensa.
Sorriu por se ver aceite sem ter cumprido a regra de etiqueta. A educação diz que não se entra sem se ser convidado, mas esta Primavera é bem-vinda. Que o digam as flores, os campos, as árvores, os pássaros, eu.

14 março 2009

Eu e as palavras


Hoje, gostava de conseguir brincar com as palavras.
Ou melhor, reformulando: queria era que elas brincassem comigo. Me dessem um beliscão carinhoso no queixo enquanto me perguntavam "então, mas que raio de expressão carregada é essa?".
Depois, passeavam-se pela minha cintura, dando voltas em torno da minha barriga, enchiam-me de cócegas até eu pôr de lado este ar carregado que nem eu reconheço.
Passavam à fase da provocação ao perguntarem-me: "então, pensavas que isto de virar tudo de pernas para o ar ia ser pêra doce, minha linda?"- e eu esboçava um sorriso perante esta última palavra.
A cena continuava com todas as vogais e consoantes a incitarem-me, em uníssono, a encher o peito de ar e respirar fundo umas quantas vezes (os sacos de boxe ainda devem ser um bocado caros...).
Por fim, aquelas que mais prezo vinham abraçar-me, fazer-me a transfusão de força essencial que só os amigos sabem fazer, e reiterar que tudo vai melhorar. E assim eu me despedia, num abraço até sempre, dessas palavras especiais:
DETERMINAÇÃO,
CORAGEM,
ALEGRIA,
PERSISTÊNCIA,
FORÇA
CONCRETIZAÇÂO.

12 março 2009

07 março 2009

Dia da Mulher

(imagem oferecida pelo Sofá Amarelo. Obrigada, amigo)

Dia da Mulher, da Criança ou da Família ou de qualquer outra intituição ou condição são todos os dias.
A única atitude diferente que alguma vez tive neste dia foi, no primeiro ano de trabalho, convidar mãe e tia a irem ter comigo para um almoço de mulheres que tive o prazer de lhes oferecer num restaurante próximo do meu local de trabalho nessa altura.
Houve, ainda, esse ano especial, em 2002, em que, neste 8 de Março, soube que estava grávida, pela primeira vez. O sonho da minha vida anunciado num teste caseiro!
Este ano, o primeiro pensamento foi para uma amiga-quase-mãe que enviuvou há pouco.
Os seguintes foram para todas as mulheres que, de uma forma ou de outra, sentem mais o peso de pertencerem ao género feminino do que a alegria de serem mulheres.
Ser mulher é ser altruísta, dinâmica, observadora, emprendedora, sensível, persistente, dedicada, sonhadora, criativa, e tantas outras coisas.
Ser mulher é gostar de usar calças, arranjar as unhas e/ou o cabelo, assobiar, guiar com o braço de fora, dizer palavrões quando o saco não aguenta mais. É sentir uma pessoa a crescer dentro de nós, pô-la no mundo e amá-la a toda a prova, é ser leoa na defesa dos nossos direitos.
Mesmo sem meios, quando todos os elementos se nos apresentam contra.
(...)
(a posteriori: o Carlos escreveu um post excelente neste Dia da Mulher. Sigam o link e comprovem-no)
Queria tanto falar-vos do que vivo, do que sinto.
Mas hoje mantenho o silêncio, estou tolhida de palavras...

03 março 2009


"Acredito que, mais tarde, Salvador se tivesse convencido de que não as amara, mas quando se casou com elas ele estava seguro do contrário. Principalmente Sara, a segunda, que o amou muito e muito tempo, e que ele também amou, mas que perdeu porque, apesar de saber tudo sobre verbos, nunca soube o significado de um deles, o verbo "conservar", e nunca conseguiu viver naquela zona que fica entre o princípio e o fim das coisas, que é o durante, e que é quase tudo o que importa"

(Domingos Amaral, in "Já Ninguém Morre de Amor")

01 março 2009

One month

Passou um mês.
As saudades avolumam-se...
Mas estou convencida que recebeste o meu recado.
Agora, comunicamos directamente; no infinito não há telefones.

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