28 novembro 2008

Até sempre!

Lembram-se de a minha mãe ter dito aqui que lá na minha escola fazemos coisas lindas, e que o tema deste ano é "Cem Diferenças Sem Diferenças"?
Pois aqui vos deixo algumas fotografias que comprovam que na escola, além de brincarmos com outros meninos, aprendemos algumas coisas. E criamos.
Na fotografia de cima, podem ver os meninos da minha sala, em redor de um globo terrestre feito de esferovite.

Nesta, bem como na de baixo, estão os trabalhos das salas dos quatro anos e do grupo heterogéneo. Somos todos uns artistas, não acham?

Hoje, é o último dia em que vou à escola. Como a minha mãe está atarefada a terminar as lembranças para as educadoras e a fazer todas aquelas coisas que as mulheres fazem, mais as malas para o fim-de-semana, sou eu quem vos deixa este artigo.
Eu sei que terei saudades dos meus colegas e das minhas educadoras, da escola e das suas rotinas. Sei que vou estranhar não ver todos os dias a Vanda, a Teté e a Andreia, não correr até à sala da minha antiga educadora Mafalda (como eu), não fazer teatrinhos, não ter música para acompanhar com claves, enfim, não estar mais integrada nas rotinas e no espaço escolar.
Mas não percebo porque é que a minha mãe está tão chorosa...
Acho que tem a ver com aquilo de nós sermos o seu calcanhar de Aquiles (o que será que é isso???) e de ela dizer que o mais importante somos nós. Parece que ela não queria mesmo ter de mudar os planos que tinha para a nossa educação e agora está que não se contém...
Mas eu vou dar-lhes muitos miminhos e brincar com ela como brinco com os meus bonecos e logo, logo, ela vai sentir-se melhor.
Depois, volta a ser ela a publicar aqui os posts, combinado?
Beijinhos a todos,
Mafalda.

27 novembro 2008

O Desafio da Si

Manhã. Muitos planos, imenso corre-corre. Um banho de emergência quando constato que a fralda da noite transbordou.Lista de afazeres: ir à apresentação quinzenal, responder a anúncios de emprego, preparar lembranças para dar na escola da Mafalda, ir ao centro de cópias fotocopiar uma fotografia dos miúdos para ilustrar os envelopes com os desenhos que fizeram, passar a ferro, dar um recado na escola do Vasco, ir pondo de lado roupas, calçado, ganchos, fraldas e brinquedos para levar de fim-de-semana, entre outras coisas.


As voltas de rua estão dadas. Vou só ver os e-mails e depois atiro-me aos afazeres.
Pronto: fui apanhada! A Si acrescenta-me a lista dos assuntos a tratar: resolveu passar-me um desafio, daqueles tipo partidinha marota.
E em que consiste este desafio? Vejam só: tenho de escolher um cantor ou um grupo (desculpem, mas eu não digo banda- essa, é a filarmónica ou a do coreto. Para mim é assim, ponto final), com cujos nomes de músicas eu responda a dez questões. São elas:


1. És homem ou mulher? Essa miúda
2. Descreve-te: Deixa-me rir
3. O que é que as pessoas acham de ti? Optimista céptico
4. Como descreves o teu último relacionamento? À espera do fim
5. Descreve o estado actual da tua relação: O meu amor existe
6. Onde querias estar agora? Na Terra dos Sonhos
7. O que pensas a respeito do amor? Frágil
8. Como é a tua vida? Trapézio
9. O que pedirias se pudesses ter um desejo? Encosta-te a mim
10. Escreve uma fase sábia: Há sempre alguém



Jorge Palma está na moda agora, mas eu gosto da sua obra há muitos anos. Assisti a um concerto meio intimista no Casino Estoril há alguns 17 anos, que veio reforçar a empatia com as letras das canções. Entretanto, os anos foram passando e eu continuo a admirar a originalidade criativa, a musicalidade humorada, o sarcasmo intrínseco.

