29 julho 2007

Homenagem



O desenho não é meu. Mas não pensem que vou alimentar o meu blog com desenhos ou textos da autoria de outros; para isso, publicava letras de músicas, extractos de livros, poemas ou ilustrações que me inspirassem e citava as fontes. Não, a ideia não é essa. Não só porque os autores que me deleitam não precisam da publicidade que eu pudesse fazer-lhes, mas também porque não foi essa a minha intenção ao criar este blog. Hoje, fica esta Lisboa, cidade onde nasci, em jeito de homenagem. Homenagem a quem fez este desenho e que descansa, para nunca mais se cansar, lá longe. A muitos milhares de quilómetros. Lá, onde a minha cabeça tem andado nos últimos tempos...

26 julho 2007

"Ganda" Dulce!


A Dulce é uma doce pessoa. Olhos azuis vivaços e sorridentes, alma de poeta e idade de muito saber e de muito querer aprender: os oitenta já lá vão, há muito...
A contrariar a tendência da educação das meninas do seu tempo, sobretudo as oriundas de meios mais rústicos, desbravou livros como desbravou as planícies alentejanas, onde viveu os primeiros anos da sua vida. Os estudos não puderam ir tão longe como a imaginação, mas a inspiração jorra do sorriso caloroso com que brinda os amigos.
Se já me deliciava a ouvir os seus contos, os poemas em que enaltece o Alentejo do seu coração, pude agora -mais recentemente, diga-se- deleitar-me com três lances de verdadeira vencedora acerca da Dulce, a quem conheço "por afinidade", já que é amiga da minha mãe e da minha tia (sendo minha amiga também, como faço questão).
Ora, estes factos novos são: primeiro, o desafio que fez às mentalidades bolorentas das suas origens geográficas, "juntando os trapinhos" com um senhor, agora que, naquelas paragens, se julga que a idade já não é para isso. Revolucionária!
(Aplaudo!)
Em segundo lugar, o tê-lo feito com um homem mais novo -esperta, a "mocinha"!...
(Aplaudo de pé.)
Terceiro lance: está, uma destas noites, ao telefone com a minha mãe, a conversa a meio, e interrompe subitamente: "Olha, o Allen Gomes a falar de sexologia" (julgo que na televisão). E acrescenta, logo de imediato: "Depois falamos mais, noutra altura, está bem? Gostava de o ouvir."
(Aplaudo e incito: "bis").
Por fim, de enaltecer a iniciativa dos filhos do senhor que é, agora, o feliz marido: não é que ofereceram ao casal um computador, para que a doce Dulce se inicie nas lides informáticas, como ela tanto desejava, e passe a escrever como verdadeira revolucionária tecnológica?
Aguardamos o próximo livro, parido na era DPI (Dulce pós-informatização).

19 julho 2007


Hoje, 43 anos decorridos sobre a tua morte, chegas junto de mim, trazendo-me uma história.
Chegas por cartas, histórias e filmes. Chegas em novas fotografias e em questões recentes.
E eu descubro um um profissional, um aventureiro apaixonado pela vida, que parte para Angola deixando cá as suas âncoras.
Sais em busca de melhores condições e descobres um mundo inimaginável, do qual não mais te separas.
Angola, em 1948, é capim e trilho no mato, mas é também piscina, cinema e condições médicas superiores, nesse ambiente à parte, que era o da Diamang.
Animais assustadores, nativos desconhecidos, distâncias incalculáveis. que depressa se convertem em animais apaixonantes, colaboradores dedicados e percursos aparentemente curtos.
Apesar de teres ido para onde ninguém conhecido te esperava, nunca te lamentas, antes te entusiasmas.
Não há desgosto que te arrase, nem leão que te amedronte. As intrigas não te derrubam; tu és coragem e determinação. És sensibilidade e fortaleza, subordinado e chefe.
Pões a minha imaginação a mil, fazendo desfilar navios, trilhos, caçadas,trovoadas e mosquitos, colegas, festas, diamantes, feras e paludismo, num caleidoscópio que é passaporte para a tua realidade.
E és escritor e cineasta, amor e desamor, prosperidade e privação.
A telefonia, a câmara de filmar e a máquina fotográfica são tradução dum trabalho duro mas envolvente, duma experiência de vida que acabará por ser, também, de morte.
Aventura, descoberta, saudade, paixão, amizade, diamantes, Natureza, calor, paisagens deslumbrantes, África, tragédia. Tudo isto és tu, numa história que agora me contas e que eu ouço estarrecida, expectante e absolutamente maravilhada.
Uma história que eu prometo contar, um dia.