O desafio, esse passo-o a:

Carminda
Blue Velvet
Maria
Alexandre
Elvira
Sophiamar

26 novembro 2008

(Foto minha)

“Tive uma ideia”!- exclamo eu, como se estivesse a meio de uma brincadeira de crianças.
“’Bora fazer com a vida como se faz no dentista? Quando estiver a doer, fazemos sinal com a mão. E a vida, que é uma profissional competente, interrompe e volta a fazer, desta vez com outro cuidado, para não doer…”

24 novembro 2008

100 diferenças sem diferenças

Este ano, o tema do projecto pedagógico da escola da minha filha é "100 Diferenças Sem Diferenças". Pretende-se:
1- Despertar a curiosidade para outras realidades
2- Partilhar conhecimentos sobre outras culturas
3- promover valores de respeito, tolerância, partilha e amizade
4- Desenvolver a imaginação e a criatividade
5- Divertir
Aos dois anos, questionamo-nos, como será possível desenvolver com as crianças um trabalho de educação para a cidadania? Aos educadores, quer sejam pais e familiares quer os educadores da escola, compete o papel de promover a vivência da criança numa sociedade heterogénea e "colorida" culturalmente, fomentando a interculturalidade.
É bom que os nossos meninos tomem consciência de si próprios e dos outros, encarando a diversidade com naturalidade e promovendo a harmonia.
Mais uma vez, enalteço o trabalho que a escola realiza em função do desenvolvimento cultural doas crianças, desde os mais pequeninos aos mais crescidos. Cada grupo tem as suas formas próprias de realizar os objectivos pedagógicos.
Na sala dos dois anos, as histórias e os trabalhos manuais têm especial importância. Ficariam espantados com o que eles fazem. Prometo deixar aqui, brevemente, alguns testemunhos dos trabalhos efectuados.
Por enquanto, deixo um poema, do poeta espanhol Esteve Alcolea:


HAVEMOS DE ENTENDER-NOS:

Não importa
se és menino ou menina
se és branca ou preto
se entandes bem a minha língua
e eu a tua.
Não importa onde nasceste,
não importa se temos
crenças diferentes.
Nada disso importa, porque vamos prestar
atenção às nossas diferenças.
Porque fomos chamados
a viver juntos e a entender-nos.
Dá-me a tua mão.
Havemos de entender-nos.

22 novembro 2008

Congratulations!

*(me and my English Mom, some years ago...)

To my English Mom.
This should be the day for us to be laughing and telling each other everything was ok.
Unfortunately, it is not. But, as the song tells, "things are getting better".
So, instead of real hugs, we have virtual ones, this year.
Here, I wish you all the best, not only today but everyday from now on. Hoping to really feel your hug soon.
* (eu e a minha Mãe Inglesa, há uns anos)

Parabéns à minha Mãe Inglesa.
Este devia ser o dia em que ríamos e contávamos uma à outra que tudo estava bem.
Infelizmente, não é. Mas, como diz a canção, "as coisas estão a melhorar".
Assim, este ano, em vez de abraços verdadeiros, temos os virtuais.
Aqui, desejo-te tudo de bom, não apenas hoje mas de agora em diante. Esperando sentir o teu abraço real brevemente.

21 novembro 2008

Fez um ano

E ainda não é desta que voltamos ao Alentejo, para um fim-de-semana num ritmo diferente.
A amiga que seria a nossa anfitriã foi apanhada num "furacão"...
Para quem não leu a reportagem de há um ano, que eu acho, sem modéstia, que ficou linda, aqui deixo o link

20 novembro 2008

Revolta


O Banco de Portugal, com base nos números do Instituto Nacional de Estatística para o primeiro semestre deste ano, diz que "Cada desempregado passa em média 23 meses à procura de trabalho, mais um mês do que em igual período de 2007. O número é o mais elevado da última década. "
A revolta atinge-me quando o Boletim Económico de Outono diz que o actual regime do subsídio de desemprego é «generoso» e contribui para o crescimento do desemprego de longa duração.
Um total de 50 por cento dos desempregados passa mais de um ano à procura de trabalho.
O Banco de Portugal justifica o crescimento com «uma elevada cobertura financeira» e uma duração potencialmente grande do subsídio pago pela Segurança Social.

Alguém me agarre, se não estes senhores ainda vão sentir a minha ira na pele. Palavra que sujava as minhas mãos!
Então, julgam que somos todos uns incapazes, que não sabem tomar conta das suas vidas, uns parasitas a viver à sombra do subsídio?
Acham que é confortável para alguém que, ainda na faculdade, já trabalhava a tempo inteiro, ficar agora, com dois filhos pequenos, na eminência de ver toda a vida de pantanas, porque se responde a anúncios, se mandam canbdidaturas espontâneas e ainda não se conseguiu voltar a trabalhar?
Acham bem, seus filhos-da-mãe, insinuarem que somos irresponsáveis e não deitamos mão aos jornais, aos sites de emprego, aos nossos conhecimentos pessoais e ao passa-palavra para darmos a volta à situação?
Ah, pois é! Eu queria ver os senhores a ter de tirar os filhos da escola onde andavam, a sujeitarem-se a trabalhar em horários em que quase nem os vissem, a terem de pedir a uma avó que olhasse por favor pela criança mais nova para poderem aceitar um emprego mal pago...
Não o fariam, pois não? Seus parasitas altamente bem pagos!
Nós, fazêmo-lo.

19 novembro 2008

Mais despedimentos

Diz-se que a vida obedece a fases.
Então, espero que esta termine rapidamente. É que estou a chegar àquele ponto em que o número de pessoas empregadas que conheço deve ser pouco superior à quantidade de desmpregados em meu redor.
Hoje, mais uma vaga de despedimentos na indústria farmacêutica. Mais setenta e seis pessoas a ficarem sem emprego...
Mais colegas, alguns dos quais amigos, a juntarem-se ao clube a que ninguém quer pertencer.
Quem tem seguido este blogue sabe que me refiro frequentemente à indústria farmacêutica porque foi nesta que desempenhei a minha actividade profissional nos últimos dez anos em que trabalhei. Na barra lateral estão, aliás, diversos textos englobados nas etiquetas ligadas ao desemprego que o referem.
Por isso, não vale a pena dizerem "não é só na indústria, então e nos outros sectores?", pois eu sei perfeitamente que estão todos a "encolher"- basta andar há tanto tempo em busca de nova colocação...
A referência à indústria farmacêutica é emocional, no meu caso. Dez anos é muito tempo, como dizia a canção. É o tempo de nos familiriarizarmos com o ambiente, de nos afeiçoarmos ao trabalho, de criarmos laços com os colegas.
Se, no dia 24, vos dei conta dos despedimentos numa companhia à qual o vínculo emocional é grande, hoje é o dia de assistir a novos dramas destes naquela que foi a empresa onde trabalhei quase oito anos, até que esta, a gigante número um, deciciu dar prioridade ao despedimento de grávidas e lactantes, como era o meu caso.
Se, nos últimos anos, estas ondas têm sido uma constante, e nos últimos meses muitas companhias fecharam ou sofreram grandes reestruturações, tal não invalida que me sinta cada dia mais preocupada com a evolução desta tendência.
Nem atenua a tristeza de ver, mais uma vez, colegas e amigos ficarem na mesma situação em que eu me encontro. Hoje, o meu coração atrofiou mais um bocadinho.

18 novembro 2008

Mia Couto: E se Obama fosse africano?


(para meditar, aqui fica um texto de Mia Couto)

E se Obama fosse africano?

Por Mia Couto

Os africanos rejubilaram com a vitória de Obama. Eu fui um deles. Depois de uma noite em claro, na irrealidade da penumbra da madrugada, as lágrimas corriam-me quando ele pronunciou o discurso de vencedor. Nesse momento, eu era também um vencedor. A mesma felicidade me atravessara quando Nelson Mandela foi libertado e o novo estadista sul-africano consolidava um caminho de dignificação de África.

Na noite de 5 de Novembro, o novo presidente norte-americano não era apenas um homem que falava. Era a sufocada voz da esperança que se reerguia, liberta, dentro de nós. Meu coração tinha votado, mesmo sem permissão: habituado a pedir pouco, eu festejava uma vitória sem dimensões. Ao sair à rua, a minha cidade se havia deslocado para Chicago, negros e brancos respirando comungando de uma mesma surpresa feliz. Porque a vitória de Obama não foi a de uma raça sobre outra: sem a participação massiva dos americanos de todas as raças (incluindo a da maioria branca) os Estados Unidos da América não nos entregariam motivo para festejarmos.