09 julho 2007


Eu sou um quadro, uma tela com um corvo que a avó fez.
Ela disse ao menino que costuma vir cá a casa que me vai oferecer a ele. Mas eu espero que ela se esqueça do que prometeu; vivi sempre aqui, nesta salinha acolhedora, rodeado de outros quadros, caixas e caixinhas, jarras e pratos que a avó faz nos serões.
Fazemos companhia uns aos outros, a sala é linda porque nós lhe transmitimos cor e eu gosto deste ambiente calmo.
Quando o menino chega, há sempre mais movimento e mais barulho. Eu até não me importo, mas não me apetece nada separar-me dos meus amigos e dos meus irmãos, que são quadros da mesma colecção. Damos inspiração à avó quando ela precisa de escolher que trabalho há-de fazer e ajudamo-la na escolha das cores. Depois, quando ela vai deitar-se, ainda comentamos, baixinho, uns com os outros, a habilidade que ela tem para estas artes.
A campaínha da porta toca. Quem será?
Olha, é o neto. A mãe trouxe-o para passar a noite com a avó.
Vem eufórico. Salta para a cama da avó e, ainda não acabou de contar a sua brincadeira com um amigo, já está a pedir "qualquer coisa para comer". A avó faz-lhe a vontade, como habitualmente.
A seguir, encaminham-se para a salinha que habito com os meus irmãos e mostra-nos ao menino: "Vês como ficaram os quadros que fiz para ti? Gostas?". Sinto-me vaidoso, pois os olhos do petiz sorriem, num brilho contagiante.
Mas logo entristeço, quando a senhora continua "Amanhã já podes levá-los para a tua casa".
Não, deixa-me ficar, não quero ir embora daqui, insisto, numa voz surda para a nossa criadora.
O menino continua a mirar-nos, encantado, enquanto eu, derrotado, lamento não poder decidir o meu destino.
Porém, a surpresa chega quando a avó começa por envolver um dos meus manos num plástico, daqueles com bolinhas, que miúdos e graúdos tanto gostam de fazer estalar. De seguida, faz o mesmo comigo; depois, é a vez dos restantes irmãos.
Na companhia deles já me sentirei menos perdido, mas como será viver noutra casa?
Pensamentos como este preenchem a minha última noite na casa da minha criadora, aconchegado juntinho aos meus manos, todos dentro do mesmo saco.
Começa um novo dia. O rapazinho, sentindo-se já nosso dono, pega, orgulhoso, no saco para o levar para a sua casa. E lá vamos nós, que nunca antes tínhamos saído de casa, no carro do pai do menino, até à nova morada.
Aqui, a surpresa foi total. E muito agradável: esperava-nos uma parede inteira, onde nos colocaram todos juntos uns aos outros para poderem apreciar a nossa beleza.
À medida que a família e os amigos vêem a nova decoração deste quarto de criança, recebemos mais e mais elogios. Ficamos todos vaidosos!
Cada vez gosto mais da minha nova casa. É bom acompanhar as brincadeiras do meu novo dono e do seu irmãozinho. Muitas cores e cantiguinhas nos embalam nesta nova vida.
E o melhor de tudo é que ganhámos toda esta animação sem perdermos de vista a nossa criadora: a avó vem cá muitas vezes brincar com os netos, e deita-nos sempre um olhar carinhoso...

07 julho 2007

Viagens Sentimentais




"Tudo em que o Tiago toca se transforma em escrita. Umas vezes é mais reportagem, outras vezes é mais literatura de viagens. Umas vezes é mais lírico, umas vezes ensaísta e quase historiador, outras épico, outras picaresco. Às vezes as saudades apertam e ele torna-se mero mortal apaixonado".
Assim se refere Luisa Costa Gomes ao Tiago, no prefácio de Viagens Sentimentais.

Na nota introdutória, o próprio Tiago serve um aperitivo delicioso: "Às vezes, quando faz sol cá dentro, considero-me uma espécie de homem ilustrado, tantas as aventuras (poucas as desventuras), tantos os encontros (e desencontros), tantos os anjos (e anjas)-da-guarda". (...)
"De resto, traz-me aqui, aos livros, uma vontade compulsiva de contar histórias, a mesma que me fez querer ser jornalista e andarilho- o ofício a que ninguém reconhece seriedade.
Desapertem os cintos e boas viagens".

Sobre o autor, digo eu que é um vagabundo das palavras, em busca do seu eu pelo mundo. Pôs em prática a paixão pelas viagens, delas fazendo o seu ofício. Em troca da grande maturidade que alcançou, tem pago o preço mais elevado que alguém pode pagar: acompanha o crescimento da filha ao ritmo que a profissão impõe e hipoteca o grande amor a quem, numa das viagens sentimentais, consagra palavras saídas directamente do coração, per sempre...
Se há alguém cujas experiências são dignas de serem publicadas, é ele. Se há escrita sentida e apaixonada, é a dele.