Nos dias seguintes, fui colhendo as reacções eufóricas dos mais diversos recantos do nosso continente. Pessoas anónimas, cidadãos comuns querem testemunhar a sua felicidade. Ao mesmo tempo fui tomando nota, com algumas reservas, das mensagens solidárias de dirigentes africanos. Quase todos chamavam Obama de "nosso irmão". E pensei: estarão todos esses dirigentes sendo sinceros? Será Barack Obama familiar de tanta gente politicamente tão diversa? Tenho dúvidas. Na pressa de ver preconceitos somente nos outros, não somos capazes de ver os nossos próprios racismos e xenofobias. Na pressa de condenar o Ocidente, esquecemo-nos de aceitar as lições que nos chegam desse outro lado do mundo.

Foi então que me chegou às mãos um texto de um escritor camaronês, Patrice Nganang, intitulado: "E se Obama fosse camaronês?". As questões que o meu colega dos Camarões levantava sugeriram-me perguntas diversas, formuladas agora em redor da seguinte hipótese: e se Obama fosse africano e concorresse à presidência num país africano? São estas perguntas que gostaria de explorar neste texto.

E se Obama fosse africano e candidato a uma presidência africana?

1. Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria que esperar mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em África. Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egipto, 26 nos Camarões. E por aí fora, perfazendo uma quinzena de presidentes que governam há mais de 20 anos consecutivos no continente. Mugabe terá 90 anos quando terminar o mandato para o qual se impôs acima do veredicto popular.

2. Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo um candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer campanha. Far-Ihe-iam como, por exemplo, no Zimbabwe ou nos Camarões: seria agredido fisicamente, seria preso consecutivamente, ser-Ihe-ia retirado o passaporte. Os Bushs de África não toleram opositores, não toleram a democracia.

3. Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes. O nacionalista zambiano Kenneth Kaunda está sendo questionado, no seu próprio país, como filho de malawianos. Convenientemente "descobriram" que o homem que conduziu a Zâmbia à independência e governou por mais de 25 anos era, afinal, filho de malawianos e durante todo esse tempo tinha governado 'ilegalmente". Preso por alegadas intenções golpistas, o nosso Kenneth Kaunda (que dá nome a uma das mais nobres avenidas de Maputo) será interdito de fazer política e assim, o regime vigente, se verá livre de um opositor.

4. Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato. Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um "não autêntico africano". O mesmo irmão negro que hoje é saudado como novo Presidente americano seria vilipendiado em casa como sendo representante dos "outros", dos de outra raça, de outra bandeira (ou de nenhuma bandeira?).

5. Se fosse africano, o nosso "irmão" teria que dar muita explicação aos moralistas de serviço quando pensasse em incluir no discurso de agradecimento o apoio que recebeu dos homossexuais. Pecado mortal para os advogados da chamada "pureza africana". Para estes moralistas – tantas vezes no poder, tantas vezes com poder - a homossexualidade é um inaceitável vício mortal que é exterior a África e aos africanos.

6. Se ganhasse as eleições, Obama teria provavelmente que sentar-se à mesa de negociações e partilhar o poder com o derrotado, num processo negocial degradante que mostra que, em certos países africanos, o perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado - a vontade do povo expressa nos votos. Nesta altura, estaria Barack Obama sentado numa mesa com um qualquer Bush em infinitas rondas negociais com mediadores africanos que nos ensinam que nos devemos contentar com as migalhas dos processos eleitorais que não correm a favor dos ditadores.

Inconclusivas conclusões

Fique claro: existem excepções neste quadro generalista. Sabemos todos de que excepções estamos falando e nós mesmos moçambicanos, fomos capazes de construir uma dessas condições à parte.

Fique igualmente claro: todos estes entraves a um Obama africano não seriam impostos pelo povo, mas pelos donos do poder, por elites que fazem da governação fonte de enriquecimento sem escrúpulos.

A verdade é que Obama não é africano. A verdade é que os africanos - as pessoas simples e os trabalhadores anónimos - festejaram com toda a alma a vitória americana de Obama. Mas não creio que os ditadores e corruptos de África tenham o direito de se fazerem convidados para esta festa.

Porque a alegria que milhões de africanos experimentaram no dia 5 de Novembro nascia de eles investirem em Obama exactamente o oposto daquilo que conheciam da sua experiência com os seus próprios dirigentes. Por muito que nos custe admitir, apenas uma minoria de estados africanos conhecem ou conheceram dirigentes preocupados com o bem público.

No mesmo dia em que Obama confirmava a condição de vencedor, os noticiários internacionais abarrotavam de notícias terríveis sobre África. No mesmo dia da vitória da maioria norte-americana, África continuava sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmesurada de políticos gananciosos. Depois de terem morto a democracia, esses políticos estão matando a própria política. Resta a guerra, em alguns casos. Outros, a desistência e o cinismo.
Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos: é lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no nosso continente. É lutar para que Obamas africanos possam também vencer. E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos em casa alheia.


Jornal "SAVANA" – 14 de Novembro de 2008

17 novembro 2008

(eu e o Vasco, em Abril de 1975)

Brincámos juntos desde sempre.
Na minha casa, na dele em Cascais, no hotel que o meu padrinho dirigia no Algarve, em qualquer parque ou restaurante onde os compadres (os meus pais e os seus) resolvessem parar.
Apanhávamos flores, trocávamos partidas e mimos, fazíamos brincadeiras cúmplices como só os mais inocentes sabem fazer.
Ele, cabelos louros e olhos azuis, eu no tradicional castanho, saltitando ou caminhando de mão dada. Juntos, tanto podíamos ser anjos como pequenos diabinhos. Os castigos que lhe infligiam, também eu os sentia, as minhas ausências traduziam-se em saudades suas.

Um dia, o meu amigo de sempre, o meu amigo de casa e de férias, o meu companheiro de sempre adoeceu.
Eu visitava-o, primeiro em casa, onde lhe lia histórias e lhe dava doces às escondidas. Depois, no hospital. Com uma máscara que nos descaracterizava. Ele sem forças, branco e de feições alteradas, eu com a secreta esperança que tudo passasse e um dia voltasse a ser como antes. Como sempre tinha sido até então. Disparates, risadas, castigos e novamente brincadeira.
Mas não foi.

Lembro-me da minha mãe, a tentar explicar-me que poderia perder o meu amigo, nunca mais o ver. Recordo-me das minhas perguntas. Das minhas exigências: queria a verdade.
99% de probabilidade de não resistir.
“O que é 99%, mãe?”
Aguardava um transplante de medula óssea, que lhe seria dada pela irmã. Coisa que, então, se fazia em Londres. Não compareceu à data, pois o seu coraçãozinho parou antes.
Morreu com leucemia faz hoje vinte e sete anos. Faria dez anos daí a menos de um mês.

Chamava-se Vasco.
Hoje, este é o nome do meu filho.

13 novembro 2008

A chuva pingava o dia num compasso lento, nesse Outono de 1947.
As ruas do Porto apresentavam-se quase desertas, à excepção dos grupos de meninos que diariamente enchiam os bairros numa brincadeira que se estendia até à janta.
Vestiam calções puídos e camisolas desbotadas. Uns calçados, outros descalços, brincavam às apanhadas, faziam estafetas, competições de berlinde. Corriam atrás de bolas, feitas à mão com velhas meias de senhora.
Os dias escoavam-se sem história, em jogos que se repetiam, amizades infantis no bairro das Antas. Tanto lhes dava para roubar fruta nas árvores próximas - para satisfazer os défices dos estômagos revoltos - como para desatarem a correr como se as forças nunca lhes fossem faltar e o mundo estivesse para acabar.
Podia ter acabado para Rui naquela tarde.
O carro surgiu, galgando terreno desalmadamente numa velocidade excessiva para a Av. Fernão de Magalhães. Só deram por ele quando os travões produziram aquela chiadeira assustadora de quem se depara com o perigo demasiado tarde.
BONC! Um estrondo de colisão, um miúdo que voa, projectado pelo impacto do acidente.
Os amigos afluíram num ápice para ver como Rui se encontrava. A queda fora aparatosa, o embate bastante forte. Ele, só se apercebeu do sucedido uns momentos depois. Fora tudo demasiado rápido, sobretudo inesperado. O mundo de pernas para o ar, a respiração suspensa, a compreensão toldada.
As dores só viriam mais tarde. Muito depois de se ter levantado, amparado pelos outros miúdos. Muito depois de ter recusado a oferta que o condutor lhe fizera, levá-lo ao hospital. No seu susto, a ingenuidade falou mais alto e ditou-lhe que não aceitasse. Temia pela descompostura que a mãe lhe infligiria se suspeitasse do sucedido. Que, naquele tempo, o receio da ira materna era o maior dos males para quem só esperava um dia após o outro, numa eterna brincadeira de rua despreocupada, apenas ensombrada por um ou outro momento de fome…
(este conto baseia-se numa história que o meu pai me contou, que ele próprio protagonizou em criança)