A todos os que amam os livros, apreciam viajar ou, como eu, anseiam por um período -nem que seja único na vida- de completa aventura, ao encontro de outras gentes e costumes, sem conforto, nem horários à ocidental, nem preconceitos, eu apelo à leitura desta obra.
A delícia proporcionada na evasão relatada é fiel e habilmente servida pela narrativa atenta, ritmada e conhecedora, de quem se aventurou com João Garcia numa escalada no Nepal, "coisa de manicómio ou de masoquista", de alguém que interiorizou as regras mongóis para montar uma tenda, que percorreu todo o trilho do Transiberiano e que é a mesma pessoa que inventa uma história para explicar à filha o que é o amor.
As eternas referências literárias (eternas porque são ao mesmo ao estilo do Tiago) e as fotografias, escolhidas a preceito, concorrem para a excelência deste testemunho.
Os agradecimentos, no final do livro, aos indígenas -sobre os quais diz "Não foram apenas passageiros. Fizeram a fortuna das viagens." -constituem um digestivo saboreável em qualquer momento e sempre memorável, pela riqueza espiritual de cada uma destas personagens reais.

Este post pretende apenas publicitar uma obra imperdível. Não é ainda a apreciação final sobre a mesma. Essa está na forja para daqui a uns dias. Porque o Tiago já me enviara o texto completo do livro, mas não escravizei a impressora com palavras não palpáveis. Preferi aguardar, para poder saborear o cheiro saído das páginas impressas dum livro novo, as imagens inspiradoras e o o relevo dum título rico em conteúdo. Como o Tiago e os que melhor me conhecem sabem, o prazer da leitura é, para mim, um prazer global, estimulante dos sentidos.
Para outra oportunidade ficará também o lançamento da obra-prima ("prima" no sentido de "primeira", entenda-se, pois estou certa que esta terá um dia irmãs de qualidade idêntica ou superior).







05 julho 2007

A Fórmula de Deus



Posso passar sem muita coisa, mas nunca sem livros. Ando sempre a namorar algum. Todos me fazem companhia, tornando-se meus amigos por uns dias, alguns dão-me mais prazer que outros, quase todos têm algo a ensinar-me, chegando alguns a marcar-me, mesmo.
Não duvido que A Fórmula de Deus será um dos livros da minha vida.
Por demonstrar como a nossa ignorância sobre o sistema que nos rodeia é directamente proporcional à dimensão deste sistema.
Por nos conduzir através da ligação entre a consciência, a biologia, a a química, a física e a matemática.
Por nos explicar as teorias acerca do início e do fim do nosso Universo e da possibilidade de existência de outros.
Por fazer aumentar a minha curiosidade (nascida em livros sobre o Cosmos, como a Breve História do Tempo) a respeito de temas tão importantes como as questões fundamentais da física, da cosmologia e da matemática.
Por mostrar como a pequenez anda a par do infinitamente enorme, como a lógica matemática nos cerca nas constantes do Universo, como a consciência é inevitabilidade eterna e as leis do Universo são omnipresentes, omnipotentes e omniscientes, sendo ainda eternas e absolutas.
Por ter a habilidade de apurar o nosso apetite literário dando-nos a saborear, no meio de um enredo lógico-científico, uma cena sensual deliciosa.
Sem nunca se desviar do tema central do romance, José Rodrigues dos Santos presenteia-nos com estes pontuais fragmentos erotizados que vêm conferir maior interesse e realismo ao enredo já tão envolvente. Tudo com um fabuloso pano de fundo, com estimulantes do apetite tão carismáticos como Albert Einstein e tão míticos e atractivos como o Tibete.
Tal como em A Filha do Capitão ou no Códex 632, a leitura de J.R.S. aprisiona-me; voluntariamente, claro. Não consigo desprender-me das personagens, da narrativa, dos ambientes retratados pormenorizadamente. Viajo (eu, que tanto adoro viajar, mas que não tenho tido condições para tal ultimamente) nestas histórias saboreando a aprendizagem que só os livros paridos duma intensa entrega e paixão nos conseguem transmitir.
É o querer chegar ao fim de uma obra sem querer terminar o prazer da sua leitura.
A Fórmula de Deus "apanhou-me" numa fase (mais uma...) de incerteza, angústia e, sem exagero, sofrimento. Uma daquelas fases da vida em que tudo é medido, repensado, analisado, em busca do sentido que a vida encerra. O mesmo sucedeu com o Códex 632, numa fase anterior.
Não obstante estas coincidências, irei sempre associá-los a umas horas muito positivas do meu percurso de leitora ávida.
Da leitura da Fórmula, fica-me o reforço da convicção de que somos menos que quase nada neste Universo. Mas temos a responsabilidade de aproveitar as inúmeras afinações das condições que favoreceram não só a produção de vida, como também a própria existência da nossa espécie e da sua capacidade racional.
Acredite-se ou não na tese deste romance, diria que é de leitura obrigatória, se a palavra "obrigatória" não tivesse uma conotação desagradável. Opto, então, pelo termo "recomendável". Muito recomendável.
Sem quere ser reducionista, parece-me razoável inferir que o conhecimento é o melhor objectivo que nos podemos propor e que os afectos são a nossa melhor bússola.
Mas é possível que só a minha experiência aponte para esta conclusão. Resta a cada um ler, e daí retirar a sua própria.

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