10 novembro 2008

08 novembro 2008

07 novembro 2008

Uma ponte para a infância

(foto minha, tirada no Portugal dos Pequenitos)
Lembram-se daquelas ideias sonhadas na infância, tipo qual o poder mágico que gostaríamos de ter?
Pois eu dei por mim a imaginar um retorno à infâcia. Sim, acho que esse seria o desejo que agora formularia: o da capacidade de viajar no tempo, de regressar a um tempo de alegria, imaculado. Uma época repleta de brincadeiras na rua, de corridas e lá-vai-alho, de idas à baixa às compras, aproveitando para lanchar naquela pastelaria favorita.
Queria voltar ao tempo em que ainda estávamos todos, em que não compreendia como os adultos podiam, às vezes, mostrar-se aborrecidos; afinal, a vida era tão maravilhosa...
Era o tempo da ingenuidade, da amizade para todo o sempre, da harmonia. O tempo dos sonhos e de tantas coisas que entretanto se perderam...

06 novembro 2008

Pedra do tempo

Esta pedra chegou por correio electrónico. Embora não seja meu hábito publicar neste espaço nada que não seja obra minha, não resisti a colocá-la aqui para a partilhar convosco.
É que, pela minha parte, achei-lhe um piadão...

05 novembro 2008

Emoção

Fez-se História, nos EUA e no Mundo.
Fez-se História e renova-se a capacidade de sonhar.
Sonhar por um planeta mais justo, mais pacífico.
Comovi-me, não só pela expectativa de volte-face na política externa norte-americana, mas também por saber que tanta gente se sente valorizada. Gente que sentiu sempre na pele a discriminação, quando apenas tinha, a caracterizá-la, a cor.

03 novembro 2008

Reaproximo-me de ti

(fotograma meu, de um filme com mais de cinco décadas)

OS RIOS ATÓNITOS (Ouvindo "Kongo", por Miriam Makeba)

Há palavras a dormir sobre o seu largo
assombro
Por exemplo, se dizes
Quanza ou dizes Congo
é como se houvesse pronunciado os próprios
rios
Ou seja, as águas
pesadas de lama, os peixes todos e os perigos
inumeráveis
O musgo das margens, o escuro
mistério em movimento.
Dizes Quanza ou dizes Congo e um rio corre
Lento
em tua boca.
Dizes Quanza
e o ar se preenche de perfumes perplexos.
E dizes Congo
e onde o dizes há grandes aves
e súbitos sons redondos e convexos.
E dizes Quanza, ou dizes Congo
e sempre que o dizes acorda em torno
um turbilhão de águas:
a vida, em seu inteiro e infinito assombro

José Eduardo Agualusa

01 novembro 2008

Não sou de céus nem de infernos. Não acredito na possibilidade de outras vidas.
Não creio na existência de almas, apenas em personalidades que se perdem.
Também nunca fui de dar por mim a pensar nos finados, termo que, aliás, me causa um certo desconforto.
Este ano, pela primeira vez, fui voando. Na garupa da minha imaginação, vi os meus fantasmas, como eu gosto de, carinhosamente, lhes chamar.
Todos os que já não estão neste plano, aqueles que me acompanham nos meus pensamentos mais frequentes. Sobretudo o meu amigo Vasco, que partiu tão prematuramente, e o meu pai.
Gostei de imaginar que estão a rir, num tempo intemporal onde não faltarão aviõezinhos de brincar e muitos livros e lupas com que acender cigarros. Que se sentem e contacto comigo de cada vez que pronuncio o nome do meu filho ou que me lembro das mãos do meu pai, do rasto de aroma a cachimbo. E que, de certa forma discretamente secreta, se congratulam ante a perspectiva de um reencontro que eu não espero, algures na imensidão do plano infinito.

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